PF contradiz Moro e afirma que destruição de mensagens depende da Justiça

*ARQUIVO* BRASÍLIA, DF, 02.07.2019 - Ministro da Justiça, Sergio Moro, depõe na CCJ da Câmara sobre o vazamento de mensagens ligadas à Lava Jato, em Brasília. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

A Polícia Federal afirmou, por meio de nota, que a caberá à Justiça, "em momento oportuno, definir o destino do material" apreendido na terça-feira (23) com suspeitos de agirem como hackers.

SIGA O YAHOO NOTÍCIAS NO INSTAGRAM

A manifestação menciona entendimento da lei e contradiz o Ministro da Justiça Sergio Moro, que avisou autoridades na tarde desta quinta-feira (25) que as mensagens capturadas pelo grupo suspeito e preso pela PF seriam destruídas.

Leia também

O presidente do STJ (Superior Tribunal de Justiça), João Otávio Noronha, afirmou à Folha de S.Paulo nesta quinta-feira (25) que a informação foi dada pelo próprio ministro por telefone.

"As mensagens serão destruídas, não tem outra saída. Foi isso que me disse o ministro e é isso que tem de ocorrer", disse o presidente do tribunal. A comunicação foi confirmada à reportagem pela assessoria de Moro.

O descarte de qualquer material apreendido em operações policiais é uma decisão que cabe à Justiça e só pode ocorrer com decisão do juiz.

Na nota, a PF disse ainda que a operação deflagrada nesta semana não tem "como objeto a análise das mensagens supostamente subtraídas de celulares invadidos".

A polícia também afirmou que "o conteúdo de quaisquer mensagens que venham a ser localizadas no material apreendido será preservado, pois faz parte de diálogos privados, obtidos por meio ilegal".

"Autoritarismo", diz ex-STJ

Ministro aposentado do STJ (Superior Tribunal de Justiça), Gilson Dipp chamou de "autoritarismo" o ato do ministro Sergio Moro (Justiça) de avisar autoridades vítimas de hackers que suas mensagens capturadas seriam destruídas.

"Isso aí é um autoritarismo em nome da proteção de autoridades. O Ministério da Justiça está atuando como investigador, como acusador e como próprio juiz ao mandar destruir provas, se é que isso é verdade. Eu não estou acreditando ainda", disse Dipp à Folha de S.Paulo.

Dipp diz que a destruição do material só pode ocorrer após determinação judicial e defendeu a abertura de um inquérito para apurar o caso antes que isso seja feito.

Para ele, Moro dizer a autoridades que vai se desfazer do material coletado pelos hackers "chega a ser ingenuidade". Ele vê no descarte do material um prejuízo para as investigações e para a defesa dos acusados.

"Estamos vivendo num país surreal. Antes o STF acusava e julgava, agora eu estou vendo que o Ministério da Justiça está fazendo isso também. As instituições brasileiras estão altamente vulneráveis e por atos arbitrários, seja quem for os que praticam. É estarrecedor", afirmou.

Sem citar exemplos, Dipp chamou a declaração de Moro de "nuvem de fumaça" e "autoproteção" para encobrir acontecimentos que "talvez não se queiram que venham à tona". Moro está entre as autoridades que foram alvo da ação de hackers.

Dipp foi um dos grandes incentivadores da carreira de Moro e criador das varas especializadas em lavagem de dinheiro. Antes de assumir a Justiça, o ministro atuou como juiz titular da 13ª vara federal de Curitiba na Lava Jato.

Foi ele quem indicou o ministro para trabalhar como juiz auxiliar da ministra Rosa Weber, do STF (Supremo Tribunal Federal), no julgamento do mensalão, em 2012.