4 - 'Eu me identificava mais com funcionários do que com professores e alunos', diz aluna negra da USP

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "Eu vou do lugar de menor renda per capita da Cidade Universitária para o de maior", diz Jéssica Marcolino, 25, que mora no Crusp, o conjunto residencial da Universidade de São Paulo, e estuda na FAU, a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo.

Ela entrou na USP em 2017 por meio de cotas para estudantes pretos, pardos e indígenas (PPI) de escolas públicas do Sisu (Sistema de Seleção Unificada, do Ministério da Educação), via Enem —cerca de 3.000 das mais de 11 mil vagas da USP são oferecidas dessa forma. Em 2018, a USP daria início ao seu programa de inclusão, via Fuvest, com o aumento gradual de cotas, até atingir, em 2021, a meta final, de 50% para estudantes de escolas públicas, sendo 37,5% dessas reservadas para PPIs —equivalente a 18,5% do total de vagas da USP.

Jéssica Marcolino, 25, que mora no Crusp, o conjunto residencial da Universidade de São Paulo, e estuda na FAU, a Faculdade de Arquitetura e Jéssica se forma neste semestre e diz ser a "única mulher visivelmente negra de sua turma, de 150 alunos". Homens, "há uns cinco visivelmente negros" --"visivelmente" porque o sistema de cotas considera o que a própria pessoa declara sobre a cor da sua pele.

Ela conta que sempre sentiu um distanciamento grande entre a realidade do Crusp, onde moram os estudantes de baixa renda, e a da FAU, em que a maior parte dos alunos ainda é branca e da elite econômica.

"Sempre me identifiquei mais com os funcionários da faculdade, como os técnicos de laboratórios e os porteiros, do que com os professores e alunos", diz. "Nos funcionários eu via rostos conhecidos, pessoas da minha classe social, e eles diziam para procurá-los se eu precisasse de ajuda."

A sensação de pertencimento à USP melhorou recentemente, com o surgimento de coletivos de estudantes negros, e Jéssica se tornou atuante no Malungo, da FAU. "Com esses grupos, a gente entende que não está sozinha e que não pode se isolar."

Estudante de escolas públicas a vida toda, ela afirma que "jamais teria conseguido" uma vaga na FAU sem a política de cotas. A USP era distante da sua realidade. "Tem gente que me apresenta assim: 'Essa é minha amiga da USP'. Não se lembra nem de falar o meu nome. É como se eu fosse a própria universidade e não existissem nisso contradições", reflete. Agora, mais ao final do curso, sente-se parte da comunidade, "muito uspiana", mas a sensação mistura orgulho com "uma carga enorme".

Mineira de Belo Horizonte, filha de cuidadora de idosos e de ajudante de marcenaria, Jéssica teve dificuldades para conciliar a faculdade, em período integral, à necessidade de trabalhar. Da USP, recebeu bolsa de R$ 400 por mês, então precisou correr atrás de estágios com horários flexíveis, que não são fáceis de se encontrar, ou bicos à noite, como o de garçonete.

Além do desafio de se sustentar financeiramente, enfrentou dificuldades para acompanhar algumas disciplinas, especialmente na área de exatas. Ela conversou com o professor sobre isso, e ele a aconselhou a procurar cursos na Poli, a faculdade de engenharia. "Estou correndo atrás de monitorias, de ajuda de colegas."

Jéssica precisa entender bem conteúdos de exatas especialmente para uma disciplina da FAU, Mecânica de Solos e Fundações. A matéria é essencial para o seu trabalho final de graduação, em que ela elabora uma espécie de SUS da construção civil.

"Proponho a criação de UBCs, unidades básicas da construção, em que as pessoas de baixa renda recebam auxílio para resolver problemas dessa área, como construir em áreas íngremes sem risco de deslizamento e também com casas mais sustentáveis", conta Jéssica, em um claro exemplo da riqueza da inclusão na universidade.

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