40 anos depois, o heavy metal ainda tem a cara e o corpo de “Sad Wings of Destiny”

O primeiro contato que eu e todos os demais roqueiros brasileiros dos anos 70 tivemos com um grupo chamado Judas Priest foi em 1977, quando a gravadora CBS lançou aqui no Brasil por conta de alguma dádiva celestial o álbum Sin After Sin. O choque foi imediato! O álbum era uma paulada inacreditável para os ouvidos daqueles tempos. Fez um estrago considerável na cabeça  da gente e em nossas carteiras com quase sempre umas poucas notas.

Como aqueles eram tempos em que a informação era obtida depois de imensos esforços, fui atrás dos álbuns anteriores do grupo inglês. Nada. Em nenhuma loja, mesmo aquelas que comercializavam LPs importados, havia qualquer álbum do grupo.

Meses se passaram até que um dia, entrando no antigo Museu do Disco da rua Dom José de Barros, no centro de São Paulo, lá estava ele, colocado em destaque na parede da loja. Com uma capa espetacular e absurdamente colorida até para os padrões da época, retratando a queda ao inferno do anjo Lúcifer no exato momento em que ela aconteceu, o disco que eu tanto queria estava ali, pronto para ser adquirido pelas minhas suadas economias: Sad Wings of Destiny, o álbum anterior ao tão adorado Sin After Sin.

Voltei para casa de ônibus e tenho certeza que muitos passageiros estranharam a maneira como eu segurava a sacola de plástico da loja, junto ao peito, como se eu carregasse algum tipo de tesouro. E eles não estavam errados em pensar desta forma.

Sinceramente, no exato momento em que escrevo este texto não consigo encontrar as palavras certas para definir a sensação que tive ao deslacrar o LP e colocá-lo para tocar. A cada faixa, meu queixo caía cada vez mais, a ponto de lá pela metade da audição ele já estava por cima de meus pés. A mesma sensação ocorreu com meus amigos, com gente que eu não conhecia e até mesmo alguns músicos famosos – como Dave Mustaine e Eddie Van Halen - que, anos depois, relataram a mesmíssima sensação.

Por muito tempo este álbum significou para todos nós uma espécie de “ escapismo”, por onde nos afastávamos momentaneamente do presente para expor nossos pensamentos em relação àquelas sensações de entrega da alma que só a música – mesmo pesada, agressiva e incrivelmente melódica, como no caso de Sad Wings of Destiny - pode propiciar.

Eu poderia gastar algumas linhas explicando porque os guitarristas Glenn Tipton e K.K. Downing ocasionalmente se tornaram líderes revolucionários de uma maneira de ouvirmos o instrumento tocado em duplas e com harmonias que congelavam a nossa espinha. Ou tecer longas explicações a respeito de como o vocalista Rob Halford afetou profundamente a nossa percepção de interpretação de uma canção com diferentes nuances, sempre surpreendentes e jamais entediantes. Prefiro apenas dizer que, se a canção “Black Sabbath” foi o marco-zero daquilo que viemos a conhecer como “heavy metal”, ninguém personificou melhor todas as características – musicais e estilísticas – do estilo como o Judas Priest. E Sad Wings of Destiny, quatro décadas depois, continua sendo a obra prima que deu forma ao “monstro”.