A curiosa história da passagem de Vítor Pereira pela Arábia: “Acamparam 9 dias na minha porta”

Vitor Pereira durante sua passagem pelo Corinthians (Foto: Wagner Meier/Getty Images)
Vitor Pereira durante sua passagem pelo Corinthians (Foto: Wagner Meier/Getty Images)

LISBOA (PORTUGAL) - Bicampeão nacional e tido como um dos técnicos portugueses do futuro no início da década passada, Vitor Pereira enxergava a Premier League como destino mais do que certo ao deixar o Porto, em 2013.

Com convites na mesa, a sua ida para o futebol inglês era tratada como uma questão de tempo.

Quase dez anos se passaram e, no entanto, ela ainda não aconteceu. Um pouco em função da sua dificuldade no inglês em um primeiro momento, mas também por causa da falta de paciência que fez com que a sua carreira seguisse um curso totalmente diferente daquele imaginado. Workaholic, ele não conseguiu esperar por uma nova chance após negociar inicialmente com o Everton e, assim, acabou indo parar na Arábia Saudita.

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Resolveu, claro, a vida financeira de sua família, porém, selou a partir dali um caminho que o afastou dos principais times da elite europeia e o colocou na rota para assumir o Corinthians nesta temporada.

E tudo por causa da insistência de um “gordinho de sandália” e um “magrinho advogado” que o convenceram com um contrato em branco a deixar o sonho da Premier League de lado.

“Tive esse salto para a Arábia Saudita e o pessoal que veio para me contratar acampou nove dias na minha porta. Nunca havia imaginado ir para um campeonato árabe. Naquela altura, eu estava com a ideia de que iria para o Everton, tinha ido a uma reunião com eles, estava com a perspectiva de que iria para o Campeonato Inglês, que era a minha obsessão. E de repente, porque não tinha paciência, mudei de direção. A droga era tão forte, e ainda é, mas, naquela época, a droga era tão grande que não conseguia ficar tanto tempo sem trabalhar”, começou por contar Vitor, em entrevista ao Canal 11, que pertence à federação portuguesa.

“Então, foi por decisão minha, muita gente acha que não foi, mas foi por decisão minha que não renovo com o Porto (em 2013). Decidi não renovar com o Porto a meio da temporada porque já tinha prometido a mim mesmo: isso é até o final da temporada, depois acabou para mim. Aí tenho essa perspectiva de ir para o Everton, não vou para o Everton porque meu inglês era fraco, muito fraco, eu tinha dificuldades. Eu fui a uma reunião e não entendi metade do que me disseram”, prosseguiu.

“E eu fiquei ali e, de repente, aparecem os árabes batendo na porta. Eu chego na porta, aparece um gordinho de sandália e um magrinho advogado. Epa, eu olho para eles. ‘Coach Pereira?’ E eu: ‘sim’. ‘Gostaríamos de falar contigo’. E lá fui eu falar com eles. ‘Gostaríamos de te levar, estamos aqui a fazer uma estatística, os dados e etc, você está na nossa lista, o primeiro para ir…’ E eu: ‘mas eu não vou para Arábia’. Fui dizendo um, dois dias, mas eles estavam num hotel no Porto e vieram para Espinho para estarem mais próximos. Todos os dias lá estavam eles à minha porta. E eu pensava: não sei como vou fugir desta. É que os árabes quando nós dizemos que não e eles estão interessados, não há hipótese”, continuou.

“Então, o que eles fizeram: o dono do clube era o filho mais velho do rei da Arábia e mandou o herdeiro dele num jato privado para me convencer a assinar contrato. E ele fica os últimos três desses nove dias na porta da minha casa, era o neto do rei da Arábia. E ele põe um contrato à minha frente sem números e diz: ‘escreve o número que quiser, escreve, preencha’. E eu: ‘não vou escrever nada. Não vou, já disse que não iria’. E ele: ‘eu não posso regressar à Arábia sem você’. Por fim, no último dia, estive fechado das 22h à meia noite numa pressão imensa e ele com o pai de lá, dizendo que dava aquilo que for preciso, fazemos isso, aquilo, e eu vou para Arábia assim. Assinei contrato e nunca vi tanto dinheiro”, acrescentou.

“Eu fiz meu percurso como jogador e ganhei para estudar e pagar meus estudos. Nunca pude juntar grande dinheiro. E depois como professor, tirei meu curso e ia dando para os gastos. Quando eu, de fato, vou ganhar dinheiro é para a Arábia. De repente, eu fiz as coisas ao contrário (na minha carreira). É possível, é possível que eu tenha feito, mas eu penso eu tenho aqui a possibilidade de em dois anos fazer a vida dos meus filhos, estabilizar a vida deles. E eu fui. Primeiro ordenado que me pagam na Arábia foi em dinheiro, os caras vieram com blocos de notas de 500 euros. ‘Coach, aqui o seu salário”. Eu estava vivendo num hotel e falei: “vou com isso para o hotel? Se me roubam o dinheiro... Quando eu tiver conta, vocês me pagam’”, encerrou, aos risos.

A passagem de Vitor pelo futebol árabe durou um ano, seguindo depois para Olympiacos, na Grécia, Fenerbahce, duas vezes, na Turquia, 1860 München, na Alemanha, e Shanghai SIPG, na China.

Antes de desembarcar no Corinthians, o técnico de 54 anos viu as portas da Premier League se reabrirem, mais uma vez através do Everton, porém, a sua ligação com o empresário iraniano Kia Joorabchian, antigo parceiro do próprio alvinegro paulista, derrubou o negócio. Os torcedores ingleses protestaram antes mesmo de qualquer decisão da diretoria.

A “droga do trabalho”, referida em sua entrevista, falou mais forte de novo e Vitor não conseguiu ficar muito tempo no mercado. Partiu na sequência para o Parque São Jorge na briga por títulos do outro lado do oceano.