5 momentos de "Pantanal" que comprovam: novela também é política!

Os peões de "Pantanal" fizeram um ensaio especial para a revista "GQ" sobre o papel da masculinidade dentro da trama, e uma fala de Juliano Cazarré chamou a atenção ao afirmar que a trama é um respiro por desviar de temas políticos para focar na natureza.

"O público brasileiro estava com saudade de uma novela que tirasse a gente desse nosso foco cotidiano, cidade, estresse, política, e estava a fim de abrir o olho mesmo para aquele verde do Pantanal, para a natureza", opinou o intérprete de Alcides.

A verdade, entretanto, é que a trama de Bruno Luperi é extremamente política: assuntos essenciais para a sociedade brasileira são discutidas diariamente no folhetim, mostrando que o alcance de uma novela das 21h na Globo pode ser poderoso na hora de criar discussões relevantes sobre temas como debate político, homofobia e misoginia.

Relembramos alguns momentos nos quais a trama discutiu assuntos políticos relevantes e misturou entretenimento com engajamento na TV aberta:

Combate à homofobia

José Leôncio (Marcos Palmeira) vai ficar surpreso com Juma como onça (TV Globo/Imprensa Globo)
José Leôncio se posicionou contra a homofobia em "Pantanal" (TV Globo/Imprensa Globo)

Zaquieu (Silvero Pereira) foi vítima de ataques homofóbicos ao chegar em "Pantanal" e motivo de chacota para os peões da fazenda de José Leôncio (Marcos Palmeira). Inicialmente, o fazendeiro não fez nada para combater o que ocorreu, mas recebeu uma bronca de Irma (Camila Morgado) e Mariana (Selma Egrei), que explicaram a gravidade do que ocorreu e que fez o ex-mordomo fugir do Pantanal por não suportar o preconceito.

Incomodado, José Leôncio foi obrigado a rever o próprio machismo, e chamou os peões para uma conversa ríspida, sem excluir os filhos da bronca. "O que aconteceu para ele ir embora desse jeito?", questionou o fazendeiro. Tadeu tentou fugir de qualquer tipo de responsabilidade, mas José Lucas admitiu: "Acho que foi ignorância da gente ter rido do jeito dele. "E daquele jeito, tinha como não rir? Nós só rimos do jeito esquisitinho dele. O senhor tinha que ver o pulinho que ele deu", disparou Tadeu rindo.

Sem entrar no clima de deboche, Leôncio lembrou da semana na qual Jove (Jesuíta Barbosa) chegou no Pantanal, e que seu filho sofreu machismo e violência nas mãos de Alcides (Juliano Cazarré). "Isso que vocês fizeram tem nome e não é piada. Chama homofobia, e é crime", explicou. "Então vamos todos presos, a começar pelo senhor", rebateu Tadeu.

"Pois é isso mesmo que deveria acontecer se esse país fosse sério. Comigo, com vocês e com todo mundo que ri do 'jeitinho dele'. Xadrez. Pelo que eu vi, de um a cinco anos. A verdade é que nascemos e crescemos rindo disso, achando que o que um sujeito fazia entre quatro paredes era prova de caráter. Mas acontece que não é. E já que estamos aqui, quero dizer que, de hoje em diante, quem fizer pouco caso de uma pessoa pelo motivo que for, pode juntar suas tralhas e seguir seu rumo", disse José Leôncio, deixando os peões chocados. Tadeu ainda questionou se o patriarca faria o mesmo com os filhos, e o fazendeiro não hesitou: "Começando por vocês sim, que é para servir de exemplo. Ponto final".

Misoginia e Lei Maria da Penha

Em um desdobramento importante da história de Maria Bruaca (Isabel Teixeira), a personagem recebeu a consultoria de uma advogada especializada em direitos da mulher, e finalmente entendeu que passou anos sendo vítima de abuso psicológico por parte do marido, Tenório (Murilo Benício). Em uma cena comovente, Bruaca conversa com Filó (Dira Paes) e finalmente recebe o apoio que lhe foi negado durante toda a vida.

Em suas redes sociais, Dira Paes falou sobre a importância da cena, especialmente em um país no qual a violência contra a mulher é um assunto essencial. "Ontem rolaram muitas cenas de Filó com Maria que pra mim são muito importantes em diversos sentidos. Mas essa aqui sintetiza questões de sororidade, acolhimento, afeto, irmandade e principalmente, informação. Quantas mulheres vemos que já passaram por uma situação como essa?", escreveu a atriz, que continuou:

"A mulher chega ao ponto de se sentir totalmente envergonhada e desacreditada por erros que o ex-marido cometeu muito antes e de forma pior. Se você está passando por uma situação de separação, busque se informar e saber de todos os seus direitos".Dira Paes

A discussão é política e essencial, especialmente para mulheres que nunca tiveram acesso a esse tipo de informação sobre o apoio dado pela lei brasileira.

Sororidade e combate ao machismo

Nos capítulos recentes de "Pantanal", Irma (Camila Morgado), Filó (Dira Paes) e Maria Bruaca (Isabel Teixeira) tiveram uma conversa delicada falando sobre machismo e o papel dos homens no aprisionamento e violência contra as mulheres.

O papo começou quando Filó revelou para as amigas que foi estuprada aos 12 anos, e passou alguns anos como prostituta por não ter para onde ir nem como se sustentar. O público, além de se emocionar com a história de Filó e o desabafo de Bruaca (que apoiou a amiga e contou parte da tortura que sofreu morando com Tenório), estranhou a reação de Irma.

Em vez de apoiar as duas e ouvir a história de vida de duas mulheres pobres e de passado trágico, a carioca repetiu várias vezes o discurso de que "nem todo homem" e que é impossível generalizar.

Quando Irma tentou se justificar, dizendo que a sociedade já avançou muito em relação ao tema, as mulheres do "Pantanal" deixaram claro o privilégio contido no discurso da carioca. "É porque você é filha de gente rica, da cidade grande", rebate Bruaca. "Pois então, já que está melhorando, manda essa tropa aí que está mudando as coisas, porque enquanto as coisas não mudam, quem toma no lombo somos nós", completa Filó.

Destruição ambiental

Sequência emocionou o público de
Sequência emocionou o público de "Pantanal" (Foto: Reprodução/Globo)

Em uma das cenas de "Pantanal" sobre destruição do bioma, a Globo usou o incêndio que chocou o mundo em 2019 e 2020 para ilustrar a novela. A informação foi confirmada pelo biólogo Hugo Fernandes, que estava no local quando a tragédia aconteceu.

"Essas cenas de fogo que vocês estão vendo agora no Pantanal são do Lawrence Wahba, Bruna Luchese, Ernane Junior e Cesar Leite. Eu estava lá em algumas cenas. Mas não era novela. É tudo real. E ainda dói", declarou em suas redes sociais.

Na época, os incêndios destruíram cerca de 4 milhões de hectares e uma área maior que a Bélgica foi consumida pelo fogo. Cerca de 4,6 bilhões de animais foram afetados e ao menos 10 milhões morreram. Na trama, inclusive, o Velho do Rio (Osmar Prado) correu para salvar a natureza e acabou queimado em forma de sucuri.

Especialmente em um dos anos mais agressivos de destruição ambiental na Amazônia e outros biomas essenciais do Brasil, falar sobre meio ambiente é mostrar a importância da pauta sustentável em meio à política brasileira.

Machismo em pauta

Pantanal fez muita gente chorar com cena de pai e filho (Foto: Reprodução/Globo)
Pantanal fez muita gente chorar com cena de pai e filho (Foto: Reprodução/Globo)

Uma cena forte entre Zé Leôncio (Marcos Palmeira) e Joventino (Jesuíta Barbosa) marcou a primeira fase de "Pantanal" e deixou o público cheio de gatilhos emocionais. Na ocasião, o peão expulsou o próprio filho de casa e disparou várias declarações machistas e homofóbicas. O filho enfrentou e rebateu o que foi dito, mas foi "vencido" pelo poder do pai e resolveu buscar abrigo na casa de Juma (Alanis Guillen). Nas redes sociais, internautas disseram que se sentiram mal assistindo a novela. Muitos se colocaram no lugar de Jove (Jesuíta Barbosa) e confessaram que já passaram por situações parecidas em casa.

Vale lembrar que Zé Leôncio (Marcos Palmeira) estava revoltado com o filho desde sua chegada no Pantanal. Ele não criou o herdeiro e ficou surpreso quando conheceu o rapaz na fase adulta. O jovem chegou com discursos desconstruídos, vegetariano, com medo de cavalo e incapaz de matar uma mosca. Não demorou muito para Joventino (Jesuíta Barbosa) virar piada na região e sua masculinidade ser questionada.

A aproximação de Jove (Jesuíta Barbosa) com Juma (Alanis Guillen) também motivou uma outra discussão entre pai e filho. O peão deu a entender que Jove estava se relacionando com a moça e não gostou quando o herdeiro respondeu que é possível gostar de uma mulher sem o interesse sexual. Em conversa com Filó (Dira Paes), Zé Leôncio (Marcos Palmeira) afirmou que o filho é uma "fêmea", o chamou de vagabundo por não ter uma profissão e o criticou por não ser como os outros peões do Pantanal.

Movido pelo ódio, ele foi até o quarto onde Jove (Jesuíta Barbosa) descansava e o expulsou de vez de casa. "Sou homem, meu pai. Não preciso sair no braço com outro cara, não preciso andar de cavalo e contar vantagem sobre mulher para ser mais homem ou menos homem que o senhor", defendeu o filho. "Você só tem meu sangue. Você puxou sua mãe e aquele avô jogador de baralho (...) Eu não sou o pai que você esperava e você não é o filho que eu queria ter mais eu. Faz tua mala e vai. Volta para o seu mundo, Joventino. Vamos tentar esquecer na medida do possível o desgosto que um tem feito o outro passar", disparou o dono das terras.