A última crônica

Na metade de 2014, pouco antes do início da campanha eleitoral, o jornalista Ricardo Lombardi, então diretor de conteúdo do Yahoo, me telefonou para saber da disponibilidade de escrever um blog sobre política no portal.

Eu tinha acabado de me mudar para o interior, após 12 anos vivendo em São Paulo, onde havia acompanhado de perto todas as eleições desde 2002. Meu receio era produzir leituras distanciadas demais daquilo que acontecia nos ditos centros da notícia do país.

Uma saída foi sugerir escrever crônicas – já que “análises” me soava algo sério demais – a partir de um outro olhar, a do eleitor. Aquela seria a primeira vez que eu acompanharia as eleições distante de uma redação, e meu ciclo de relacionamento já não era quase monopolizado pelo convívio e as visões já conhecidas dos amigos jornalistas.

Empresa de mim mesmo – sim, eu me antecipei à onda de pejotização – minha intenção era observar como a política era discutida fora das bolhas da própria política e do jornalismo. Meu laboratório eram a turma do futebol, os vizinhos do bairro, os usuários da linha Vinhedo-Unicamp, os pais dos amigos do meu filho, com quem passei a ter um tempo maior de convívio do que nos anos todos em que cumpria jornadas de oito, nove, doze horas trancafiado numa redação.

Fora das andanças e deslocamentos típicos das coberturas in loco das eleições, aquela foi a campanha que, acho, pude acompanhar com mais nitidez. Estava conectado o tempo todo, conseguia assistir aos programas da TV, tinha mais tempo para leituras diversas, inclusive teóricas, sobre um mundo que estava prestes a implodir.

A ideia é que o blog ficasse ativo até o fim da eleição. Durou quase três anos, uma consequência dos reflexos de uma disputa que de fato não se encerrou ao fim da contagem dos votos.

Pelo contrário: o Brasil que saiu das urnas era um Brasil dividido, com o lado derrotado ressentido e jurando revanche, e o lado vitorioso com os cartuchos queimados em razão das estratégias assumidas. Os estragos estavam feitos: promessas não cumpridas, interferência em áreas estratégicas da economia com vistas à eleição, encarecimento da propaganda, pedágio inflacionado de aliados para manter apoio a um governo enfraquecido. Ainda assim, pouca gente, inclusive este escriba, poderia apostar que um impeachment estava encaminhado no momento em que teve início aquela eleição.

Acompanhar o impacto dessas mudanças e observar como elas transformavam o discurso do cidadão comum, aquele que se comunica por correntes de WhatsApp e fóruns temáticos de Facebook, e não unicamente nos veículos tradicionais, foram algumas das tarefas mais angustiantes que já assumi.

Eu deveria enviar ao portal de dois a três artigos (ou crônicas) semanais. Nunca mais abri um jornal sem a obrigação de TER algo a dizer sobre aquilo, mesmo quando não tinha, mesmo quando ainda não havia tempo para compreender direito o que estava acontecendo.

Olhando hoje, penso que não foi somente aquele mundo das primeiras crônicas de 2014 que deixou de existir. O autor, já sem as convicções de antes, também não é o mesmo.

Passamos a escrever em uma época que pede antecipação de fatos – quem cai, quem sobe, o que acontece agora? – , e antecipar fatos não é exatamente a natureza do jornalismo, mas sim identificar fenômenos. Entramos, porém, em uma época em que quando finalmente um fenômeno é identificado e nomeado, outros explodem e desatualizam qualquer leitura.

Não é uma característica apenas da política nacional. Mundo afora, o declínio das formas consagradas de produção de riquezas e compreensão do mundo provocou não apenas uma crise econômica ou política, mas uma crise de identidade. Nessas horas é tentador buscar em um passado longínquo as fronteiras supostamente bem definidas de uma era de certezas e segurança.

“Faça a América grande novamente”, disse o presidente eleito dos EUA, que muito pouco tempo antes da posse era ainda uma piada de mal gosto – e, a princípio, inofesiva.

Influência de espiões russos na eleição americana? Macartismo contra grupos de extrema direita? Até pouco tempo a simples contradição em termos se desdobraria, no máximo, em um sorriso forçado de uma piada sem graça.

Como seria uma piada imaginar que o vice-presidente decorativo assumiria o comando do país com o apoio dos derrotados da eleição que terminou ontem. Com ela, uma agenda que nenhuma liderança política teria coragem de expor a propaganda eleitoral. Com ele, uma lista de aliados investigados pelos mesmos crimes que, nas ruas e no discurso oficial, juravam combater.

A urgência das reformas, se há, é debatida sem que uma parte antes importante da conversa fosse chamada para opinar. O eleitor, de agente da mudança e da sua própria história, foi rebaixado à condição de espectador. Assiste, com ou sem a indignação que nasce e morre nas redes, uma espécie de governo Sarney 2.0 debater, em grupos fechados e sem contato com a luz do sol, como ele deve viver nos próximos 20 anos.

Nos três anos de blog muita coisa mudou. A panela se transformou em instrumento de ação política. Depois, voltou a decorar as prateleiras de utilidades domésticas. O pato virou símbolo das revoluções que prometem mudar tudo para que tudo permaneça como está.

Ao ainda incipiente processo de transformação da política institucional em um espaço de pluralidade, com grupos minoritários ocupando espaços antes monopolizados pelos grupos hegemônicos, seguiu-se um processo de ataque simbólico com direito a gracejo no Dia Internacional da Mulher, uma data de luta. A mulher passou a ser saudada pela capacidade de escolher o melhor produto na feira e no supermercado. E ouve agora como chacota o novo presidente da Câmara, o Botafogo da planilha da Odebrecht, dizer que parear o tempo de aposentadoria entre homens e mulheres no Brasil é atender um pleito igualitário.

Nesses três anos a Lava Jato ajudou a descortinar a ponta de um iceberg que nem o mais pessimista do eleitor imaginava tão avariado. Ao custo, é certo, de arranhões consideráveis a alguns preceitos fundamentais ao direito de defesa, e por meio de delações de quem só topou falar após uma longa estadia na cadeia. Desse mundo doido que emergiu ninguém mais estranha que um presidente da Câmara deixe o posto para ir direto à cadeia.

Mas, quanto maiores as revelações, mais distantes parecemos da compreensão das estruturas, e mais alto gritam os que veem na eliminação do grupo rival a saída política para um jogo viciado. Em contrapartida, menos arredios ficaram os grupos, organizados ou não, que viram no colapso do sistema político a oportunidade de restabelecer, pela força ou pela fé, o reinado de um componente moral que jamais existiu.

Aventureiros se engraçam agora à pose de salvadores da pátria, travestidos de novidade apolítica (uma farsa) ou com loas a torturadores e ataques justamente a quem mais foi atacado no processo histórico de formação nacional (uma tragédia). Miram nos vícios de um sistema democrático maltratado por grupos de interesse privado e acertam no próprio cerne da democracia. O que era piada virou objeto de apreensão.

Foi um tempo de aflição, do qual me sinto agora desobrigado de me posicionar dia sim, dia não; muitas vezes no fim de semana, porque a notícia não tinha hora para chegar.

Costumo sempre dizer que escrever não é oferecer resposta, mas compartilhar o peso das perguntas. As crônicas publicadas por aqui nestes quase três anos eram a extensão do braço para um início de diálogo. Toda vez que uma ideia ou tentativa de compreensão era compartilhada, alguém acrescia uma informação aqui, fazia generosamente um adendo ali, lembrava de algum fato que estes olhos não conseguiram alcançar acolá.

Algumas dessas crônicas perderam a validade no momento da publicação. Outras padeceram por pura ingenuidade – às vezes demoramos a perceber que os limites antes estabelecidos do bom senso já foram ultrapassados, e que os tempos agora, em que aprendemos o ofício da pós-verdade, dão os louros para quem vai mais longe na radicalização.

O problema, hoje, não é mais uma questão de falha na comunicação, mas de distorção, explica o jovem Murilo Araújo, do canal Muro Pequeno (nem tudo está perdido), a quem devo, e agradeço, a definição; “as pessoas debatem a partir de distorções de argumento do outro lado. É uma grande guerra de espantalhos, e a falácia de espantalhos é um argumento em que a pessoa ignora a posição do adversário no debate e a substitui por uma versão distorcida”.

Entre espantos e espantalhos, porém, algumas postagens valeram o esforço, ao menos como exercício para não enlouquecer. Uma delas virou até projeto de lei do Romário – uma troca justa para quem me deu uma Copa do Mundo aos 11 anos de idade.

Nesse mundo que virou de ponta-cabeça, porém, os textos já não faziam o mesmo alarde, me avisa agora a nova direção do Yahoo. As pessoas se desinteressaram pelos posts, talvez por um cansaço da política, e este blog deixou de fazer sentido.

É hora de agradecer pelo espaço, pela paciência e pela confiança, dos leitores e dos editores do Yahoo, com quem tive a honra de poder compartilhar este espaço. Neste período, jamais sofri qualquer tipo de censura ou interferência no conteúdo. Em outras palavras, podia bater para o lado que viesse. E assim foi. As vezes que errei a mão foram responsabilidade única e apenas deste autor.

Me despeço, então, com esta crônica de título descaradamente copiado de Fernando Sabino. Lembro da personagem descrita por ele, uma criança que comemora o aniversário em um botequim humilde da Gávea que, ao se perceber observada, “vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso”.

Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.