7 de Setembro: quem é o 'americano interceptado' por Alexandre de Moraes que Bolsonaro mencionou em discurso

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Jason Miller, Jair Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro posam para foto em área externa, com árvores atrás durante o dia
Jason Miller, Jair Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro em Brasília

Em discurso de poucos minutos para uma multidão de apoiadores na avenida Paulista, na tarde deste dia sete de setembro, o presidente Jair Bolsonaro mencionou ideias e nomes velhos conhecidos de seu público: falou em voto impresso, citou Deus, atacou o Supremo Tribunal Federal (STF) e disse que "não vamos aceitar que pessoas como (o ministro) Alexandre de Moraes continuem a açoitar a nossa democracia".

Logo na sequência, no entanto, Bolsonaro fez uma observação que a maior parte de seus apoiadores pode não ter entendido. "Agora há pouco, (Alexandre de Moraes) interceptou um cidadão americano para ser inquirido."

O cidadão americano que mereceu menção do presidente brasileiro em seu discurso é Jason Miller, ex-conselheiro do ex-presidente americano Donald Trump e criador da rede social GETTR, que pretende abrigar os principais representantes da direita global e se autodenomina livre de qualquer forma de moderação por conteúdo falso ou de incitação de violência.

Essa é uma pauta que se tornou urgente entre políticos de direita especialmente depois que Trump foi suspenso e banido de redes como Facebook e Twitter, onde se dirigia a dezenas de milhões de pessoas. As plataformas justificaram a punição por mensagens postadas por Trump que inflamavam o público no dia da invasão do Congresso americano por apoiadores do republicano, em 6 de janeiro.

Miller passou os últimos dias em Brasília, tanto para promover sua rede, que tem no Brasil o segundo maior país de origem de usuários, quanto para participar da Conferência da Ação Política Conservadora, organizada pelo filho do presidente, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP).

Enquanto esteve em Brasília, Miller se encontrou com o próprio presidente no Palácio do Alvorada, conforme mostram fotos publicadas por Matthew Tyrmand, um dos integrantes da comitiva ao Brasil do ex-assessor de Trump.

No mesmo período em que recebia a visita de Miller, Bolsonaro editava uma Medida Provisória que proíbe as redes sociais de removerem conteúdos ou contas que violem as normas de uso das plataformas e, na prática, libera a publicação de notícias falsas, inclusive sobre processos eleitorais.

A mudança no marco civil da internet foi batizada de Lei Trump e é vista como um anteparo para que as redes bolsonaristas não sejam tiradas do ar como aconteceu com as do republicano.

Quando deixava o país, na manhã desta terça-feira, Jason Miller foi conduzido à sala da Polícia Federal no Aeroporto Internacional de Brasília para ser ouvido no âmbito do inquérito das fake news, sob o comando do ministro Alexandre de Moraes. Bolsonaro é investigado no mesmo procedimento. Nas redes sociais, Tyrmand afirmou que Miller estava sendo "interrogado por anti-bolsonaristas da Suprema Corte".

Em sua conta de Instagram, Miller afirmou que sua comitiva foi inquirida durante três horas. "Não fomos acusados de nada de errado e eles nos disseram que 'queriam apenas conversar'. Nós os informamos que não tínhamos nada a dizer e eventualmente fomos liberados para tomar nosso voo de volta aos EUA. Nosso objetivo segue sendo compartilhar liberdade de expressão ao redor do mundo", escreveu Miller.

Em nota, os advogados do americano, Milena Ramos Câmara e João Vinícius Manssur, afirmaram que "não tiveram acesso integral aos autos dos aludidos inquéritos, motivo pelo qual (Miller e demais membros da comitiva) valeram-se do direito constitucional ao silêncio". Embora tenha saído do país no início da tarde deste 7 de setembro, os advogados afirmaram que Miller segue "à disposição das autoridades" brasileiras.

A BBC News Brasil entrou em contato com o STF e com a PF, mas nenhum dos órgãos comentou ou liberou documentação referente à ação.

Mas, afinal, quem é Jason Miller?

Jason Miller é um estrategista de comunicações políticas que participou tanto da primeira campanha de Trump, em 2016, como do esforço de reeleição, em 2020. Até junho de 2021, Miller era também um dos porta-vozes de Trump, posto do qual saiu justamente para lançar a rede GETTR, que contou com entusiasmo praticamente imediato dos Bolsonaro. Os filhos do presidente mantêm páginas na rede de Miller.

O esforço de Miller no GETTR está estritamente ligado a Trump. Em março, quando ainda era porta-voz do ex-presidente, Miller afirmou que Trump faria um retorno às redes sociais, a despeito de seu banimento ou suspensão das principais mídias. "Essa nova rede social será grande", afirmou, deixando claro o envolvimento do seu chefe na ideia que, posteriormente, lançou. Miller, no entanto, nega que Trump esteja por trás da empreitada ou tenha qualquer envolvimento no gerenciamento dela.

Foto aérea mostra Bolsonaro falando no microfone em cima de trio elétrico, e dezenas de apoiadores em volta e na rua
Bolsonaro discursando em São Paulo; em sua fala, presidente falou de 'cidadão americano interceptado'

Em agosto, em uma entrevista ao New York Times, Miller afirmou que sua plataforma já tinha quase dois milhões de usuários e comemorou a adesão de pessoas do Brasil: "Nós tivemos a sorte de ter pessoas de outros países participando. O Brasil representa cerca de 13,5% da nossa base, o que é ótimo".

Miller ganhou fama como um estrategista hábil para vencer disputas difíceis no partido Republicano desde o início dos anos 2000. Em 2008, ele participou da campanha presidencial do republicano Rudy Giuliani, que em 2020 serviria como advogado de Trump e seria o principal responsável pelas batalhas judiciais do presidente contra o processo eleitoral americano. A despeito das dezenas de alegações de fraude eleitoral de Trump, a Justiça não encontrou consistência em nenhuma de suas reivindicações.

Durante a presidência de Trump, Miller chegou a ser nomeado diretor de comunicações da Casa Branca, mas recuou da posição apenas dois dias depois, alegando que precisava passar mais tempo com sua família.

Contratado como analista político da rede televisiva CNN ainda em 2017, deixou a posição depois de ser acusado em um processo judicial de induzir uma mulher com quem teria tido um relacionamento a tomar substâncias abortivas, o que ele nega. "Decidi me afastar de meu papel de comentarista político na CNN para me concentrar em limpar meu nome e lutar contra as acusações falsas e difamatórias que estão sendo feitas contra mim", afirmou à época.

Miller tem mostrado interesse em ser uma presença na cena política brasileira, assim como o ex-estrategista de Trump, Steve Bannon, considerado um dos principais ideólogos do trumpismo.

No caso de Miller, não apenas a convergência ideológica, mas a possibilidade de crescimento de seu novo negócio, explicam o interesse. Nesta terça, Miller pintou a página inicial de seu GETTR de amarelo, mesma cor que apoiadores de Bolsonaro usaram ao ir às ruas. "Feliz dia da independência para os nossos amigos no Brasil", escreveu.

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