4.211 mortes em 24h: Brasil encara distopia em surto de estupidez

Matheus Pichonelli
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RIO DE JANEIRO, BRAZIL â APRIL 01: Burials of Covid19 victims in Cemiterio do Caju, North Zone of the city, on April 01, 2021. Brazil registers 3,769 deaths this Thursday, Covid-19: Brazil registers 3,769 deaths in 24 hours. (Photo by Fabio Teixeira/Anadolu Agency via Getty Images)
Coveiros enterram as vítimas da Covid-19 no Cemitério do Caju, no Rio de Janeiro. Foto: Fabio Teixeira/Anadolu Agency (via Getty Images)

O Brasil registrou, pela primeira vez desde o início da pandemia, 4.211 mortes por Covid em apenas 24 horas e, por algum truque do inconsciente, me lembrei da noite em que um colega do curso de treinamento em jornal diário —que na vida adulta se tornou um grande e genial amigo— saiu para acompanhar um fotógrafo em uma pauta e só voltou no dia seguinte.

Ele varou a noite na rua em busca de notícias, e só descobrimos isso pela manhã, quando reapareceu na redação com a mesma camisa da véspera. Não era qualquer noite, mas uma noite de maio de 2006, quando lideranças do PCC, o Primeiro Comando da Capital, ordenaram uma série de ataques contra agentes públicos em São Paulo.

No intervalo entre o sumiço e o reaparecimento, todos estavam em pânico, inclusive os coordenadores do projeto, responsáveis pelo treinamento e, claro, a segurança dos dez aspirantes a jornalistas.

Meu amigo voltou orgulhoso da rua e nós, apesar da preocupação, ficamos admirados com a coragem de quem colocou a vida em risco em busca da notícia.

Tínhamos acabado de chegar aos 20 e poucos anos, havia uma vida inteira pela frente e isso não parecia empecilho para colocá-la em risco por uma causa. A profissão, por exemplo.

Tudo muda quando atravessamos a outra fronteira, a dos 30 anos, e a dimensão dos riscos e limites ganha novos contornos. Os compromissos e responsabilidades também. Sobretudo quando temos filhos.

O meu provavelmente não estaria na lista de admiradores se soubesse que o pai virou herói ou mártir por uma dessas causas que nos tiram da vida para entrar para a História. O que uma criança nos primeiros anos de vida precisa é de paz e leite.

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Não é por outra razão que “Boyhood - da Infância à Juventude”, filme sobre a aparente banalidade das rotinas mundanas dirigido por Richard Linklater, se tornou um dos meus favoritos de um tempo pra cá. Meu filho tinha apenas um ano quando assisti pela primeira vez e notei como faziam sentido os versos da banda Family of Year na música-tema da trama: “eu não quero ser herói, quero só lutar como todo mundo”.

Quatro milhares de mortos. Em um dia, morreu mais gente no país do que nos dois primeiros meses na pandemia. As sucessivas falhas na condução da crise se tornaram um alçapão que já deixamos de observar. Como gravidade, corremos até a execução como soldados correm para a guerra. O Brasil não pode parar. Ficar em casa é para os fracos. Precisamos enfrentar a crise como homens, não como maricas. Vamos chorar até quando? A melhor vacina é se contaminar. O problema dos mortos é dos coveiros. Vamos todos morrer um dia.

Da primeira até a última ponta, as sentenças soam como notas musicais do flautista de Hamelin, o falso mago que lidera uma população inteira ao morticínio. E fazem escola.

Dia desses, uma professora de rede particular questionou o prefeito da sua cidade, pressionado pelos mantenedores das instituições privadas, a necessidade da reabertura das escolas quando tanta gente morre no país. O prefeito, que é do campo progressista, lembrou de Paulo Freire para dizer que ela e os docentes que o ouviam deveriam se sacrificar pela missão. É assim que se convence um pelotão a ir para a guerra. Ou o abate.

Os românticos que me desculpem, mas não venci a corrida de espermatozoides para chegar até aqui e ouvir que nada disso faz sentido e que todos, afinal, vamos morrer um dia. Se ainda estiverem ativos, meus dois neurônios sobreviventes estão aí para demonstrar que por trás de toda conversa desdenhando a vida está um sujeito apavorado com o risco de morte. Eles também me tranquilizam a respeito da ideia de que Deus, se existir, é onipresente e não ficará zangado se, no meio de uma pandemia, eu não oferecer meu corpo em sacrifício em aglomerações em Sua causa. A dupla alerta ainda para espertalhões do templo em busca de dinheiro vivo —e ensina que em transação digital é mais difícil sonegar.

Morrer pela causa é praticamente desistir da vida e sua plenitude. O novo normal deixou evidente o que nos é mais sagrado.

É possível que as rotinas confinadas dos últimos meses não fizessem inveja às almas pré-moldadas da animação “Soul” ou aos anjos de Wim Wenders que sobrevoam Berlim no filme “Asas do Desejo”. Os dois filmes são a melhor vacina contra os impulsos da desistência; aqueles anjos mas não pensariam duas vezes em trocar de lugar e poder mergulhar no experimento sensorial que é estar vivo. Como Belchior, eles também querem viver as coisas novas que também são boas (e táteis): o amor e o humor das praças cheias de pessoas, que agora queremos tudo, tudo outra vez. A elas acrescento o cheiro de terra molhada, o sol queimando na pele, o silêncio do fim de tarde, o café pela manhã, a gota de leite queimando na chaleira, o filho desperto pulando na nossa cama num sábado de manhã.

Mais do que os números, dói entrar nas redes sociais e testemunhar amigos e conhecidos se despedindo de amigos e familiares. Ao menos dois perderam o pai e a mãe para a Covid-19, que transformou em lacunas os roteiros das histórias que jamais viverão, como ver os netos crescerem. É a confirmação do que ouvíamos dos tempos da gripe espanhola. Nem todo mundo perdeu alguém na pandemia, mas todo mundo conhece quem perdeu.

É disso que se trata quando falamos “cuidem-se” ao final de cada mensagem ou ligação. Cuidem-se e sobrevivam. Nossos entes não precisam de heróis em sacrifício. Precisam de seus entes vivos. A vida não precisa ser curta, mas é intensa e valiosa demais em seus pequenos detalhes para ser ceifada no atual surto de estupidez coletiva.