A história de um shopping que expôs crianças para adoção em uma passarela de moda

Se na passarela da SPFW modelos morrem e o show continua, na passarela da adoção sonhos morrem, infâncias morrem, e o show também continua

Se na passarela da SPFW modelos morrem e o show continua, na passarela da adoção sonhos morrem, infâncias morrem, e o show também continua

Imagem: foto do evento “Adoção na Passarela” realizado em 21 de maio de 2019 no Pantanal Shopping, em Cuiabá-MT.

Por Pedro Pulzatto Peruzzo

Tomei conhecimento de um desfile que aconteceu no dia 21 de maio de 2019 no Pantanal Shopping, em Cuiabá-MT, onde crianças subiram numa passarela para serem adotadas [1]. O evento “Adoção na Passarela” teria sido realizado pela Associação Mato-grossense de Pesquisa e Apoio à Adoção (AMPARA) em parceria com a Comissão de Infância e Juventude (CIJ) da Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Mato Grosso (OAB-MT).

Na reportagem, a gerente de marketing do Pantanal Shopping afirma: “Procuramos sempre utilizar a relevância do nosso shopping para a comunidade cuiabana e desejamos, principalmente, que esse desfile abra portas para uma vida de mais afeto para muitas crianças e adolescentes”.

Num momento histórico em que muitas notícias falsas são veiculadas pela internet, me preocupei em verificar a veracidade da informação. Afinal, existiam coisas estranhas na reportagem, como uma passarela onde crianças desfilam para serem adotadas, um apoio da OAB-MT e uma alegação de relevância comunitária de um shopping. Fiz buscas e perguntei a amigos sobre o ocorrido e, para o meu espanto, não encontrei nada desmentindo a matéria jornalística que li.

Tentei esboçar uma crítica a partir dessa reportagem, comecei a escrever e apaguei. Pensei no meu filho. Retomei, escrevi e apaguei. Repeti o movimento algumas vezes e me dei conta de que a única forma de relatar minha tristeza seria um texto onde eu fizesse o exercício de tentar estar na pele de uma criança submetida a essa violência. Eis o resultado da minha reflexão, que eu desejo profundamente que seja feita também pelos organizadores desse evento nas próximas edições.

Uma criança acorda no abrigo e recebe a notícia de que está inscrita num desfile, tipo uma São Paulo Fashion Week, com passarela e tudo! No entanto, o propósito não é convencer amantes da moda a comprarem roupas, mas convencer adultos a gostarem dela ao ponto de levarem-na para casa como filha.

A criança, então, começa a buscar todo tipo de recurso psíquico que ela tem para fazer o possível e o impossível para estar perfeitamente linda, pois na passarela não dá para mostrar inteligência, não dá para mostrar afeto, não dá para mostrar vazios, carinho, só “beleza”. Aliás, se ela mostrar vazios, angústias ou qualquer outra característica humana que a torne esteticamente feia, ela corre o risco de voltar para o abrigo sem cumprir a missão de conseguir um pai e uma mãe.

Ela sai da cama, se olha no espelho e aceita o desafio. Ao chegar à mesa do café da manhã, logo após passar a manteiga no pão e dar bom dia às outras crianças abandonadas no abrigo, ela começa a descobrir que outras crianças também irão participar do evento. Como são crianças, a concorrência nem passa pela cabeça delas e todas saem juntas da mesa animadas com a alegria que lhes toma o coração diante do sonho de ter um pai e uma mãe.

As semanas passam e o dia do desfile se aproxima. A ansiedade das crianças é cada vez maior. Algumas delas sonham com as luzes, as roupas, os afetos e um pai e uma mãe passeando com ela de mãos dadas ao final do desfile. No dia do desfile todas elas se abraçam, entram juntas na van e vão ao Pantanal Shopping para subir ao palco e saírem de lá amadas e acolhidas por pais e mães que, nos sonhos de cada uma delas, as escolheram como filhas.

Mas o desfile chega ao fim e algumas delas não conseguem cumprir o papel de mercadoria e não são adotadas. Outras, que tiveram a sorte de desempenharem a contento o papel de coisa interessante, saem do shopping com uma família.

Os organizadores comemoram o êxito e, para as “crianças-coisas” que não foram adotadas, anunciam que esse evento está apenas na 2ª edição e que elas terão outras oportunidades de serem escolhidas para serem amadas e, quem sabe, tratadas como seres humanos não descartáveis.

Se na passarela da SPFW modelos morrem e o show continua, na passarela da adoção sonhos morrem, infâncias morrem, e o show também continua.

O artigo 227 da Constituição Federal diz que é dever do Estado, da família e da sociedade colocar todas as crianças, adolescentes e jovens a salvos de toda forma de negligência, exploração, crueldade e opressão. Fico me perguntando onde estava o Ministério Público, o Conselho Tutelar, onde estava a sociedade, a ética e a moral ao ponto de termos que conviver com essa roda dos expostos em pleno século XXI.

Fico me perguntando onde a OAB-MT estava com a cabeça ao apoiar um evento como esse, o motivo pelo qual não propôs um piquenique, que seja, onde as crianças tivessem a oportunidade de conviver alguns minutos com os possíveis pais, onde tivessem a oportunidade do olho no olho, onde tivessem a oportunidade de viverem, no meio de tanto sofrimento, alguns minutos de experiência como seres humanos.

Por que motivo uma passarela, num shopping, um desfile, num cenário de prateleiras, tanta espera, a angústia dos não escolhidos, dos não consumidos, dos renegados uma vez mais.

Não é possível estarmos tão fundo no lixo da humanidade.

Que Deus perdoe a nossa geração por termos tanta gente usando o cérebro e o coração para produzir de tudo, menos saídas justas construídas com amor.

Pedro Pulzatto Peruzzo é advogado e professor do Programa de Pós-Graduação em “Direitos Humanos e Desenvolvimento Social” da PUC – Campinas.