A pergunta de US$ 25 mi para Tua: entrar no draft em 2020 ou 2021?

Tua se aquecendo para o jogo em que sofreu a lesão (Wesley Hitt/Getty Images)

Por Pete Thamel (@PeteThamel), do Yahoo Sports

Recentemente, Tua Tagovailoa, quarterback de Alabama, passou por uma cirurgia no quadril com sucesso. Esse foi o primeiro passo para o esperado início da carreira profissional do atleta.

A notícia também deu início ao processo de draft que com certeza vai estar entre os mais complicados da história da NFL. Como o cronograma de recuperação ainda não foi definido e os detalhes do seguro não foram divulgados, é difícil avaliar qual seria a melhor decisão para Tagovailoa.

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Uma fonte contou ao Yahoo Esportes que o tempo mínimo de recuperação de Tagovailoa deve ser de seis meses. Isso significa que ele só poderia começar a treinar depois do draft da NFL, que acontece no dia 23 de abril. Embora o Dr. Lyle Cain, cirurgião ortopedista da equipe de Alabama, tenha dito várias vezes que acredita na “recuperação total” de Tagovailoa, ainda há muitas dúvidas no meio da NFL, o que é compreensível. Para os executivos da liga, selecionar Tagovailoa sem ver o jogador correndo e lançando é um risco enorme.

Com o futuro profissional incerto, Tagovailoa já conquistou o status de maior incógnita do draft de 2020. Pense no burburinho das conversas sobre Tim Tebow, Josh Rosen ou Lamar Jackson junto com a incerteza da lesão mais comentada do esporte nas últimas temporadas e você tem meses de debates e teorias à frente. Além disso, é preciso levar em conta que o problema de Tagovailoa pode gerar um prejuízo de até US$ 25 milhões. Portanto, o fantasma dessa lesão no quadril pode acabar assombrando também a liga universitária. Os técnicos, administradores e agentes estão se perguntando: será que lesões e prejuízos dessa magnitude poderiam fazer os jogadores de elite buscarem caminhos alternativos para chegar à NFL?

Antes considerado favorito a 1ª escolha em 2020 antes da temporada, Tagovailoa agora é o maior enigma do futebol americano. Ele passou por três cirurgias nas últimas duas temporadas e, no momento do draft, em abril, os times ainda não terão evidências práticas do desempenho do jogador depois dos procedimentos cirúrgicos.

“É muito difícil selecionar um jogador como esse”, explica um executivo veterano da NFL. “Acho que ele vai acabar ficando para o final da primeira rodada”.

O ponto principal para Tagovailoa é: algum time estará disposto a arriscar selecionar no top 5 um jogador com problemas médicos constantes em uma parte do corpo com histórico de lesão grave? Vai depender do prontuário médico de Tagovailoa, mas nem mesmo as previsões mais otimistas de recuperação são suficientes: será preciso ter uma boa dose de fé. O prazo para se inscrever no draft da NFL é 20 de janeiro, daqui a mais ou menos dois meses.

A opção convencional seria entender como ele foi nesta temporada e entrar no draft conforme o esperado. Espera-se que ele seja selecionado na primeira rodada, pois há um desespero generalizado na NFL por um quarterback competente.

“É uma situação complexa, foi muita falta de sorte”, diz um executivo da NFL. “Mas pode acabar sendo bom para o jogador ser selecionado mais tarde [na primeira rodada], como Lamar Jackson, por exemplo. Mesmo assim, é uma decisão difícil”. 

Essa opção poderia gerar um grande prejuízo, dependendo de quando ele for selecionado. A opção mais criativa para Tagovailoa seria esperar para entrar no draft de 2021 da NFL e provar que seu físico está bom. Isso poderia evitar a diferença de aproximadamente US$ 20 milhões entre a seleção no início e no final da primeira rodada. 

Usando de bastante cautela, a conta seria mais ou menos a seguinte: havia opiniões variadas sobre Tagovailoa no mundo do scouting, mas seria muito improvável que um quarterback tão talentoso e produtivo ficasse abaixo da posição nº 5 do draft. Se, com a lesão, ele acabar chegando à posição de nº 25, a diferença de salário pode chegar a US$ 17 milhões, incluindo mais de US$ 12 milhões em bônus de assinatura.

De acordo com os dados de salário do draft de 2019, o valor total do contrato do jogador nº 5 do draft foi de US$ 29,2 milhões, com bônus de assinatura de US$ 19,2 milhões. Já o contrato do nº 25 foi de US$ 11,8 milhões no total, com bônus de US$ 6,6 milhões (a diferença entre a escolha nº 1 e a nº 32 é de US$ 25 milhões).

É muito improvável que Tagovailoa jogue novamente por Alabama. Ele já passou por cirurgias no tornozelo nesta temporada e no ano passado, então não vale a pena correr mais riscos. Além disso, ele jogou 24 partidas como titular, venceu um campeonato nacional e arremessou para 87 touchdowns, ou seja, talento não é a questão.

Mas um dos caminhos para Tagovailoa é voltar para Alabama para se recuperar na estrutura de alto nível do time e voltar à sua melhor versão. Depois da cirurgia, Alabama divulgou em um comunicado que ele voltaria para Tuscaloosa para se recuperar. Taulia, irmão mais novo de Tagovailoa, é quarterback reserva do Tide, e a família toda se mudou do Havaí para o Alabama.

Tua precisou deixar o gramado de maca após sofrer lesão (AP Photo/Rogelio V. Solis)

Vale a pena cair 20 posições no draft só para provar para os times da NFL que o quadril está bom o suficiente para correr, mudar de direção e arremessar tão bem quanto antes? Isso representaria uma diferença de milhões de dólares, mas pode ser uma opção.

“Acho que é uma ideia inteligente”, diz Mike Lombardi, ex-executivo da NFL.

Uma variável desconhecida para a decisão de Tagovailoa são os parâmetros e a cobertura do seguro dele. Cada jogador tem uma apólice diferente, e alguns fatores poderiam determinar a decisão final, por exemplo, se Tagovailoa tem seguro apenas contra invalidez total ou contra invalidez total e perda de valor. Alabama não pode comentar sobre o seguro dos jogadores por causa das leis de privacidade, mas a universidade tem um sistema que oferece seguro aos jogadores de alto nível por meio do fundo de assistência ao aluno do departamento esportivo.

Se Tagovailoa entrar no draft deste ano, os scouts e executivos da NFL terão que se virar com informações incompletas. O Yahoo Esportes conversou com alguns olheiros, e a palavra que mais se ouviu com relação a informações sobre a lesão é "esperar". Os times poderão analisar Tagovailoa no Scouting Combine da NFL e também em abril, mas talvez ele ainda não esteja em condições de jogar.

“Ele não é tão alto”, diz Lombardi sobre o quarterback de 1,85 m e 98 kg. “Os menores sempre se machucam. É assim que funciona”.

Há outros fatores influenciando negativamente a avaliação do jogador: ele não está treinando, não há dados sobre seu tempo de sprint de 40 jardas e os executivos não podem vê-lo fazendo outros exercícios. Além disso, ele tem um histórico considerável de lesões que já o fez ser visto como frágil antes mesmo da lesão no quadril.

Cada time da NFL lida de uma forma com as lesões dos possíveis contratados. Alguns times preferiram cortar Jaylon Smith, linebacker estrela dos Cowboys, da sua lista de possibilidades depois de uma lesão grave no joelho no último jogo dele pela Universidade de Notre Dame. Os Cowboys apostaram nele na segunda rodada e esperaram sua recuperação durante toda a temporada de 2016. Smith acabou tirando a sorte grande nesse draft e acabou se transformando no pilar do time depois de um ano parado. Todd Gurley, tailback dos Rams, foi a décima escolha no draft depois de romper o ligamento cruzado anterior no último ano que passou em Georgia.

O dinheiro que Tagovailoa poderia deixar de ganhar pode fazer com que os talentos de elite destinados ao top 5 sejam mais cautelosos na hora de jogar suas últimas temporadas no futebol universitário. Será esse o ponto de inflexão que fará os jogadores de elite repensarem o caminho até a NFL? “Pode ser”, diz uma fonte do ramo. “Tua Tagovailoa valia mais em agosto do que agora? Sem jogar, ele não teria se machucado”.

Além de não participar dos bowl games, não jogar no penúltimo ano da faculdade seria o próximo passo para os jogadores de elite? Ou eles vão começar a abandonar a faculdade depois de um bom mês no penúltimo ano? Talvez um jogador do calibre de Tagovailoa, com uma lesão no tornozelo, simplesmente faça as malas em outubro e comece a se preparar para o draft.

Não jogar durante toda uma temporada seria difícil. Se decidisse abandonar a faculdade depois do último jogo do segundo ano, o jogador ficaria basicamente 18 meses sem jogar (presumindo que ele também não participaria dos treinos de primavera e do Summer Camp). “Não acredito nisso”, diz Lombardi. “No futebol americano, você precisa jogar”.

Não existe ninguém melhor para falar sobre esse assunto do que John Bosa, pai de Nick e Joey Bosa, antigas estrelas do Ohio State. Os dois jogaram por três temporadas antes de serem selecionados para a NFL no top 3 e foram recrutados do ensino médio como jogadores de elite, conseguindo manter o valor de mercado depois do segundo ano da faculdade. John Bosa lembra de como foi ver a lesão horrível de Smith ao vivo quando Ohio State enfrentou Notre Dame no Fiesta Bowl de 2016. Esse também foi o último jogo da carreira universitária de Joey Bosa. Depois que Joey expulso do jogo por targeting, John Bosa admite que se sentiu aliviado.

Nick Bosa conquistou bastante sucesso por Ohio State (Matthew Visinsky/Icon Sportswire via Getty Images)

“Todo mundo vinha me perguntar se eu estava chateado. Na verdade, fiquei aliviado”, contou John Bosa em uma entrevista por telefone na segunda-feira. “De certa forma, foi triste que a carreira universitária dele tenha terminado daquele jeito, mas tentei ver o lado positivo, então já começamos a preparação para o draft”.

Nick Bosa, o filho mais novo de John, sofreu uma lesão no músculo abdominal no terceiro jogo do terceiro ano da faculdade, em 2018, e quando ficou claro que teria que voltar a jogar mesmo sem estar 100% recuperado, ele largou os estudos para se dedicar à recuperação. John Bosa conta que vários fatores contribuíram para a decisão de Nick, mas o que mais pesou foi o médico dizer que jogar sem estar 100% recuperado poderia aumentar o risco de lesão em outras partes do corpo. “Depois disso, a decisão foi fácil”, explicou John Bosa (mesmo assim, Nick Bosa foi o 2º selecionado geral no draft da NFL).

Mesmo depois que os dois filhos passaram por temporadas finais arriscadas antes do draft, John Bosa não acha que os melhores jogadores vão deixar de jogar no terceiro ano (existe uma regra na NFL que mantém os jogadores na faculdade por três temporadas, tecnicamente três anos depois de terminar o colégio, aprovada por um tribunal federal em 2004).

“Não acho que os garotos vão desistir no meio do ano”, explicou John Bosa. “Um exemplo perfeito é o Nick. Ele jogou muito bem contra USC no segundo ano da faculdade, mas ficou dez vezes melhor depois dos treinos de primavera e da temporada de outono no começo do terceiro ano. Prática e repetição são muito importantes para aperfeiçoar as habilidades de um jogador em qualquer posição. Só um jogador com talento fora do normal poderia estar totalmente preparado sem jogar no terceiro ano”.

No entanto, tem um jogador do segundo ano da faculdade já respondendo a perguntas sobre jogar ou não na próxima temporada. Trevor Lawrence, quarterback de Clemson, que possivelmente será a 1ª escolha em 2021, contou ao The Athletic em março que não tem interesse em seguir outros caminhos para chegar à NFL.

“Em outros esportes, como basquete, dá para sair da faculdade depois de um ano”, explicou ao The Athletic. “É bom ter que ficar pelo menos três anos, assim fazemos amigos e curtimos muitas coisas boas. Eu adoro a faculdade.”

Será que a lesão e a perda de valor monetário de Tagovailoa vão fazer outros dos melhores jogadores universitários mudarem de ideia? Esse é só mais um dos efeitos colaterais dessa lesão assustadora que afligem o mundo do futebol americano.

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