'Aída' de Bia Lessa debate qual ópera é possível para o Brasil

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"Com ou sem pirâmide?". Ao se encenar "Aída", imediatamente se entra num debate estético de 150 anos, desde quando o Egito encomendou a obra faraônica a Giuseppe Verdi para abrir em 1869, no Cairo, a primeira casa de ópera da África. Foi-se o tempo em que animais e muito dourado entravam em cena: para contar hoje a história da princesa etíope feita escrava, o kitsch e o monumental deram lugar a concepções alternativas, mais baratas e muitas delas brilhantes.

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Criada por um Verdi maduro, "Aída" é um hit, comprovado pela evaporação de ingressos das sete récitas da nova montagem do Theatro Municipal de São Paulo, estreada na última sexta (3). Ainda assim, é um hit à espera de uma grande ideia ou, no mínimo, de novos debates.

Num país em que cada vez mais gente acredita que produzir cultura é banditismo, a diretora cênica Bia Lessa parece inteligente o suficiente para propor, dois anos depois do adiamento forçado pela pandemia, qual ópera podemos ter em 2022. No Cairo, aquela Ópera Real pegou fogo em 1971 e hoje sedia um edifício-garagem. No Rio, a primeira encenação prevista para 2022 é um "Don Giovanni", em julho. No Brasil, a resposta é uma peça imperfeita, para tempos distantes do ideal.

Diante disso, a parte musical ganha enorme importância, sobretudo na atuação da soprano Priscila Olegário, a primeira negra a encarnar o papel da etíope no palco do Municipal. Sua voz é promissora, e o público torce por ela, como certamente torcerá por Marly Montoni (do segundo elenco); mas é perceptível que a cantora precisa desenvolver especificidades para o papel vocal, principalmente na finalização das frases mais difíceis e no controle do pianíssimo.

Reforçada pela praga da covid, a insegurança da estreia talvez tenha contaminado o bom tenor canadense David Pomeroy: seu Radamès soou hesitante na ária "Celeste Aida". Brilharam, porém, Ana Lucia Benedetti, mezzo-soprano de voz sofisticada para a princesa egípcia, Amnéris, e o barítono David Marcondes, que trouxe ferocidade na voz e presença dominante para o Amonasro, pai de Aída. Regida por Roberto Minczuk, a orquestra do Municipal teve boa performance, assim como o Coro Lírico Municipal e o Coral Paulistano. Ainda assim, foi nas cenas de coro que se notaram problemas.

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Primeiro, as escolhas gestuais de Bia Lessa. A decisão de pôr os coros militares balançando como joões-bobos – tática que Lessa usou no "Trovador" (2010), no Municipal do Rio – parece ridicularizar a própria ideia de ópera. Além disso, Aída está frequentemente de joelhos, e a obrigação de os solistas cantarem em pequenas elevações abre pouco espaço para o saudável ato de contracenar, que até Verdi apreciava.

Depois, o excesso do uso de cubos de papelão, sejam erguidos por cabos ou recobertos de papel laminado. Interessante no primeiro momento, a ideia se torna progressivamente monótona até se tornar amadora no terceiro ato. A sensação de algo errado se intensifica pela aparição de dois contrarregras à paisana no centro da Marcha Triunfal, a fim de ajustar a cena.

No entanto, as boas ideias compensam. Ao valorizar o aspecto brutal da guerra e o triunfo vazio na Marcha Triunfal, Lessa desfaz a ideia de que "Aída" é um dilema entre o amor e o dever pátrio: em situações polarizadas, o amor é sempre esmagado. Digerida num quarto ato de soluções mais leves e beleza engenhosa, a montagem sai com saldo positivo. Ao fim dos aplausos, Bia Lessa pediu a palavra para pontuar um "Fora Bolsonaro". E a maioria do teatro aplaudiu.

Cotação: bom.

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