40 anos dos Jornais de Bairro: entenda por que o perfil do morador da Barra se tornou mais diverso

Em 1982, quando O GLOBO-Barra foi criado, a Barra da Tijuca começava seu processo inexorável de urbanização e crescimento, e o Plano Lucio Costa, concebido com o objetivo de nortear essa expansão, no fim dos anos 1960, podia tanto ser seguido quanto solenemente ignorado nos projetos. A população na Área de Planejamento 4 da cidade, que engloba Barra e Jacarepaguá, era de cerca de 400 mil habitantes, e a Avenida das Américas, via expressa que ligava Rio a Santos (SP), tivera um trecho duplicado mas ainda não contava com sinais de trânsito.

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A Avenida Lucio Costa, na orla, chamava-se Sernambetiba, e o campeão de voo livre Pepê fazia sucesso também com sua barraca de sanduíches naturais na beira da praia, que atraía tantos visitantes à região quanto o Bar do Oswaldo ou o trecho da Estrada da Barra da Tijuca conhecido como Rua dos Motéis. Pescadores se esbaldavam no início da Praia da Barra e nas lagoas, e o Recreio dos Bandeirantes era predominantemente rural.

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O GLOBO-Barra preparou uma série de matérias que relembram seis profundas mudanças pelas quais a Barra e os bairros vizinhos passaram nas últimas quatro décadas, todas devidamente documentadas pelas páginas do caderno. Esta aborda a diversificação do perfil dos moradores da região.

Ocupação cada vez mais democrática

De 1980 a 2010, a população da Área de Planejamento 4 do Rio de Janeiro passou de 385.044 habitantes para 909.955, de acordo com dados do Instituto Pereira Passos (IPP) baseados no último Censo Demográfico do IBGE. A atualização deste dado virá com a contagem da população em 2022. Mas o fato é que, mais do que em termos de número, a Barra testemunhou uma mudança no que diz respeito ao perfil dos moradores, cada vez mais diverso.

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— Nos anos 1960, o bairro era habitado por pessoas de alta renda, motivadas pelo isolamento da região. A partir da década de 1980, a melhoria de acesso à Barra facilitou o processo de ocupação e passou a atrair outros perfis de renda — explica Alexandre Lourenço, professor do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Uerj. — Isso fez com que a oferta de produtos imobiliários começasse a ser mais diversa, considerando também as rendas inferiores, até porque a crise de endividamento daquela década afetou a sociedade de cima para baixo e saturou a demanda da alta renda.

Ainda assim, em 2019, a maioria da população tinha mais de 60 anos e pertencia à classe A. Mas profissionais liberais e empresários de pequeno e médio portes dedicados à prestação de serviço e ao comércio, segundo o IPP, também vêm ganhando espaço. Essa população tende a estar mais próximo da praia, onde os imóveis são mais caros, enquanto as demais classes sociais estão em imóveis mais distantes da orla, onde os preços são menores.

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A região atrai ainda uma população jovem, que busca qualidade de vida por um valor mais em conta do que o da Zona Sul do Rio. Como a jornalista gaúcha Mariana Moura, que divide um apartamento na Barra, na altura da Ponte Lucio Costa, com amigas.

— Vim do Rio Grande do Sul para o Rio há sete anos e, para ficar perto do trabalho, acabei vindo morar na Barra, que eu adoro. Aqui tem uma praia linda e infraestrutura. Moro pertinho de tudo e, ao contrário do que a maioria das pessoas fala, consigo fazer tudo a pé — conta ela.

Segundo o Sindicato de Habitação (Secovi Rio), a média do preço do metro quadrado na Barra custa R$ 11.918, enquanto em Ipanema, por exemplo, é quase o dobro, R$ 20.577.

Em comum entre a maior parte dos moradores da Barra e dos bairros adjacentes, há o desejo de viver dentro de condomínios, com segurança e sem precisar sair para contar com boa oferta de lazer e serviços.

A pandemia fez surgir ainda um outro tipo de morador: aquele que passou a ficar mais tempo em casa e busca espaços maiores e mais arejados para acomodar a família.

Amanhã: as praias

A série sobre as mudanças na região da Barra da Tijuca já abordou as transformações na mobilidade e o perfil dos moradores. Amanhã, o tema serão as praias da região, parte do roteiro turístico da cidade.