40 milhões de crianças e adolescentes estão expostos a riscos climáticos no Brasil, diz Unicef

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Mais do que efeitos imediatos, como falta de água, violência e doenças respiratórias, os riscos climáticos representam uma ameaça para o futuro de crianças e adolescentes no Brasil.

Pelo menos 40 milhões de brasileiros com até 18 anos de idade estão expostos a mais de um risco ambiental, como contaminação por pesticidas, poluição do ar, falta de água e enchentes fluviais. O número representa 60% da população nesta faixa etária no país.

É o que mostra o relatório Crianças, Adolescentes e Mudanças Climáticas no Brasil, publicado pelo Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) nesta quarta (9).

O estudo reúne dados do Unicef, artigos e relatórios de órgãos brasileiros e internacionais para traçar um panorama da situação climática e ambiental no Brasil, com foco nos impactos entre crianças e adolescentes.

"São os que menos contribuem [para os riscos], mas os que vão sofrer as consequências de forma mais intensa e por mais tempo", diz Paola Babos, representante interina do Unicef no Brasil.

O principal dano listado no documento é a contaminação por pesticidas —pelo ar ou pela água—, que atinge 27,8 milhões de crianças e adolescentes brasileiros e que pode comprometer o desenvolvimento físico e intelectual dos grupos.

Para Danilo Moura, oficial de avaliação e monitoramento do Unicef, os planos para lidar com a questão ainda são muito técnicos, e "falta gente" neles.

"Falamos do uso de pesticida como algo muito técnico, como se dissesse respeito à produção de alimentos de forma geral. Mas o princípio tem de ser o da prevenção deste uso de químico", diz. "É importante dizer que essa política precisa inclusive levar em consideração riscos específicos de crianças e adolescentes", acrescenta o especialista.

A poluição do ar —que aparece em segundo lugar na lista, com impactos em 24,8 milhões de pessoas até os 18 anos— deve ser uma prioridade e já tem compromissos assumidos, como o Acordo de Paris, de 2015.

"É o pressuposto de toda a discussão. Brasil e os outros países precisam reduzir emissões [de gases-estufa], precisamos de um horizonte de zero de emissão líquida nas próximas décadas ou nada do que falamos aqui faz sentido", afirma Moura.

Embora todas as ações sejam consideradas urgentes, é preciso identificar quais comunidades serão afetadas primeiro. "Geralmente são territórios indígenas e de comunidades tradicionais, população negra e de meninas os grupos mais impactados", diz Paola.

O risco de falta de acesso a água, por sua vez, ameaça 8,6 milhões de crianças e adolescentes brasileiros, e é modificado por alterações na frequência e na intensidade de chuvas.

Para Moura, isso exige que a administração e o investimento na infraestrutura de recursos hídricos se preparem para as mudanças no padrão pluvial, que vão continuar a acontecer e cada vez mais rápido.

"Não existe muito atalho. É um direito humano e esse investimento público precisa ser feito no longo prazo", diz ele.

O relatório foi apresentado ao Itamaraty na preparação para a COP27, a conferência da ONU (Organização das Nações Unidas) sobre mudanças climáticas, que acontece até o próximo dia 18 em Sharm el-Sheikh, no Egito. A aposta do Unicef é a mobilização por agendas e decisões para a juventude feita por jovens que vêm de locais de maior vulnerabilidade social.

"O nosso papel de diálogo é estimular jovens a reconhecer o problema e a entender que são os sujeitos transformadores dessas soluções", diz Rayanne França, oficial do programa cidadania de adolescente do Unicef no Brasil.