Os 70 anos da Otan ofuscados por divergências e fúria de Trump

Por Jerome CARTILLIER, Christian SPILLMANN
Emmanuel Macron, Donald Trump e Angela Merkel

Entre divergências abertas e risos que irritaram Donald Trump, os 29 membros da Otan tiveram dificuldades nesta quarta-feira para mostrar sua coesão frente aos obstáculos que se impõem três décadas após o fim da Guerra Fria.

Desafios impostos pelo terrorismo, a China e a Rússia, intervenção turca na Síria lançada sem consulta aos aliados, insistência americana em compartilhar mais o financiamento da segurança coletiva: não faltaram assuntos espinhosos para a reunião organizada em Watford, na periferia de Londres.

Ao final, foi um vídeo em que o primeiro-ministro canadense Justin Trudeau parece zombar com Emmanuel Macron de Donald Trump durante a recepção realizada na terça-feira à noite no Palácio de Buckingham o que provocou a ira americana.

"Ele é duas caras", declarou o bilionário republicano, que já teve problemas com Trudeau após o G7 em 2018, antes de cancelar sua coletiva de imprensa final.

Donald Trump falou longamente em várias ocasiões durante suas reuniões bilaterais na terça-feira antes da cúpula. Ele deu o tom de uma cúpula difícil, chamando de "muito ofensivas" as declarações de Macron julgando a Otan em estado de "morte cerebral".

Ao chegar em Watford na terça, o presidente francês "assumiu totalmente" seus comentários, muito criticados por seus aliados. "Eles ajudaram a levantar um debate que é essencial", insistiu. "Acho que nossa responsabilidade é superar ambiguidades que podem ser prejudiciais e assumir um verdadeiro debate estratégico".

- "Desafio" chinês -

A organização nascida em 1949 enfrenta desafios consideráveis 30 anos após a queda do Muro de Berlim.

Na declaração final adotada nesta quarta-feira, reconhece pela primeira vez a crescente influência e políticas internacionais da China como "oportunidades e desafios".

Também denuncia as ações agressivas da Rússia e alerta que permanecerá uma aliança nuclear enquanto houver armas nucleares.

A chanceler alemã Angela Merkel considerou a reunião "muito construtiva", apesar das dissensões: "Concordamos hoje que o terrorismo é o principal inimigo".

"É claro que existem diferenças, seria muito estranho de outra forma", reconheceu o secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg, ao final da reunião, que se empenhou durante os dois dias de reunião para defender o papel da Aliança.

"Sempre acabamos conseguindo superar essas diferenças e nos unir em torno do nosso principal objetivo, que é nos defendermos", ressaltou.

Stoltenberg foi encarregado de uma missão de reflexão sobre as missões da Otan no final da reunião.

O entendimento de fachada foi quase contestado pela Turquia, que bloqueou a adoção de novos planos de defesa para os Estados Bálticos e a Polônia e ameaçou não concordar com a declaração conjunta após protestos contra sua intervenção no nordeste da Síria contra as forças curdas consideradas terroristas.

A tensão aumentou entre Ancara e Paris e se transformou em incidente diplomático na semana passada quando Recep Tayyip Erdogan considerou Emmanuel Macron em estado de "morte cerebral".

Antes da cúpula da Otan, o presidente francês voltou ao ataque, acusando Ancara de "às vezes trabalhar com intermediários" do grupo terrorista Estado Islâmico (EI) e estimando que os dois países "não têm a mesma definição" de terrorismo.

Uma reunião na terça-feira com o presidente francês, Angela Merkel e Boris Johnson não trouxe os esperados "esclarecimentos", segundo o chefe de Estado francês.

Emmanuel Macron afirmou que "não encontrou nenhum consenso possível" com a Turquia sobre a definição de terrorismo.

Mas o presidente Erdogan finalmente não se opôs à adoção da declaração da Otan, porque o texto condena o terrorismo "em todas as suas formas e manifestações" e o considera "uma ameaça persistente para todos nós", explicou Stoltenberg.