A cortina de fumaça da CPI do MEC

CPI do MEC, com pedido de abertura protocolado pela oposição para investigar supostos crimes de corrupção do ex-ministro Milton Ribeiro, é eleitoreira. (Foto: EVARISTO SA/AFP via Getty Images)
CPI do MEC, com pedido de abertura protocolado pela oposição para investigar supostos crimes de corrupção do ex-ministro Milton Ribeiro, é eleitoreira. (Foto: EVARISTO SA/AFP via Getty Images)

Quando eu trabalhava em Brasília cobri ativamente a criação, em 2009, da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito do MST. Foi a CPI que buscou apurar o repasse de recursos das organizações não-governamentais ao Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra.

Uma CPI que começou sob os holofotes e terminou morna. Sei que quando saí de Brasília, em 2011, ainda rolava algum assunto sobre essa comissão. O que vem direto ao meu ponto nessa coluna.

A CPI do MEC foi protocolada sexta passada e já conta com 31 assinaturas (precisa de 28 para funcionar). Até a leitura do documento de abertura do processo pelo presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, os parlamentares podem retirar suas assinaturas. Mas ninguém vai fazer isso.

Criação de CPI causa um movimento muito fervoroso na política. Ainda mais num ano eleitoral onde todos os olhos estão voltados para Brasília.

Aí ontem eu vi o senador Kajuru comentando que a CPI não tinha fins eleitoreiros. Pode não ter fins, mas tem meios. A motivação dos parlamentares é fazer parte de um movimento que está em destaque o tempo todo na mídia. Nada mais. Se uma CPI em tempos normais já é difícil ir para frente, imaginem em ano eleitoral.

Para reiterar meu ponto: quais os resultados da CPI da Covid-19? A frouxidão na condução do interesse coletivo sobrepôs a condução séria e isenta de interesses pessoais.

A CPI da Covid, talvez uma das mais importantes da história do país, causou impacto político e midiático, mas efeito prático...confirmou que o governo Jair Bolsonaro falhou no enfrentamento da crise, mas o resultado jurídico disso...está aí, todos os dias, sendo esfregado na nossa cara.

É claro que a CPI do MEC é eleitoreira. E é claro que ela não vai acontecer. O senador Randolfe Rodrigues, relator, é coordenador de campanha do presidente Lula. Ele tem uma bela decisão a ser tomada: ficar em Brasília ou ajudar o ex-presidente a voltar ao Palácio do Planalto?

O governo liberou em três dias 20% do recurso secreto do orçamento aos governistas para tentar barrar a investigação do gabinete paralelo no Ministério da Educação.

Como todo escândalo político esse também tem suas fases e se não for retroalimentado, não chega com força até as eleições. Possivelmente ainda teremos um período de descoberta de novas ligações, dramatizações e declarações que deixarão todos interessados. Mas com o tempo vêm as eleições, os debates e a pauta vira outra.

Some-se a isso o fato do maior oposicionista de Bolsonaro hoje, o ex-presidente Lula, não tocar nesse assunto, pois seu teto é de vidro.

E, ainda tem um outro ponto: ao contrário do que foi a Lava Jato, onde todos os dias víamos exposições intermitentes de corrupção gerando interesse do público, um caso isolado não tende a manter o efeito por muito tempo.

Também é difícil associar que aquelas barras de ouro lá dentro do Ministério da Educação na distante Brasília prejudicam o meu filho na escola aqui no interior do Pará. Corrupção não é tangível. É abstrata. Fica difícil quantificar o prejuízo real. Mas a inflação...essa está batendo na porta do brasileiro e fazendo com que ele fique sem comer e sem poder pegar transporte público. Está corroendo toda a sociedade.

Bolsonaro deve sangrar mais algumas semanas em praça pública com o escândalo do MEC. Devem vir, até as eleições, outras questões para ele resolver. Mas que não se engane: o grande problema a ser resolvido hoje é a fome.

A volta da inflação. Aquela sensação desconfortável de ir ao supermercado com o dinheiro contado e perceber que os preços da noite anterior foram reajustados e você não consegue mais comprar o leite para seu filho. Que se investiguem todas as corrupções com o rigor que a lei exige. Mas que não se esqueça que o problema real do Brasil é: 33 milhões de pessoas estão com fome. Que nenhuma cortina de fumaça deixe que a resposta a esse dado seja oferecido nas eleições.

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