80 anos da proibição da mulher no futebol: acesso de meninas à modalidade ainda é obstáculo

Carol Knoploch e Tatiana Furtado
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Se Nati e Bruninha vivessem em 1941, estariam proibidas de jogar futebol. Foi no dia 14 de abril daquele ano que o Decreto Lei 3.199, do governo Vargas, entrou em vigor e determinou que o esporte era incompatível com a natureza feminina. Oito décadas depois, não há nenhum documento que impeça Bruninha e Nati, nascidas na geração Marta, de entrarem em campo. Mas a realidade ainda impõe, veladamente, restrições ao gênero feminino.

As meninas vêm conseguindo furar os bloqueios no caminho. Porém, nem todas conseguem. Não importa se nascidas no interior do país ou em centros urbanos, não é fácil achar escolinhas e projetos de futebol feminino que abracem os sonhos das crianças na chamada terceira infância — dos 6 aos 12 anos. As franquias dos grandes clubes raramente as alcançam.

Natural de Florianópolis, Natalia Pereira, de 11 anos, teve de implorar por uma chance para poder competir. Sem escolinhas e campeonatos femininos na sua idade, ouviu seu primeiro “não” no futebol aos 7 anos. Um clube da cidade não a deixou participar da peneira da base por ser menina. Encontrou abrigo no time masculino do ADIEE (Associação Desportiva Instituto Estadual de Educação) pelas mãos do professor Márcio Porto, que soube da sua história. Única menina entre 900 inscritos na Liga Metropolitana de futsal, foi uma das artilheiras da competição.

— Lá na escolinha me falaram que se eu fosse menino já estaria na base do Avaí. Perguntei para meu pai: “Por que não posso estar na base do Avaí?”. Ele falou com o presidente, me deixaram fazer o teste e passei — conta Nati, que é a única menina na base do clube da capital catarinense desde 2019. O Avaí só permite que ela jogue com os meninos até os 13 anos:

— Depois vou ter de procurar algum clube para continuar a minha carreira.

Nati não conhece Bruna de Lima Nunes, de 9 anos. Ambas, no entanto, têm histórias semelhantes de pais que acreditam no sonho e no talento das meninas. Algo ainda não tão comum nem muito incentivado quando os filhos não são do gênero masculino.

Bruninha também não encontrou um lugar em Mogi Mirim, em São Paulo, que acolhesse apenas meninas. Aos 5 anos, aprendeu os primeiros fundamentos com o próprio pai, Jonas Nunes da Silva, de 42 anos, ex-atleta amador. Ainda teve aulas particulares antes de entrar nas escolinhas do Santos e São Caetano na cidade.

Bruninha, que tem domínio de bola com as duas pernas, mostrou talento e agora treina em uma categoria acima da sua, o sub-13. Só com meninos, é claro.

— Ela insistiu muito porque eu não achava que tinha condições, não! Mordi a língua — diverte-se Jonas. — Como não tinha um lugar para ela começar, paguei professor particular, nas férias dela e às 6h da matina. Ela não desistiu.

Por causa de seus vídeos nas redes sociais, Bruninha chegou a conhecer ídolos da modalidade, durante um treino da seleção brasileira na cidade. Até Marta elogiou a menina. O recado carinhoso da melhor do mundo está devidamente registrado no perfil no Instagram.

Quem ama a modalidade tenta ampliar as opções para as crianças e jovens que não encontram times femininos em suas cidades. O site Joga Miga, por exemplo, criou um mapa para encontrar projetos espalhados pelo Brasil. Atualmente, há mais de 150 cadastrados, que recebem jogadoras de todas as idades.

Thay Valtrin, de 35 anos, e Julia Moni de Souza, de 24 anos, que estão à frente de dois deles, têm uma visão ampla de como a falta de estrutura desde a base se reflete no profissional e na massificação da modalidade no país.

Segundo a CBF, há 486 profissionalizadas no país, e 3.124 amadoras.

— Acaba sendo uma proibição velada. Mesmo nos times profissionais, muitas não conseguem sobreviver do futebol. Hoje, há jogadoras de times grandes, com mais de 20 anos, que moram em alojamento porque só ganham bolsa — diz a paranaense Thay, que comanda o Atlético Catarinense, por onde já passaram mais de 500 meninas no time de futebol de 7.

Ex-jogadora do Juventus, Julia supervisiona a Academia de Futebol Feminino, de São Bernardo, no ABC paulista. O clube amador conta com sub-7 desde 2020 e funciona em parceria com a prefeitura local. São mais de 200 meninas.

— Os meninos já começam a dominar a bola com 4, 5 anos. Enquanto muitas meninas estão aprendendo fundamento aos 13, o menino já está tendo conhecimento tático. Isso faz diferença no nível técnico.

A zagueira da seleção Rafaelle, de 29 anos, é um exemplo. Natural de Cipó, no interior da Bahia, ela só aprendeu os primeiros fundamentos aos 15 anos, em Salvador, pelas mãos do professor Mário Augusto Figueiras. Até hoje, em Cipó não há lugares para as meninas começarem no futebol.

— Ainda hoje, cerca de 70% dos municípios baianos têm apenas futsal para as meninas começarem. Foi o que Rafaelle teve. Não há base e na época dela, era pior ainda — afirma o treinador.

Rafa admite que a sua geração apresenta algumas deficiências no campo.

— Temos alguma deficiência quando falamos de fundamentos porque fomos tarde para o futebol de campo. É outro esporte se comparado ao futsal. Infelizmente isso ainda acontece — diz Rafa, que joga no Changchun Dahzong, da China. — Fiquei surpresa quando descobri que no meu clube há meninas muito novas morando em alojamento, longe dos pais para treinar. No Brasil a gente só vê isso com os meninos.

A CBF organiza competições sub-18, sub-16 e tem uma liga de desenvolvimento sub-14. Coordenadora de competições da entidade e ex-jogadora da seleção, Aline Pellegrino diz ser necessário que toda a cadeia produtiva do futebol esteja envolvida no desenvolvimento da categoria: escolas, escolinhas, prefeituras, clubes, atletas e federações.

— O Brasil tem um potencial extremo para consolidar a massificação do futebol feminino, fomentar a modalidade, e, da quantidade tirar a qualidade. Nem todas vão se tornar atletas de seleção brasileira, mas é preciso que todas que quiserem tenham ao menos a chance de buscar essa trajetória a partir de um ciclo completo de formação.