A cidade francesa que é - literalmente - movida a queijo

A França é mundialmente conhecida, entre outras coisas, por seus refinados queijos que fazem a felicidade de chefs, críticos gastronômicos ou simplesmente apreciadores desse tradicional laticínio. Recentemente, porém, mais do que mover paladares e harmonizar com vinhos regionais, produtores dos Alpes Franceses descobriram uma finalidade não menos nobre para esse produto que é a marca registrada do país: a produção de energia elétrica.

A pequena cidade de Albertville, em Savoie, é conhecida pela produção de queijo Beaufort, uma variedade de queijo mais consistente feita a partir de leite de vaca. Desde o final do ano passado, o vilarejo de 1.500 habitantes conta com uma usina em pequena escala para suprir as necessidades de energia elétrica de sua reduzida população, valendo-se de seu principal produto para iluminar e aquecer casas e ruas.

O processo é simples, porém engenhoso: não é o queijo propriamente dito que se aproveita na geração de energia, mas o soro do leite — resultante da produção do laticínio — que se transforma em biogás (uma mescla de metano e dióxido de carbono), capaz de gerar energia elétrica e água quente para os habitantes de Albertville. De que maneira, no entanto, esse líquido, normalmente descartado pelos consumidores, é convertido num bem tão precioso?

Ao adicionar bactérias ao soro líquido — o mesmo soro que vemos acumulado na parte superior das embalagens de iogurtes —, os açúcares e os sais ali contidos são processados por esses microorganismos. Desse evento químico resulta o metano, que por sua vez transforma o líquido em biogás. Esse gás então é redirecionado para o aquecimento de caldeiras de água que, ao atingirem 90 graus, passam a produzir energia elétrica.

O processo todo visa otimizar a produção queijeira de Albertville, reduzindo ao mínimo possível as perdas: o creme que sobra é convertido em creme de ricota, manteiga e proteína em pó (própria para suplementos alimentares). Praticamente tudo envolvido na fabricação é aproveitado, e a única coisa que sobra é água pura. E levando-se em conta que a usina à base de soro líquido produz nada menos que 3 milhões de KW por ano, temos um tipo de energia das mais limpas, com impacto zero sobre o ambiente.


Foto: Jessica Spengler/Flickr