A carcaça de um gigante

A farsa começou a ser construída há anos. Propagandas dedicavam vários minutos ao chamado país do futuro, sem jamais oferecer um rascunho razoável de como ele seria. Todo o mundo falava do caráter formidável e gigantesco do país do futuro. Falava-se de um novo horizonte, de um Brasil Maior, de algo tão incrivelmente diferente do que estávamos acostumados que desafiava a nossa imaginação.

A perspectiva de desenvolvimento tornava o projeto extremamente encantador a parcelas importantes de eleitores - jovens, analfabetos, minorias desfavorecidas -  e isso fez com que a administração pública, junto com grandes empreiteiras, investisse de maneira progressivamente criminosa naquela farsa.

De fato, era difícil entender as propagandas. Posicionando uma câmera de vídeo para fora da janela, por exemplo, e depois acelerando as imagens gravadas, ninguém veria diferença significativa nas ruas durante aqueles anos. O que se admitia, aos poucos, era que de fato não havia um único índice positivo naquela administração, o que havia era uma ilusão, maquiagem contábil para enganar os grupos sociais mais vulneráveis - o que havia era uma fraude, portanto.

Depois do segundo ano seguido de recessão, a mídia ainda não comprada começou a publicar diariamente matérias com infográficos mostrando os gastos monumentais de dinheiro público sem nenhuma contrapartida, os juros subsidiados para grandes empresas amigas, os saques nas estatais - e outros escândalos de corrupção -, os rombos bilionários nos fundos de pensão, os milhões de desempregados, a queda na renda das famílias, a década perdida.

As autoridades, então, passaram a dedicar todo o esforço para rebater os ataques que sofria. Falava de como o projeto exuberante havia atraído a Copa do Mundo, as Olimpíadas e os haitianos. Àqueles que sugeriam que o complexo olímpico seria excessivo, desnecessário para a metade da população que não tinha nem acesso à rede de esgoto, as autoridades argumentavam que eles estavam contra o país; qualquer um que apontasse os erros monumentais da administração estava contra o país.

Quando finalmente as autoridades e alguns partidários reconheceram a crise, diziam que ela se devia a motivos externos. Outros, que a investigação responsável por desvendar o maior esquema de corrupção da história do país era parcialmente culpada pelo fracasso do projeto. De fato, frequentemente podíamos ver grupos com vendas nos olhos e cenouras enfiadas nos ouvidos praticando esses malabarismos.

Os efeitos da farsa foram definitivos. Diariamente, milhares de pessoas voltavam para a extrema miséria. Tudo foi parando, operários perdiam o emprego, a água parada virando criadouro de mosquitos transmissores de novas doenças, parques eólicos caindo com a força do vento, crianças descalças brincando nas estruturas de megazordes enferrujados.

As editoras quase todas concordavam que a imagem mais emblemática para aquele desastre era a lama tóxica formada pelo rompimento da barragem em Mariana. E já iam adquirindo os direitos das fotografias aéreas que ilustrariam os livros didáticos das crianças.


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Foto: Reprodução/ TV Globo