400 mil mortes não são inesperadas: há um ano Manaus já estava em colapso

Redação Notícias
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Public funeral service workers help to remove the body of Jose Bernardino Ferreira, 77, who died from complications related to COVID-19 in his home, in Manaus, Amazonas state, Friday, Jan. 22, 2021. The number of people who die in their homes amid the new coronavirus pandemic is growing due to the lack of availability in hospitals and the shortage of oxygen. (AP Photo/Edmar Barros)
Agentes funerários ajudam a retirar o corpo que faleceu por complicações relacionadas à COVID-19 em sua casa, em Manaus. (Foto: AP Photo/Edmar Barros)

O Brasil atingiu, no início da tarde desta quinta-feira (29), a marca de 400 mil mortes em decorrência da Covid-19. Entretanto, o triste patamar alcançado não pode ser considerado "inesperado". Há exatamente um ano, em 29 de abril de 2020, Manaus já enfrentava um de seus vários colapsos na saúde relacionados à Covid-19

Com somente ainda poucos meses de pandemia, a equipe do Yahoo Notícias flagrou famílias na capital do Amazonas que chegaram a abrir o caixão para se despedir dos entes mortos em enterros coletivos que chocaram o Brasil.

Assista:

TRANSMISSÃO ACELERADA CATALISOU FORMAÇÃO DE VARIANTES DA COVID EM MANAUS

A intensa circulação do novo coronavírus na capital manauara catalisou a mutação do vírus, gerando novas e mais potentes variantes. 

Primeiramente identificada em Manaus, a P.1 surgiu em novembro de 2020, cerca de um mês antes do aumento expressivo de novos casos e óbitos de Srag (Síndrome Respiratória Aguda Grave) naquela cidade, que se deu a partir de dezembro.

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A variante é cerca de 1,7 a 2,4 vezes mais transmissível, segundo artigo publicado na revista Science.

Um estudo publicado pelo Instituto Adolfo Lutz no estado de São Paulo revelou que a prevalência da variante P.1 do vírus Sars-CoV-2 já atinge 90% das amostras analisadas.

Segundo estudo, foram avaliadas 1.439 sequências genéticas que identificaram 21 linhagens diferentes circulando nos municípios paulistas.

Em janeiro, a P.1 representava 20% dos sequenciamentos. Em fevereiro, correspondia a 40%, em março a 80% e em abril, a 90%.

De acordo com a pesquisa do Adolfo Lutz, a P.1 está presente nos 17 departamentos regionais de saúde, sendo predominante em 15 regiões, com exceção de São José do Rio Preto e de Presidente Prudente, onde a P.2 é mais frequente.

Até outubro de 2020, a variante B.1.1.28 predominava e chegou a ultrapassar 90% das sequências. Havia também a B.1.1.33 que chegou a alcançar 30% das amostras.

Relembre as lamentáveis marcas atingidas no Brasil:

1ª morte por Covid-19

  • Dia 17 de março de 2020

100 mil mortes por Covid-19

  • Dia 8 de agosto de 2020 (após 149 dias da 1ª morte)

200 mil mortes por Covid-19

  • Dia 1º de janeiro de 2021 (após 152 dias das 100 mil mortes)

300 mil mortes por Covid-19

  • Dia 24 de março de 2021 (após 76 dias das 200 mil mortes)

400 mil mortes por Covid-19

  • Dia 29 de abril de 2021 (após 36 dias das 300 mil mortes)

Ambas sofreram mutações e deram origem a duas novas variantes, respectivamente: a P.2 e a N.9, que surgiram no último bimestre de 2020. Em novembro, a variante inglesa B.1.1.7 passou a circular no estado e, a partir de dezembro, a P.1 (derivada da B.1.1.28).

A B.1.1.7 está em 12 regiões do estado, com maior predominância em Campinas e Taubaté -de 12,33% e 21,05%, respectivamente. Não há registros em São João da Boa Vista, Bauru, Presidente Prudente, São José do Rio Preto e Marília.

DESCASO DO EX-MINISTRO E DEBOCHE DO PRESIDENTE

Não bastasse a pandemia, na última semana Manaus foi palco de duas cenas emblemáticas envolvendo protagonistas da maior crise sanitária já enfrentada no país. 

No dia 25 de abril, o ex-ministro da Saúde general Eduardo Pazuello foi flagrado entrando sem máscara no shopping Manauara, ignorando o decreto estadual que obriga o seu uso da proteção em ambientes fechados coletivos.

Advertido, Pazuello reagiu com ironia. "Pois é, estou sem. Onde compra isso?", questionou, rindo.

No mesmo final de semana, o presidente Jair Bolsonaro tirou uma fotografia segurando um cartaz de um CPF "cancelado", expressão usada no jargão policial para mortes ou execuções. 

A foto ocorreu nos bastidores de um programa da "TV A Crítica", do Amazonas, onde Bolsonaro foi entrevistado na última sexta-feira (24). 

Na mesma entrevista, o presidente admitiu que poderia usar as Forças Armadas contra as medidas restritivas decretadas pelos governadores.

Ao ser questionado a respeito da imagem, Bolsonaro se irritou e ofendeu um repórter. "Você não tem o que perguntar, não? Deixa de ser idiota", afirmou.

BOLSONARO ISENTA PAZUELLO DA CRISE DE MANAUS: TRABALHO 'MUITO BEM FEITO'

Às vésperas do início dos trabalhos da CPI da Covid, Bolsonaro afirmou que o seu trabalho na região de Manaus foi 'muito bem feito', assim como o do ex-ministro

A atuação do governo federal no Amazonas é uma das frentes de investigação da CPI que mais preocupa o governo. O ex-ministro Pazuello já é alvo de uma ação de improbidade administrativa protocolada pelo Ministério Público Federal do Amazonas.

Brazil's President Jair Bolsonaro greets the new Health Minister Eduardo Pazuello during an inauguration ceremony at the Planalto Palace in Brasilia, Brazil, September 16, 2020. REUTERS/Adriano Machado
O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, cumprimenta o então recém-empossado ministro da Saúde Eduardo Pazuello durante a cerimônia de inauguração no Palácio do Planalto em Brasília, Brasil, em 16 de setembro de 2020. (Foto: REUTERS / Adriano Machado)

Para Bolsonaro, entretanto, embora a crise tenha chocado a todos, 'ninguém esperava por aquilo'.

"Pessoal de Manaus, amanhã estou pousando em Manaus. Foi-me concedido o título de cidadão de Manaus. Sinal de que nosso trabalho, o meu trabalho, do Pazuello, ministro da Saúde, foi muito bem feito na região. Lamentamos a crise que teve lá, mortes, uma cosia que chocou a todos nós, mas foi uma coisa que ninguém esperava por aquilo. O governo brasileiro fez sua parte", afirmou. 

Na ocasião, o presidente estava prestes a receber da Assembleia Legislativa do Amazonas, o título de cidadão amazonense.

NA 2ª ONDA, MINISTÉRIO PRESSIONOU POR CLOROQUINA AO INVÉS DE OXIGÊNIO

Em meio à segunda onda de contágio na cidade, marcada pela crise de falta de oxigênio para pacientes de Covid-19, o Ministério da Saúde pressionou a Prefeitura de Manaus a distribuir remédios sem eficácia comprovada para tratar seus pacientes, como cloroquina e ivermectina.

A pasta, então ainda chefiada por Pazuello, considera “inadmissível” não utilizá-las, conforme documento enviado para a secretaria municipal de Saúde de Manaus. O ministério pediu também autorização para fazer uma ronda nas Unidades Básicas de Saúde para encorajar o uso das medicações.

Em ofício encaminhado à Prefeitura de Manaus no dia 7 de janeiro, o Ministério da Saúde pede autorização para visitar as Unidades Básicas de Saúde destinadas ao tratamento do coronavírus “para que seja difundido e adotado o tratamento precoce como forma de diminuir o número de internamentos e óbitos decorrentes da doença”.

Family members of patients hospitalized with COVID-19 line up with empty oxygen tanks in an attempt to refill them, outside the Nitron da Amazonia company, in Manaus, Amazonas state, Brazil, Friday, Jan. 15, 2021. (AP Photo/Edmar Barros)
Familiares de pacientes internados com COVID-19 fazem fila com tanques de oxigênio vazios na tentativa de reabastecê-los, fora da empresa Nitron da Amazonia, em Manaus, estado do Amazonas, Brasil, sexta-feira, 15 de janeiro de 2021. (Foto: AP Photo / Edmar Barros)

“Aproveitamos a oportunidade para ressaltar a comprovação científica sobre o papel das medicações antivirais orientadas pelo Ministério da Saúde, tornando, dessa forma, inadmissível, diante da gravidade da situação de saúde em Manaus a não adoção da referida orientação”, defende o ministério no documento.

'FIZEMOS NOSSA PARTE', DIZ BOLSONARO

Apesar da condução, o presidente voltou a defender seu governo e afirmou, ainda em janeiro, que "nós fizemos a nossa parte". Na mesma declaração, Bolsonaro tornou a pregar a necessidade do uso de tratamentos sem eficácia comprovada. 

"A gente está sempre fazendo o que tem que fazer. Problema em Manaus, terrível o problema lá. Agora nós fizemos a nossa parte, [com] recursos, meios", afirmou o presidente, em conversa com apoiadores em frente ao Palácio da Alvorada. A fala do mandatário foi transmitido por um site bolsonarista.

Na conversa, Bolsonaro voltou a defender o tratamento precoce e o uso de hidroxicloroquina e ivermectina, método defendido há meses pelo presidente, mas que não tem eficácia comprovada por especialistas. Além do mais, a cloroquina está associada a efeitos colaterais como arritmia.

Cientistas afirmam que não existe tratamento precoce para Covid-19.

"Hoje as Forças Armadas deslocaram para lá [Manaus] um hospital de campanha. O ministro da Saúde [Eduardo Pazuello] esteve lá segunda [11], providenciou oxigênio, começou o tratamento precoce que alguns criticam ainda. Quem critica não toma, fique tranquilo, se tiver um problema de vírus vai se agravar pela idade. Agora vê o médico e ele vai receitar, pode receitar o tratamento precoce. Se o médico não quiser [receitar], procure outro medico, não tem problema", declarou.