A Lista das Listas: entenda a guerra pela liderança do PSL

Guerra de listas foi protagonizada pelo Delegado Waldir e pelo filho do presidente, Eduardo Bolsonaro. (Foto: Montagem/Yahoo Notícias)

O que começou como um comentário vazado do presidente Jair Bolsonaro durante uma transmissão ao vivo feita por um de seus apoiadores na saída do Palácio do Planalto se transformou em uma guerra aberta dentro do PSL, expondo rachas na sigla que antes só habitavam os bastidores de Brasília.

Entre as batalhas travadas - que, inclusive, já transcenderam ao nível judicial - está a luta pela liderança do partido na Câmara dos Deputados, protagonizada pelo atual líder e filho do presidente, deputado Eduardo Bolsonaro (SP), e o líder destituído Delegado Waldir (GO). O embate durou 5 dias e contou com reviravoltas dignas de roteiro de folhetim das 21h.

Encerrada a peleja, que resultou na vitória do Zero Três - e em sua consequente derrota no caminho à embaixada do Brasil nos EUA -, o Yahoo! Notícias compilou as seis listas apresentadas ao presidente da Casa, Rodrigo Maia (DEM), e elaborou “A Lista das Listas” para você entender passo-a-passo dessa queda de braço.

Antes de jogar-lhes na cova dos leões do PSL, é preciso, no entanto, um contexto de como veio à tona o bate-cabeça entre o presidente nacional do partido, deputado Luciano Bivar (PE), e Jair Bolsonaro.

O PRÓLOGO

No dia 8 de outubro, Bolsonaro pediu a um fã que “esquecesse o PSL” e completou dizendo que Bivar está “queimado pra caramba”. Era o estopim. No dia seguinte, o deputado sentenciou que Bolsonaro já estaria “afastado do PSL”, abrindo brechas para especulações de uma saída do presidente.

Estavam formadas as duas turbas do PSL: a ala Bivarista, pró-presidente nacional e coordenada por nomes como Delegado Waldir, Major Olímpio, Felipe Francischini e Joice Hasselmann; contra a ala Bolsonarista, favorável a Jair e capitaneada por Eduardo Bolsonaro, Carla Zambelli, Daniel Silveira, Hélio Lopes e Major Vitor Hugo.

O primeiro movimento partiu, no entanto, da PF (Polícia Federal), que deflagrou uma operação que teve Bivar como alvo, no dia 15 de outubro. Waldir, até então calado, surge em cena e contragolpeia dizendo esperar que a PF “visite o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) e o seu ex-assessor, Fabrício Queiroz”.

Foi a deixa.

1ª LISTA

Às 21h50 do dia 16 de outubro, surge no gabinete da SGM (Secretaria-Geral da Mesa) uma proposição assinada pela deputada federal Bia Kicis e outros - quando mais de um parlamentar é responsável pela autoria - indicando Eduardo Bolsonaro como líder do PSL na Casa.

A indicação dos líderes de bancada costuma ser feita uma vez ao ano por votação, mas pode haver troca através da apresentação de listas de assinatura desde que os deputados consigam maioria simples na bancada. Com 53 parlamentares, o PSL precisa de 27 assinaturas válidas para a troca.

Assim que apresentadas, as listas são checadas pela administração da Casa e a autenticidade das assinaturas, conferida. Em princípio, a lista que vale é a última apresentada, se não houver erros. Só então a troca é chancelada por Maia para entrar em vigor.

Confira abaixo a íntegra da lista:

A lista de Bia Kicis, no entanto, bateu na trave na conferência. Cravava 27 assinaturas, mas uma das rubricas não passou pela conferência da Secretaria-Geral da Mesa, e a indicação do Zero Três foi rejeitada. O gabinete da SGM não disponibiliza qual das assinaturas não passou pelo crivo. Mas antes do veredito - que só foi proferido no dia seguinte - a ala Bivarista se movimentou.

2ª LISTA

A resposta veio rápido, mais precisamente, em 28 minutos. A segunda lista, mantendo o nome de Waldir como líder, chegou à mesa da SGM às 22h18 e com 31 assinaturas, das quais só duas foram rejeitadas. Apesar de ser um contragolpe, a estratégia do parlamentar goiano foi prever que os bolsonaristas tentariam destituí-lo da liderança e já ter colhido assinaturas para permanecer no cargo. Tanto que cinco nomes da lista de Waldir também constavam na primeira lista, favorável a Eduardo Bolsonaro.

Confira abaixo a íntegra da lista:

3ª LISTA

A terceira tentativa de conduzir Eduardo à liderança, o contra-contra golpe dos bolsonaristas, veio 9 minutos após Waldir deixar a lista dele na SGM. Se em horários ditos comerciais já é complicado encontrar os parlamentares na Casa, às 22h28 de uma quarta-feira é praticamente impossível. Pegos de surpresa com a lista de Waldir, bolsonaristas - representados por Carla Zambelli - saíram à caça de 27 assinaturas. Em vão. Conseguiram as 27, mas três não bateram na conferência. A derrota momentânea não impediu a troca de acusações.

Confira abaixo a íntegra da lista:

Waldir acusou o presidente de chamar deputados no Planalto e de ligar para outros tentando convencê-los das vantagens de ter Eduardo como líder. "O presidente da República está ligando para cada parlamentar e cobrando o voto no filho do presidente", disse Waldir a jornalistas. "Ele age pessoalmente ao chamar vários parlamentares e ligar pessoalmente para vários deputados com essa pressão psicológica dessa questão de cargos e outras situações."

No final da noite, surgiu um áudio de uma dessas falas do presidente, em que ele aparece dizendo que faltaria apenas uma assinatura para "tirar o líder" e ressaltando que o líder do partido e o presidente tem o poder de "indicar pessoas, de arranjar cargos no partido, promessa para fundo eleitoral por ocasião das eleições."

Flagrado, Bolsonaro admitiu que conversou com políticos para tentar trocar a liderança do PSL na Câmara e afirmou que ‘se alguém grampeou o telefone’ é ‘desonestidade’, mas não quis comentar o conteúdo da gravação.

Já o líder do governo na Câmara, Major Vitor Hugo, afirmou que a decisão dos parlamentares foi tomada pelas ações de Waldir, que passou a trabalhar contra o governo, citando a decisão do parlamentar de orientar obstrução na noite de terça-feira quando a Câmara tentava votar a medida provisória de reestruturação de ministérios, que caducava na quarta. "Diante disso a maioria nesse momento decidiu destituir o líder atual e nomear o nosso novo líder", afirmou.

O primeiro dia no front terminou com Waldir ainda ostentando a “faixa de capitão” do PSL na Câmara.

PAUSA NA BATALHA - MAS NÃO NA GUERRA

A disputa pela liderança acalmou, mas isso não significa que os ânimos foram apaziguados. O período entre o dia 16, quando a 1ª lista surgiu, e o dia 21, quando voltou a valer a ‘prova do líder’, foi um ‘toma lá, dá cá’ constante entre bolsonaristas e bivaristas.

Deu tempo para o Delegado Waldir ser gravado em um áudio chamando Bolsonaro de “vagabundo” e dizendo que iria “implodir o presidente”, voltando atrás logo depois usando uma péssima comparação de que é “é como mulher traída, apanha, mas volta”.

A bivarista Joice Hasselman foi destituída da liderança do governo no Congresso, enquanto as baixas do lado de Bolsonaro vieram com Flávio e Eduardo sendo destituídos das presidências da legenda em São Paulo e no Rio de Janeiro, respectivamente. Outra aliada do presidente, a deputada Bia Kicis (PSL-DF) também foi removida do comando do PSL do Distrito Federal.

Na briga, Joice foi destituída do cargo de líder do governo no Congresso. (Foto: REUTERS/Adriano Machado)

No campo da suspensão também não foi diferente. Cinco deputados aliados dos Bolsonaros foram suspensos pela ala ‘bivarista’ do PSL, fazendo com que Zambelli - uma das punidas - acusasse o partido de “falta de democracia”.

A resposta do presidente veio à distância - e de muito longe. Após chegar ao Japão no dia 21, de onde abriu o roteiro de mais de 10 dias de viagem pelo continente asiático, Bolsonaro classificou a guerra como um "bate-boca exacerbado" no PSL e completou dizendo que o "bem vencerá o mal” na crise interna.

4ª LISTA

Ao declarar que o “bem vencerá o mal”, Bolsonaro parece ter previsto a vitória de seu filho. Ou apenas adiantou, do fuso horário japonês, a articulação que já estava feita. No mesmo dia 21, uma terceira tentativa de conduzir Eduardo veio na forma de uma lista, assinada pelo deputado General Girão (RN).

A lista trazia 28 assinaturas, uma a mais que o mínimo. E foi necessária porque uma das rubricas não passou pelo crivo. Como de praxe, o contragolpe dos bivaristas veio na sequência.

5ª LISTA

O próprio Delegado Waldir foi o autor da proposição que tentou marcar sua posição como líder na Casa. Em vão. Apesar das 29 assinaturas levantadas, uma estava repetida e duas foram retiradas, fazendo com que sua liderança caísse por terra. Os nomes, como praxe da Secretaria-Geral da Mesa, não foram divulgados.

O reconhecimento da derrota de Waldir veio através de um vídeo, gravado por ele mesmo. “O meu partido, PSL, decidiu retirar a ação de suspensão de cinco parlamentares e aceitamos, democraticamente, uma nova lista que foi feita por parlamentares”, disse. “Já estarei à disposição do novo líder para, de forma transparente, passar para ele toda a liderança do PSL”, continuou.

6ª LISTA

Mesmo sem precisar, uma sexta lista foi enviada à SGM para reforçar a indicação de Eduardo ao cargo. Novamente, pelo nome do General Girão. O pedido veio com uma assinatura a menos que a anterior - 31, desta vez -, mas duas estavam repetidas e uma não bateu com a original que constava na Casa.

Tanto a sexta quanto a quinta lista foram reconhecidas pelo presidente da Casa, Rodrigo Maia, como válidas e oficializaram Eduardo Bolsonaro como líder do PSL na Câmara. Ao invés de sinalizar uma trégua ao partido, o primeiro ato como líder foi destituir vice-líderes bivaristas e colocar aliados no lugar.

Como toda guerra, há baixas. E a dos Bolsonaros foi perder a indicação de Eduardo à embaixada brasileira nos Estados Unidos, ideia defendida por Jair há meses. A solução do presidente foi indicar Nestor Foster, ligado ao chanceler Ernesto Araújo e ao guru bolsonarista Olavo de Carvalho.