40 anos sem Garrincha: Onde e como a memória do ídolo é preservada

Não é preciso muito esforço para esbarrar com algum Mané Garrincha. Uma pesquisa rápida no Rio de Janeiro, por exemplo, aponta duas creches públicas (Bangu e Marechal Hermes), uma escola municipal (Campo Grande), uma Vila Olímpica (Caju), dois Centros de Atenção Psicossocial (Santa Cruz e Tijuca) e uma praça (Inhaúma). Pelo país, o mais famoso é o Estádio Nacional de Brasília, um dos palcos da Copa de 2014. Quarenta anos após a morte do ex-jogador (completados nesta sexta), é inegável que seu nome siga em alta. Mas e o homem por trás dele?

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Com um fim de vida marcado pelo alcoolismo e pelo empobrecimento, Garrincha não deixou pertences catalogados (quiçá reunidos). Muitos itens que ajudariam a contar sua história se perderam. Ainda assim, sua memória é mantida viva. Em diferentes locais é possível conhecer sua trajetória e ter noção de seu tamanho no futebol.

Um exemplo, óbvio até, de onde isso ocorre é a sede do Botafogo. O local possui um tour através do qual o visitante pode conhecer a história do clube, com destaque para o futebol, e de seus ídolos, dentre os quais Garrincha ocupa papel de destaque.

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No tour do Maracanã, o eterno camisa 7 também ganha holofotes. Além de sua pegada na calçada da fama, há outros objetos do ex-jogador, como um par de chuteiras e o uniforme utilizado na Copa do Chile, em 1962.

Para além das fotos, bustos e imagens tradicionais, é possível ter um contato mais próximo com Garrincha visitando Pau Grande. O bairro da cidade de Magé, na Região Metropolitana do Rio, se tornou famoso por ser a terra natal do ídolo do Botafogo e da seleção brasileira. E não esconde o orgulho.

São duas escolas (uma municipal e outra estadual) com o nome do filho ilustre, além de um ginásio poliesportivo e de um posto de saúde. No segundo semestre do ano passado, a prefeitura lançou um passeio guiado com o ex-jogador como tema. Acompanhado de uma guia turística, o visitante percorre as ruas do bairro e conhece alguns dos locais mais identificados com Garrincha.

Fazem parte do roteiro a casa onde ele passou a infância (e corria atrás dos passarinhos garrincha, que lhe deram o apelido) e a que viria a morar mais tarde, dada em 1962 pela fábrica local de indústria têxtil como presente pelo protagonismo na conquista da Copa do Chile. O Esporte Clube Pau Grande é outro atrativo, assim como o gramado da Barreira, um campo encravado no meio da mata e no alto de um morro onde o ponta-direita jogava peladas antes e até mesmo durante a fama (obrigando o Botafogo a mandar um carro para buscá-lo quando não retornava ao Rio para os jogos) . O passeio se completa com a igreja de Sant’Ana, na qual ele foi batizado, e a praça principal do bairro, que conta com um busto dele.

Quem já realizou este passeio foi o técnico do Botafogo, Luís Castro. Em maio do ano passado, o português fez questão de conhecer mais da história do maior ídolo do clube. No campo da Barreira, ele pediu para ficar um tempo sozinho. Por alguns instantes, contemplou o local onde Garrincha deu seus primeiros chutes na bola.

Por outro lado, a experiência também mostra como, em termos de estrutura e de bens, o legado de Garrincha ainda convive com a falta de cuidados. No pequeno memorial dedicado a ele no Esporte Clube Pau Grande são nítidos os problemas de conservação, principalmente pelo excesso de poeira e pelo estado dos troféus. Já a casa onde ele morou está à venda e fechada para visitação.

Artigo de colecionador

Um projeto tenta furar esta dificuldade de preservar sua memória nos tempos de hoje. O “Memorabília do Esporte”, especializado em itens para colecionadores, produziu uma série limitada de estatuetas do craque usando o uniforme do Botafogo. Pesando cerca de 1,2kg, produzidas em 'pedra artificial' e pintadas à mão, elas são licenciadas pelo clube e vêm com certificado de autenticidade. Segundo Samy Vaisman, co-fundador da marca, o produto atraiu o interesse não só de torcedores alvinegros, mas de amantes do futebol em geral.

Para este ano, ainda estão previstos o lançamento de uma HQ e de uma série de NFTs de Garrincha. Ambas em números limitados. A venda de todos os produtos gera royalties para os familiares do ídolo.

— Nossa missão é resgatar histórias e eternizar feitos e ídolos. — afirma Vaisman. — Como país, não sabemos respeitar os ídolos, especialmente em vida. Garrincha é uma figura emblemática, um ídolo mundial que nunca teve o devido valor ou respeito com a sua história salvo em raríssimos momentos.

Quem concorda com ele é Maria Cecília dos Santos. Uma das filhas de Garrincha, ela luta para que a imagem do pai seja mais divulgada. Em sua casa, em Oswaldo Cruz, fez uma espécie de memorial do pai. Estão lá fotos, homenagens recebidas e réplicas de camisas. Não tão raro, torcedores batem à sua porta e pedem para conhecer o local, o que permite com prazer:

— Não posso deixar a imagem dele ser esquecida — conta. — A gente precisa botar mais o Garrincha na cabeça do povo.