À espera de transplantes, pacientes 'perdem' órgãos e até morrem por falta de leitos

·5 minuto de leitura
Número de transplantes realizados no Brasil foi impactado pela pandemia (Gustavo Basso/NurPhoto via Getty Images)
Número de transplantes realizados no Brasil foi impactado pela pandemia (Gustavo Basso/NurPhoto via Getty Images)
  • Brasil registrou queda significativa no número de transplantes de órgãos realizados durante a pandemia

  • Isso resultou em casos como os de Washington, que chegou a ter o fígado do qual precisa disponível duas vezes, mas perdeu em ambas

  • Taxa de pacientes mortos na fila de espera pelos órgãos teve grande aumento desde a chegada da Covid-19

Não bastassem os mais de 440 mil mortos e 15 milhões de contaminados, a Covid-19 tem prejudicado também pacientes de outras enfermidades. Para aqueles que precisam de transplantes de órgãos, por exemplo, o impacto é direto.

A chegada do coronavírus ao Brasil no ano passado foi fundamental para uma queda significativa no número de transplantes realizados. Levando em consideração apenas o estado de São Paulo, no primeiro trimestre deste ano, a quantidade de procedimentos realizados foi 17,5% menor do que o registro do mesmo período em 2020, quando a pandemia tinha apenas seus primeiros casos em nosso país.

Leia também

De acordo com o presidente da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), Dr. José Huygens Parente Garcia, o ano de 2020 começou “com excelente atividade, ultrapassando todas as metas”, mas veio a pandemia e, a partir daí, a queda foi vertiginosa.

Houve uma redução muito grande das doações e transplantes”, declarou à reportagem do Yahoo!. “Fechamos 2020 com taxa de 15 doadores por milhão de habitantes. Caímos. A queda da taxa de doação foi de 12%, mas dos transplantes, em geral, foi de 30% em 2020”, afirmou.

Presidente da ABTO, Dr. Huygens lamentou a situação - Foto: Divulgação/Governo do Ceará
Presidente da ABTO, Dr. Huygens lamentou a situação - Foto: Divulgação/Governo do Ceará

Foi em 2021, porém, que a situação chegou ao ponto mais crítico. A escalada da Covid-19 praticamente zerou os leitos de UTI disponíveis em todo o Brasil, impossibilitando que os procedimentos fossem realizados, uma vez que todo paciente recém-transplantado deve ficar em tratamento intensivo para ser monitorado.

De acordo com dados da ABTO, foi registrada queda nos transplantes dos principais órgãos no primeiro trimestre deste ano, em comparação com o mesmo período de 2020:

Rim

  • 2020 - 1.571 transplantes

  • 2021 - 1.011 transplantes

Fígado 

  • 2020 - 607

  • 2021 - 437

Coração 

  • 2020 - 97

  • 2021 – 62

Pulmão 

  • 2020 – 29

  • 2021 – 11

Pacientes “perdem” órgãos

Homens e mulheres que ocupavam os primeiros lugares na fila finalmente viram o tão aguardado órgão que necessitavam ficar disponível, mas, diante da ausência de leitos, perderam a oportunidade e precisaram voltar à fila.

Washington Benevides Pinheiro, morador da pequena Pauini, no Amazonas, foi um destes casos. Aos 37 anos, e com diagnóstico de hepatite desde os nove, o rapaz precisa de um transplante para se recuperar, veio a São Paulo e chegou a ter o órgão disponível em duas oportunidades.

Já teve doador para mim, mas estava na alta da pandemia e não tinha leito na UTI. Por causa disso, perdi o fígado. Já era para eu estar em casa, mas, infelizmente, não deu. Tem dia que a gente amanhece meio ruim, mas vamos levando a vida”, contou.

Sem perder a esperança, Washington segue hospedado na Associação para Pesquisa e Assistência em Transplante (APAT), entidade sem fins lucrativos que, entre outras atividades, recebe pacientes de outros estados para realização do procedimento em São Paulo.

Washington voltou à fila do transplante - Foto: Reprodução
Washington voltou à fila do transplante - Foto: Reprodução

O Washington veio porque era o nono da fila, mas o programa ficou parado. A equipe teve de passar o órgão adiante, para o próximo da fila”, explicou a coordenadora e gerente administrativa da Associação, Andréa Teixeira Soares.

Aumento no número de mortes na fila dos transplantes

Se Washington ainda aguarda o fígado, alguns pacientes que tinham quadros ainda mais graves não resistiram à impossibilidade de serem transplantados. Dr. Huygens apontou que o número de mortes entre pessoas na fila de órgãos teve aumento considerável durante a pandemia.

O transplante não pode parar, especialmente o de órgãos vitais”, considerou. “Em 2020, tivemos 37% de mortalidade na fila de espera. Trinta e sete pessoas a cada 100 na fila de espera morreram sem sequer ter a possibilidade de fazer o transplante. Isso é terrível.”

Com a escalada da Covid-19, em 2021 o cenário ficou ainda pior. O Acre, por exemplo, precisou interromper seu programa de transplantes de fígado, o único de toda a região norte do país, por falta de insumos. Sem a possibilidade de realização destes procedimentos no estado, e com grandes centros como São Paulo e Rio de Janeiro com suas UTIs quase lotadas, mais mortes foram registradas.

Enfermeira Valéria registrou mortes no Acre - Foto: Arquivo Pessoal
Enfermeira Valéria registrou mortes no Acre - Foto: Arquivo Pessoal

Perdemos pacientes em fila por não termos para onde mandá-los momentaneamente. Quando nem São Paulo ou Rio de Janeiro conseguem admitir pacientes, a coisa fica feia”, avaliou a enfermeira Valéria Monteiro, coordenadora de transplante hepático do Hospital das Clínicas do Acre.

Valéria relatou que “pelo menos dois ou três” pacientes que morreram aguardando o transplante de fígado teriam sido salvos se não fosse a ausência de leitos. “Eles teriam sobrevivido. Acredito que conseguiriam ser transplantados se tivéssemos vagas em outro estado. Mas parou de vez. Não tem órgão, leito e nem temos para onde enviar.”

Problema “sem solução”

Por mais que lamente casos como os de Washington ou os relatados por Valéria, a própria ABTO admite que não há solução viável para o momento, a não ser o controle da pandemia. Dr. Huygens considerou que a prioridade dos hospitais, atualmente, precisa mesmo ser o tratamento dos pacientes com Covid-19.

A luta é grande, mas o que se pode fazer se o local tem só uma UTI e ela virou UTI de Covid? É muito difícil, a gente entende. Na hora H, o paciente chega com falta de ar, precisando de internação, você faz o que? E quando coloca um paciente de Covid em uma UTI clínica, não pode mais fazer transplantes.”

O presidente da associação espera apenas que a situação calamitosa deixe ensinamentos para um Brasil pós-pandêmico. “Sempre tivemos deficiência grave de leitos de UTI. Foram abertos muitos agora. Então, é importante que, depois da pandemia, sejam mantidos ao menos três vezes mais leitos do que tínhamos antes. Talvez isso representasse um efeito benéfico em meio a essa tragédia.”

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos