Aílton Graça, no ar em 'Travessia' e 'Rota 66', fala do casamento de 30 anos com atriz e de trabalhos sociais na periferia: 'Sou um sobrevivente'

"Estou em estado de graça", brinca Aílton fazendo um trocadilho com seu sobrenome, ao comemorar os trabalhos bem-sucedidos na série "Rota 66", do Globoplay, e nas filmagens de "Mussum, o filmis". Aos 58 anos, o ator, que já trabalhou como camelô, tem uma sequência ininterrupta de trabalhos na televisão desde 2003. Sua estreia foi em "Cidade dos homens", em que viveu Picote. O papel mais recente é o de Monteiro, de "Travessia". Para ele, a novela de Gloria Perez é simbólica por mostrar as alegrias e os conflitos de uma família preta, a primeira da qual ele faz parte na dramaturgia.

— Ali se propõe uma história diferente. É a única família consolidada e estruturada dentro da trama toda. E eles não se mostram como pessoas saídas de um comercial de margarina. Se amam e têm conflitos cotidianos como os de qualquer outra família — explica.

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Gloria Perez ocupa um lugar especial na carreira do artista. Foi criação dela o personagem Feitosa, interpretado por Graça em 2005 na novela "América".

— Minha história com alcance do público da TV se iniciou com a Gloria com aquele papel. Até hoje, em muitos lugares a que vou, as pessoas cantam: "Você é um negão de tirar o chapéu". Voltar a trabalhar com essa mulher genial é uma felicidade grande — frisa.

Em "Rota 66", do Globoplay, o papel do paulista é mais carregado no drama. A história, inspirada no livro de Caco Barcellos, trata da truculência de policiais em São Paulo em meados dos anos 1970. O personagem do ator é um sargento alinhado às diretrizes e aos códigos militares, mas que acaba tendo uma grande decepção com a corporação:

— É uma tragédia que tem algo de catarse, de comoção, de disputas de narrativas que acontecem não só no Brasil, mas no mundo. Meu personagem é um policial fora da curva, que acredita em todo aquele código de ética que está nos livros. Ele é um instrutor, passou a vida inteira sem ter sido o responsável por uma morte sequer. Ele efetuou disparos, mas nunca matou ninguém. A proposta foi juntarmos no perfil dele personagens que, de fato, existiram e acompanharam o Caco. É um híbrido.

Com origem na periferia, Ailton diz se considerar uma exceção, em meio a outros homens negros que não tiveram oportunidades ou que, devido ao racismo estrutural, não conseguiram ascender profissionalmente.

— Cresci num lugar onde as pessoas tinham acesso a armas, a violência era intensa. Diante dessa realidade de racismo estrutural, sou um sobrevivente. Estou agora com 58 anos, ainda trabalhando em projetos nas periferias e adoro. Fui arte-educador (o conceito se refere a educadores ou artistas que promovem cursos em comunidades). Tive alguns encontros com essa estrutura (de perseguição a pessoas negras e julgamento pela cor da pele) onde moro — admite.

Para subverter essa realidade, Graça quer promover na escola de samba paulista que comanda, a Lavapés Pirata Negro, cursos profissionalizantes que tenham como base a formação de uma consciência crítica nos alunos:

— Essa agremiação simboliza meu retorno ao lugar de onde vim. Volto para lá levando curso de gastronomia, de música... É uma escola de samba que tem outras atividades curriculares para estabelecer a escola de samba como um espaço para pensar e contrariar o status quo. A ideia ali não é criar, por exemplo, cursos de manicure. Nada contra ele nem contra cursos de cabeleireiro, mas eu quero que os jovens trabalhem com produção de cinema, que comecem a fazer produzir sozinhos no celular. No futuro, a ideia é criar um festival de produção mobile. Minha pretensão é criar também um Fashion Week favela. É um projeto sobre o qual já estou conversando com algumas pessoas.

Uma das parceiras no projeto é a companheira do ator, Kátia Naiane, com quem ele está casado há 30 anos:

— A gente está feliz nesses anos todos. Não sou de expor muito. No dia que minha vida pessoal ficar mais interessante do que meu trabalho está na hora de parar. Minha rotina é banal, igual à de todo mundo. A gente tem compromissos para cumprir, faz supermercado... Minha companheira é atriz, está mergulhada nos processos de criação dela em São Paulo. Ela fez durante 12 anos um trabalho sobre Noel Rosa e foi chamada para fazer um outro agora. Perseguimos realizações artísticas, temos empenho em descobrir ferramentas e maneiras de dialogar com o mundo sobre nossas aspirações e pirações. E de criar esse caminho para artistas negros. Ela não é negra, mas a gente dialoga sobre esse tema com profundidade porque toda a sua história passa por um envolvimento com movimentos negros. É uma aliada forte dentro dessa nossa luta.