60 anos depois, remanescentes da Campanha Legalidade descartam novo golpe militar

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Leonel Brizola fazia as famosas transmissões da Cadeia da Legalidade no No porão do Palácio Piratini. (Foto: Danton Junior/Yahoo Notícias)
Leonel Brizola fazia as famosas transmissões da Cadeia da Legalidade no No porão do Palácio Piratini. (Foto: Danton Junior/Yahoo Notícias)

por Danton Júnior

Remanescentes da Campanha da Legalidade, que completa 60 anos, não acreditam na possibilidade de um novo golpe perpetrado pelo governo federal e pelos militares. O movimento, que ocorreu em agosto e setembro de 1961, ficou conhecido por garantir a posse de João Goulart na Presidência da República, contrariando o interesse dos militares da época, que enxergavam com desconfiança o político gaúcho.

A Campanha da Legalidade teve início quando, no dia 25 de agosto de 1961, o então presidente Jânio Quadros renunciou ao cargo, por razões até hoje não esclarecidas. Os ministros militares tentaram impedir a posse do vice, João Goulart, visto pelas Forças Armadas como “esquerdista”. 

No momento da renúncia, Jango encontrava-se em missão diplomática à China comunista. O movimento para que a Constituição fosse cumprida foi liderado pelo então governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, e culminou com a posse de Jango, no dia 7 de setembro, sob o regime parlamentarista.

Dono de uma sólida carreira no jornalismo gaúcho, Carlos Henrique Esquivel Bastos admite: “Foi o único episódio de toda a minha carreira profissional em que eu fui mais militante do que jornalista”. 

Na época com 27 anos, Bastos era repórter de política do jornal Última Hora, e fez do Palácio Piratini seu local de trabalho durante os dias de tensão que marcaram o movimento pela posse de Jango. “Eu só ia em casa para tomar banho e trocar de roupa”, recorda.

Governador do Rio Grande do Sul à época, Leonel Brizola liderou a Campanha da Legalidade após a renúncia do presidente Jânio Quadros. (Foto: Danton Junior/Yahoo Notícias)
Governador do Rio Grande do Sul à época, Leonel Brizola liderou a Campanha da Legalidade após a renúncia do presidente Jânio Quadros. (Foto: Danton Junior/Yahoo Notícias)

No porão do palácio, de onde Brizola fazia as famosas transmissões da Cadeia da Legalidade, Bastos dividia espaço com nomes como Luiz Carlos Barreto, Flávio Tavares e Tarso de Castro. Naquele local hoje funciona o Memorial da Legalidade, onde o público pode visitar a sala de onde Brizola discursava pelo rádio. 

Na opinião de Bastos, o movimento liderado pelo então governador gaúcho foi o primeiro contragolpe comandado por um civil da América Latina. Uma lembrança marcante é a frustração sentida quando Jango comunicou, no Piratini, que aceitaria a emenda parlamentarista – condição colocada para que ele fosse empossado presidente. “Foi a maior vaia que eu vi na minha vida”, descreve.

'DESGOVERNO' BOLSONARO E POSSIBILIDA DE NOVO GOLPE

Hoje, aos 87 anos, Bastos descreve a gestão Bolsonaro como um “desgoverno”, mas não acredita na possibilidade de um novo golpe militar. 

“Um golpe tem que ter sustentação popular, e ele não tem sustentação na popularidade”, observa. Outro ponto citado por ele é a ausência de um motivo concreto para um golpe, já que o Congresso – com exceção do voto impresso – tem aprovado quase todos os projetos do governo. 

Por fim, Bastos cita que o golpe de 1964 teve a participação ativa dos Estados Unidos, o que não ocorreria atualmente. “Qual é o país grande do mundo que apoiaria um golpe no Brasil?”, questiona, citando também a relação conturbada do país com outras potências econômicas, como a China e a União Europeia.

O então 1º sargento do Exército José Wilson da Silva ficou conhecido como Tenente Vermelho por seu apoio ao movimento da Legalidade em 1961, alcunha que dá nome ao livro que lançou em 1986. Aos 29 anos, ele aguardava uma promoção na carreira quando eclodiu o movimento pela Legalidade. Junto a outros sargentos, cabos e soldados, passou a se posicionar contra a tentativa do Exército de impedir a posse de João Goulart. 

“A Campanha da Legalidade é um marco de expressão do sentimento pátrio de Brasil”, resume. 

Eleito vereador de Porto Alegre em 1963, pelo PTB, Silva perdeu os direitos políticos após o golpe de 1964 e entrou na clandestinidade, exilando-se no Uruguai.

Na avaliação do ex-sargento, não há possibilidade de um novo golpe militar em 2021, “a não ser que surja um fato novo”. 

Memorial da Rádio da Legalidade foi criado e hoje funciona no mesmo local onde eram feitas as transmissões. (Foto: Danton Junior/Yahoo Notícias)
Memorial da Rádio da Legalidade foi criado e hoje funciona no mesmo local onde eram feitas as transmissões. (Foto: Danton Junior/Yahoo Notícias)

“Para preparar o golpe, necessita-se de uma equipe maior, que coordene, que busque apoio nos estados. Qual é o governador de Estado que estaria no golpe abertamente? Tem algum (Carlos) Lacerda? Algum Magalhães (Pinto)? Algum Ademar (de Barros)?”, questiona. 

Em 1964, por exemplo, ele cita que havia movimentação na imprensa contrária ao presidente Jango, comandada por Lacerda.

A advogada e ex-deputada estadual Terezinha Irigaray, hoje com 85 anos, estava entre as milhares de pessoas que se reuniram na Praça da Matriz, em frente ao Palácio Piratini, para receber o presidente João Goulart em seu retorno ao país, no dia 1º de setembro de 1961. 

Na época casada com o então deputado Sereno Chaise, do PTB, ela participou ativamente da mobilização pela Legalidade. “Foi um momento muito lindo da história do Rio Grande do Sul e do Brasil”, resume. 

Para Terezinha, não há ambiente para um novo golpe em 2021. “Temos um Congresso, um Senado, que eu nem admito que sejam fechados, como foi naquela época”, confia.

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