A guerra do turbante, e a metafísica do turbante

Alex Antunes

Eu sempre defendi a política de cotas nas universidades – mas por causa dos brancos. Para mim sempre foi óbvio que, ao invés de mais uns poucos brancos fim-de-lista (mais burrinhos que os melhores, gente bem mediana), a presença de uns negros e/ou egressos do sistema de ensino público fazem bem a toda a sala, mais até do que a eles mesmos.

Porque, quando você tem um ambiente muito homogêneo, você reproduz ingenuamente padrões de percepção que depois não se aplicarão ao mundo. Foi ótima minha experiência na universidade (USP), onde uma relativa mistura de gente de diferentes classes sociais, mesmo antes de se pensar em sistemas de cotas, já fazia um ambiente social e intelectualmente mais diverso e motivador. Isso foi por volta de 1980. Parece que piorou bastante, por conta da despencada de qualidade no ensino público, que colocou a mim e a alguns colegas durangos lá. Alguns de nós nos saímos bastante bem.

Fico imaginando que inferno psíquico seria uma classe só de playbas, ou só de nerds – ou só de manos, na outra ponta. Podemos sempre sacrificar alguns deles, os mais medíocres, em nome da diversidade. Esta semana, explodiu nas redes a polêmica da apropriação cultural, mais especificamente do uso de turbantes por brancas, por causa da “menina com leucemia de turbante no metrô”. Ela teria sido abordada por negras pelo uso do acessório, e reagiu contra-expondo-as, com sua condição de saúde.

O primeiro efeito foi bastante humorístico. Um monte de homens brancos garantindo entusiasticamente seu “direito ao uso de turbante” – uma amiga minha, Mariana Pabst Martins, comentou que parecia uma conversão em massa à religião sikh. Os argumentos, de todo modo, não são sempre descabidos. De fato, na história da humanidade, as culturas se mesclam, em processos de recombinação.

Alguns desses bem curiosos, como quando países vencedores de guerras são “contaminados” com as culturas dos vencidos – o filósofo e teólogo Alan Watts, um propagador das ideias orientais no ocidente, no pós-guerra, é exemplo disso. Como diz este artigo “considerando a antipatia, medo e ódio com que (os japoneses) foram atacados durante a Segunda Guerra, (isso) é surpreendente. Mas, depois da Guerra, houve uma reavaliação da cultura japonesa que começou a ir muito além do tipo de pesquisa ‘conheça seu inimigo’”. O componente oriental acabou sendo determinante no ambiente contracultural – e, igualmente, os aspectos mais radicalizados da luta pelos direitos civis, como o partido dos Panteras Negras. Mas não no Brasil.

Djamila Ribeiro, uma das maiores referências do feminismo negro, aponta neste artigo, Apropriação cultural é um problema do sistema, não de indivíduos, para uma refrescada nos embates individuais, explicando o caráter estrutural e mercantilista do problema. A moça branca do turbante passaria por Djamila no metrô sem ser admoestada – seria uma “energia gasta com o alvo errado” segundo a mestre em filosofia política.

“Uma coisa é a troca, o intercâmbio de culturas, o que é muito positivo. Outra coisa é a apropriação. No nosso país, as culturas foram hierarquizadas, sendo a negra colocada como inferior, exótica. Dentro desse contexto é possível falar em troca? A troca só é possível quando não existem hierarquias. Enquanto terreiros são invadidos, há marcas que acham cult colocar modelos brancas representando Iemanjá”, lembra ela.

Obviamente Djamila tem razão – teórica. Mas acho que há um fato contra o qual não há como (e nem porque) lutar. Que é o de que existe, sim, uma dimensão individual e subjetiva do problema, e que é tingida por alguma sensação de irracionalidade. Eu, no meu raciocínio reverso, considero esse componente (dito) irracional não apenas inevitável, mas saudável. Talvez eu nem devesse falar em irracionalidade, mas em disputa de diferentes lógicas.

Como lembrou minha amiga Tatiana Roque, citando o sociólogo e filósofo italiano Maurizio Lazzarato, “os conceitos de ‘trabalho’ e de ‘produção’ não são concebíveis sem o trabalho dos escravos nas colônias ou sem o trabalho doméstico das mulheres, coisa que o marxismo ignorou ou, ao menos, não incorporou politicamente (…) A energia subjetiva liberada pela descolonização e pelo feminismo é incomparavelmente mais potente do que qualquer outra ultimamente. São duas ondas cujos efeitos se farão sentir a longo prazo. Será impossível não levá-las em conta”.

Só consigo ver os arroubos mais radicais de feministas, de negros e de feministas negras (que têm levantado a questão da apropriação cultural na moda, incluindo o uso do turbante) como uma irupção dessa “energia subjetiva”, que não é contemplada pelas agendas patriarcais nem de direita nem de esquerda. Daí sua percepção como “ruído”, como ressentimento politicamente desfocado (mas do ponto de vista de quais práticas políticas?), ou como “irracionalidade”.

Eu gosto de associar os avanços feministas a uma explosão de inconformismo e de ódio aberto anti-homem; tem a ver com meus estudos lilithianos. Portanto para mim, nesse contexto (ou em quase todos), “irracionalidade” é uma espécie de elogio; é quase uma supra-racionalidade se contrapondo à pseudo-racionalidade patriarcal, destrutiva da humanidade. Mas minha amiga Raquel Barreto me pede para ser cauteloso com o termo, que sempre pode ser mal-entendido, e usado contra esta argumentação.

Então, invertamos: “irracionalidade” definiria melhor cenas racistas que se veem no cotidiano (e não estou nem falando de morticínio). Eu mesmo, numa porta descalibrada de banco outro dia, cujo alarme soava a porções mínimas de metal, via a segurança liberar homens brancos (eu incluído) e barrar negros e negras, incluindo uma senhorinha evidentemente inofensiva, que teve que bagunçar todo o conteúdo de sua bolsa de senhorinha inofensiva para conseguir entrar.

Na verdade, a legião retórica de homens brancos intelectualizados que vieram às redes bradar contra “a imprecisão histórica da alegação da origem do turbante”, a “atitude autoritária descabida” das ativistas negras, a “opressão reversa produzida pelos grupos oprimidos”, o resíduo maoista das “guerras culturais” ou mesmo uma ameaça ao nosso feliz caldeirão antropofágico, mostram que as ativistas negras têm sim um ponto, e que tocaram um nervo social sensível.

É como se elas ameaçassem não cassar apenas o uso do turbante, mas o fluxo de autoridade do discurso “lógico” masculino. Talvez por isso tenham atraído tantos intelectuais, e de esquerda, e de esquerda não-ortodoxa, à treta. Seria a última trincheira fractal da autoridade masculina; ou seja, pegou num nervo mesmo.

Essa certa tortuosidade mental branca e masculina que faz com que transformem uma questão negra numa questão deles mesmos – e urgentíssima. Considere que os homens fazem a mesma coisa em relação às colocações feministas, acorrendo em bloco para negar o que não os afeta diretamente, usando o famoso nem todos os homens (a menos que sejam abusadores praticantes, e aí é que continuam não tendo razão mesmo), e temos um padrão colonizador das questões alheias.

Em um dos melhores artigos que li sobre o assunto, por indicação da Raquel, Ana Maria Gonçalvez explica que “boa parte da população branca brasileira sabe de suas origens europeias e cultiva, com carinho e orgulho, o sobrenome italiano, o livro de receitas da bisavó portuguesa, a menorá que está há várias gerações na família (…) E os descendentes dos africanos da diáspora? Quando chegaram por aqui, os traficantes de pessoas já tinham apagado os registros do lugar de onde haviam saído, redefinindo etnias com nomes genéricos (…), feito-os dar voltas e voltas em torno da Árvore do Esquecimento (ritual que acreditavam zerar memórias e história) ou passarem pela Porta do Não Retorno, para que nunca mais sentissem vontade de voltar, separado-os em lotes que eram mais valiosos quanto mais diversificados, para que não se entendessem”.

Ela segue: “Ainda em terras africanas tinham sido submetidos ao batismo católico para que deixassem de ser pagãos e adquirissem alma por meio de uma religião ‘civilizatória’, ganhando um nome ‘cristão’ que se juntava, em terras brasileiras, ao sobrenome da família que os adquiria. No Brasil, não podiam falar suas próprias línguas, manifestar suas crenças, serem donos dos próprios corpos e destinos. Para que algo fosse preservado, foram séculos de lutas, de vidas perdidas, de surras, torturas, ‘jeitinhos’, humilhações e enfrentamentos em nome dos milhares dos que aqui chegaram e dos que ficaram pelo caminho. Como resultado disto, somos o que somos: seres sem um pertencimento definido, sem raízes facilmente traçáveis, que não são mais de lá e nunca conseguiram se firmar completamente por aqui. Temos, como diz a poeta, romancista, ensaísta e documentarista canadense Dionne Brand, em seu maravilhoso A Map To The Door Of No Return, ‘o próprio pertencimento alojado em uma metáfora’. Viver na Diáspora Negra, segundo ela, é ‘viver como um ser fictício – uma criação dos impérios, mas também uma autocriação. É ser alguém vivendo dentro e fora de si mesmo. É entender-se como signo estabelecido por alguém e ainda assim ser incapaz de escapar dele’”.

E conclui: “Viver em um turbante é uma forma de pertencimento. É juntar-se a outro ser diaspórico que também vive em um turbante e, sem precisar dizer nada, saber que ele sabe que você sabe que aquele turbante sobre nossas cabeças custou e continua custando nossas vidas (…) Para carregar este turbante sobre nossas cabeças, tivemos que escondê-lo, escamoteá-lo, disfarçá-lo, renegá-lo. Era abrigo, mas também símbolo de fé, de resistência, de união. O turbante coletivo que habitamos foi constantemente racializado, desrespeitado, invadido, dessacralizado, criminalizado. Onde estavam vocês quando tudo isto acontecia? Vocês que, agora, quando quase conseguimos restaurar a dignidade dos nossos turbantes, querem meter o pé na porta e ocupar o sofá da sala. Onde estão vocês quando a gente precisa de ajuda e de humanidade para preservar estes símbolos? (…) Na nossa casa, a gente não fala de turbante quando fala de turbante”.

Eu iria mais além. Assim como a ala feminista que, quando acusa o todo dos homens de ser abusivo, mais do que ameaçar cada homem individualmente de exposição está fazendo um balanço necessário e não-conciliador da condição terminal do patriarcado (ainda que a custo de algumas eventuais injustiças com um ou outro macho pego no contrapé), as feministas negras também trazem, com a questão do turbante-pertencente, um outro alerta geral.

Essa “metafísica do turbante” nos lembra que, no estágio hipster e lacrativo do capitalismo, toda e qualquer coisa coisa ou gesto, ainda que alegue ser cheia de significado, de estética e de “atitude” (e sempre alega), é apenas mais um fragmento fetichista do agitado nada que nos envolve. As negras querem não apenas que devolvamos o turbante a elas, mas que devolvamos o turbante… ao turbante. O turbante das brancas sequer é real.

Na verdade, as intelectuais negras avançam numa contribuição teórica ainda mais complexa, a da interseccionalidade (neste texto dá pra ter uma ideia do que é), que desembocaria num enfrentamento não contra o patriarcado, mas contra o quiriarcado (a interconexão entre diferentes sistemas opressivos, de gênero, de raça, de classe etc). Aí eu não chego, por ter minhas dúvidas sobre o tema. Penso que patriarcado, no sentido de ruptura do ciclo primordial entre yin e yang, e numa fixação fetichista no yang (que eu chamo de yang do yang), resume bem a natureza do problema. Mas recomendo o link para quem ache que “a questão é simples”. Não é, nem um pouco.

Em todo caso, se eu tivesse que fazer uma simplificação numa frase de efeito, diria: o que parece melhor, uma sociedade em que mulheres negras têm direito de veto em alguns tópicos? Ou uma em que “intelectuais brancos” têm a palavra final em todos?

Uma amiga minha, de brincadeira, disse que tinha uma coleção de turbantes. Perguntei se as cabeças ainda estavam dentro. Para comparar com uma questão feminista, o turbante é o fiu fiu do vestuário. Claro que alguns hábitos têm que ser e serão revistos. Admitam que estão incomodando, e apenas parem (disse este homem branco).

(foto Marc Ferrez, Negra da Bahia, 1885)

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