"A Dona do Pedaço": é aceitável uma mãe bater no filho?

Na novela A Dona do Pedaço, Maria da Paz bate na filha ao descobrir as suas armações (Foto: Reprodução / GShow)

Na novela “A Dona do Pedaço”, da Globo, a personagem de Agatha Moreira, Josiane, foi fisicamente agredida pela própria mãe, Maria da Paz (interpretada por Juliana Paes), depois que as suas tramoias foram descobertas. Claro, de acordo o público, a vilã bem que mereceu o castigo depois de tudo o que fez à própria mãe, mas nós pensamos em levar a conversa para um outro lado.

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Na relação entre pais e filhos, é comum ouvirmos casos de crianças que apanharam porque se comportam mal. No Brasil, existe inclusive uma lei que proíbe a agressão física, chamada Lei da Palmada, aprovada em 2014. A ideia da legislação é, justamente, evitar que os pequenos sejam sujeitos a esse tipo de violência dentro da própria casa, mas é sabido também que punir os pais adeptos desse tipo de educação violenta não é o suficiente.

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Segundo a psicóloga e psicoterapeuta Tatiana Pedreira, difusora da educação infantil não-violenta, existe um motivo central que gera esse tipo de comportamento como uma forma de correção do comportamento dos filhos.

"O principal fator do comportamento agressivo dos pais é a crença de que eles precisam ser violentos e punitivos para conseguir educar. Obviamente, outros fatores entram em cena, como cansaço, falta de apoio, desamparo parental, desamparo materno, questões pessoais, dificuldade em lidar com o caos, com a falta de controle. Mas, na minha percepção, o fator central é a crença de que eles não só tem o direito de serem violentos, opressivos, punitivos, autoritários, como acreditam que isso é necessário", diz ela.

Aliás, essa crença não se limita só às famílias: de acordo com a profissional, a ideia de punição é parte da nossa cultura, que, principalmente, tolera e incentiva a violência dos filhos em nome da educação - mesmo com legislações dizendo o contrário.

Segundo o relatório anual da Visão Mundial, feito em 2018, quatro anos após a aprovação da Lei da Palmada, 62% das crianças ainda sofrem agressões físicas dentro de casa quando fazem algo considerado errado pelos pais.

"Se os pais não fazem isso, se sentem moles, como se não estivessem sendo verdadeiramente pais, porque tem o tudo ou nada na cabeça: ou eu sou opressivo ou eu sou permissivo. Passa pouco pela mente dos pais a possibilidade de educar e oferecer limites de forma respeitosa, mantendo uma escuta acolhedora, um vínculo saudável, o respeito incondicional à criança enquanto pessoa", continua.

Para uma criança, que é menor em estatura e desenvolvimento intelectual do que um adulto, receber um tapa, uma chinelada ou até um grito ou ameaça é um tipo de abuso de poder. Aliás, é fácil perceber que isso é assim quando você espelha essas mesmas situações para ambientes puramente adultos.

Por exemplo, um chefe que grita ou agride um funcionário no local de trabalho é claramente passível de um processo trabalhista (com grandes chances de ganho por parte da vítima), e o mesmo vale para um marido que agride a esposa e é levado às autoridades - em ambos, os casos, inclusive, a prisão é uma punição possível, dependendo da gravidade do crime.

"O desnível de poder gigante que existe entre o adulto e a criança é minimizado", continua Tatiana, "é como se não fosse abusivo gritar com uma criança que não tem condição de se defender à altura, como se não fosse abusivo castigar uma criança que não tem poder de dizer 'Peraí, eu não admito isso, eu vou pedir demissão desse emprego e te acionar'. É muito normalizada ainda a lógica punitiva enquanto algo pedagógico".

Bater na criança não educa

Estudiosa de métodos educacionais não-violentos, Tatiana explica que essa ideia de punição como educação é muito equivocada. "O ser humano não aprende quando está sendo punido", diz.

Ela explica, dizendo que diante de uma punição, todo o ser humano têm duas reações básicas:

  1. Submissão

  2. Rebeldia / Oposição

Aliás, para ela a rebeldia é o cenário mais provável. Pais altamente punitivos e violentos tem chances maiores de desenvolverem filhos considerados rebeldes, com um comportamento de oposição sistemática: "Se eu for autoritário com o filho, muito provavelmente ele criará revolta, indignação, e um desejo de se vingar logo que for possível - e isso muitas vezes acontece quando os pais são idosos, quando a situação inverte e os pais ficam mais frágeis".

Esse comportamento, claro, se estende além do ambiente familiar, e a aversão às autoridades acabam sendo expressas também nas outras áreas da vida desse indivíduo em formação - por exemplo, em relação à professores na escola ou chefes profissionais.

Para a psicopedagoga, existe um erro comum dos pais acreditarem que o objetivo da educação é criar seres humanos obedientes, que sigam as regras impostas, mas a sua principal meta é outra: "Seria criar seres que vão se desenvolver de forma saudável".

Além disso, no caso da submissão, a criança desenvolve um comportamento muito inseguro, com medo de exposição e dos julgamentos alheios, sempre com medo de uma nova punição. E, claro, não é necessário apenas a violência física para desencadear essa série de comportamentos, mas o grito e até o castigo podem gerar essas traumas durante a infância.

Outro ponto a ser considerado também é que esse comportamento violento seja repetido pela criança quando ela crescer. Isto é, que ela repasse o padrão, venha a ser alguém abusivo dentro do seu círculo de convivência, seja a partir do papel de quem causa a violência, ou de quem é violentado. "Ou eu entendo que é normal violência e eu posso praticar, ou que eu entendo que é normal que quem me ame me agrida e vou me casar com alguém que me forneça isso", complementa Tatiana.

É possível reverter os efeitos de uma infância violência?

Um caso de violência pontual, como uma palmada esporádica num momento de raiva dos pais, gera menos danos do que uma vivência violenta recorrente. "Quando os pais se dão conta disso ainda na infância, fica mais fácil fazer redução de danos, sem dúvida nenhuma, mesmo que seja na adolescência. Isso se dá a partir de uma consciência de que eu errei, para ter a condição de me desculpar com o meu filho e dizer a ele que não merece isso".

Para Tatiana, esse é o ponto principal, porque a criança sujeita à violência rotineiramente acredita que ela merece ser humilhada e agredida. Se a sua principal referência agride e humilha, ela passa a ter certeza que a agressão e a humilhação são coisas normais da vida, e algo que ela merece receber e reproduzir depois.

Ou seja, o primeiro passo é a consciência dos pais de que esse comportamento não é aceitável e abrir o caminho de diálogo para que os filhos entendam que essa violência não é normal e que ele não merece ser tratado dessa maneira.