Ações sociais são interrompidas por operações policiais e Witzel determina maior diálogo entre polícias e líderes comunitários

Marcelo Antonio Ferreira

RIO — Nesta semana, além do já triste noticiário sobre o coronavírus, o Rio acompanhou os desdobramentos de ações policiais em comunidades periféricas que resultaram n morte de inocentes. Apenas nos últimos dias, houve casos como o de João Pedro, morto durante operação no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo; de João Vitor Gomes Rocha, de 18 anos, que não resitiu após ser baleado na Cidade de Deus, na Zona Oeste do Rio; e o do estudante Rodrigo Cerqueira, de 19 anos, morto durante um confronto entre a Polícia Militar e traficantes no Morro da Providência, na Centro do Rio. Além da perda de vidas de pessoas que em nada tinham a ver com o tráfico, operçaões policiais vêm dificultando e, às vezes, interrompendo, ações sociais voltadas aos mais pobres em meio à pandemia. Após os fatos, o governador Wilson Witzel determinou, nesta sexta (22), uma maior interlocução entre políciais e lideranças comunitárias.

Na noite da última quarta-feira, um vídeo circulou nas redes sociais com três homens na Cidade de Deus encurralados na casa de um morador para se protegerem dos tiros de uma operação da Polícia Militar, ocasião da morte de João Vitor. Os três eram voluntários da Frente CDD de combate à Covid que, aquele dia, precisou interromper a doação de cestas que iriam beneficiar cerca de 200 famílias carentes.

— Particularmente, nesse momento de pandemia, estamos fazendo um trabalho que não gostaria de estar fazendo, que é entregar algo como água, coisa que deveria ser papel do estado. A gente está fazendo um trabalho paliativo para tapar um buraco que é do governo, e isso é muito frustrante — relata Salvino Oliveira, ao relembrar a situação em que viu os amigos voluntários no vídeo.

Ele é uma das pessoas à frente da iniciativa, que, de segunda a sábado, entrega cerca de 100 cestas básicas, kits de higiene e máscaras para moradores da Cidade de Deus. No dia do ocorrido, eles conseguiram reunir 200 conjuntos com insumos básicos para distribuir na região do Pantanal, onde, de acordo com Oliveira, é maior o número de cidadãos em necessidade.

— No final dessa ação, quando eles estavam prestes a sair do Pantanal, começou a operação. Foi um tiroteio danado e tiveram que largar equipamento, cestas e carro na rua para se abrigar. — conta ele, que, por ter saído alguns minutos antes, não passou pelo ocorrido.

Graças a doações e ao Instituto Unibanco, o projeto conseguiu realizar uma estrutura eficiente para agir na comunidade. São cerca de 30 voluntários, dez se aplicam à triagem de famílias pela comunidade. Depois, com três veículos, combinam um ponto de entrega, em que marcam os pontos da fila no chão, para se certificar que do distanciamento entre as pessoas. E para a retirada é obrigatório estar de máscara.

— Para nós, esses números de óbito de coronavírus já viraram nomes, são amigos, vizinhos, familiares. Além da dor de perder pessoas próximas, tem o estado, tão ausente ao não realizar esse trabalho, se mostrando presente de forma tão agressiva — lamenta ele, que ainda conta que já tiveram outras três ocasiões que, apesar de não ter registrado a mesma agressividade, as doações tiveram que ser suspensas pelo dia, por conta de operações policiais.

Membro do Voz da Baixada, o voluntário Jefferson Barbosa relatou que doações de cestas nos complexos da Mangueirinha e da Vila Operária, ambas em Duque de Caxias, tiveram que ser canceladas, por conta de conflitos policiais.

— O que a gente enxerga é que essa é a política do estado para as periferias. Uma política de violência, não só na perspectiva da segurança publica, mas na perspectiva de embate, porque, quase sempre, essas operações não resolvem nada. Na maioria das vezes, matam pessoas e isso não pode ser um parâmetro de sucesso. É muito emblemático o estado estar permitindo que isso aconteça, em um momento como este, de pandemia — diz Jefferson.

Mobilizando diferentes grupos, a Voz da Baixada vem distribuindo diariamente cerca de 600 cestas, que contam com alimentos básicos, kits de higiene e alimentos orgânicos, que conseguiram com produtores que não podem mais realizar feiras. Nos meses de março e abril, foram 8 mil famílias beneficiadas, e a previsão para maio e junho é que esse número chegue em 20 mil.

Com cerca de 40 voluntários que trabalham de forma alternada em um galpão e com a ajuda de dois caminhões, a iniciativa tem ajudado famílias de Belford Roxo, Duque de Caxias e Nova Iguaçu, cujos provedores de renda não podem trabalhar por conta da pandemia.

— É importante que essas cestas saiam no dia em que foram feitas, porque ocupamos dois caminhões grandes. Quando atrasa, centenas de famílias deixam de receber insumos, e o que estamos entregando é muito o mínimo para sobrevivência. Se a gente atrasa um dia de entrega, consequentemente, no outro dia tem o dobro de pessoas, ou seja, 1200. E não temos como armazenar os orgânicos, então, eles estragam. Não sabemos mais o que fazer, porque sabemos que essa é a ação deles (da polícia) e não podemos impedir o que o estado faz. É muito triste — conta Jefferson.

No Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio, três coletivos se uniram para formar um gabinete de crise em auxílio à região. Por dia, cerca de 31 voluntários, que trabalham todos os dias da semana, distribuem cerca de 350 cestas para famílias locais. No último dia 30, durante uma ação voluntária na Favela da Galinha, a Polícia Militar achou que o carro em que o gabinete realizava as doações era algum veículo de carga roubada. Por conta disto, os trabalhos de entrega do dia foram interrompidas.

— Além de estar ausente na participação e responsabilidade de agir nesse momento de combate à pandemia, quando o poder público intervém, é sempre de forma desastrosa. Não é o momento para isso, temos que ter paz para as pessoas se ajudarem e vencerem situações como a fome e a sede — fala Raull Santiago, um dos voluntários.

Witzel determina interlocução das polícias com líderes comunitários

Nesta sexta, o governador Wilson Witzel determinou que as polícias Civil e Militar ampliem a interlocução com os líderes comunitários das comunidades cariocas para evitar a realização de operações de busca e apreensão ou ações de inteligência nos momentos em que houver grupos promovendo ações sociais e serviços humanitários nesses locais.

— Acho que podemos realizar essa integração para que a gente possa criar maior comunicação e evitar que, no momento de uma necessidade de operação de busca e apreensão ou ação de inteligência das polícias, haja pessoas prestando serviços humanitários nestes locais – disse o governador, em referência ao tiroteio ocorrido na quarta-feira, na Cidade de Deus, entre policiais militares e traficantes durante a distribuição de cestas básicas, que resultou na morte de João Vitor.

Witzel destacou que o estado também tem trabalhado para ajudar os que têm fome neste período de pandemia9 por meio do Mutirão Humanitário, coordenado pelo vice-governador Cláudio Castro. Para ele, esse trabalho pode e deve ser feito em parceria com os líderes das comunidades.

— Vamos distribuir ainda cerca de 800 mil cestas básicas – frisou.