A queda do Ministro das Relações Exteriores: pior que tá, fica

Redação Notícias
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Brazilian Foreign Minister Ernesto Araujo gives a briefing at The Heritage Foundation on September 11, 2019, in Washington DC. (Photo by Eric BARADAT / AFP)        (Photo credit should read ERIC BARADAT/AFP via Getty Images)
Ernesto Araújo pediu demissão do cargo de Ministro das Relações Exteriores após forte pressão do Congresso. (Foto: ERIC BARADAT/AFP via Getty Images)

Por Victor Del Vecchio*

*Colunista de Política Internacional e Direitos Humanos, advogado e mestrando em direito internacional pela USP

O Brasil desfrutou nas últimas décadas de grande prestígio em matéria de relações internacionais. Um país com economia e população grandes, por vezes ocupando o ranking das 10 maiores do mundo, e com histórico pacifista que, além da vantagem de abertura para negociar comercialmente com diversos atores mundiais, também lhe permitiu ocupar espaços de negociação política internacional. Vale lembrar que até poucos anos atrás, o Brasil era forte candidato a ocupar assento permanente no Conselho de Segurança da ONU.

Desde a vitória de Jair Bolsonaro, porém, a imagem internacional brasileira vem definhando. Antes mesmo de assumir o mandato, em dezembro de 2018, o futuro ex-Chanceler, Ernesto Araújo, através de um tweet, informou que o Brasil se dissociaria do Pacto Global de Migrações da ONU, instrumento ao qual havia não só aderido, mas também depositado esforços para sua elaboração e sucesso.

Daí para frente, sobretudo após a posse do chanceler, a queda foi ladeira abaixo. Pautado por bandeiras ideológicas como a luta contra o “marxismo cultural globalista”, o Brasil foi colecionando episódios que variam de ações estrategicamente pouco inteligentes a completos fiascos.

A lista é extensa, e contém desde o negacionismo da crise climática e ambiental, ameaças de conflito militar com a Venezuela - que possui forças armadas muito superiores às brasileiras-, até o alinhamento a ditaduras em moções de matérias de direitos humanos na ONU, como o acesso à saúde sexual e reprodutiva. Tudo isso seguindo um alinhamento ideológico cego e não recíproco com os EUA (nosso segundo maior parceiro econômico), como que em um relacionamento tóxico, do qual ficou viúvo agora com a saída de Trump da Casa Branca.

No entanto, a relação durou tempo demais, o suficiente para estremecer - com diversos episódios - as relações com a China, que é não só o nosso principal parceiro econômico, mas também o maior produtor de insumos hospitalares do mundo e cuja vacina, a Coronavac, se apresentou como a primeira e uma das principais alternativas para tirar o Brasil da atual crise sanitária e econômica.

A medida de isolamento mais eficaz que o governo conseguiu emplacar foi no multilateralismo, ao assumir o papel de pária e se contentar em ficar de fora das principais discussões e tomadas de decisões entre países, como a Covax Facility, da OMS, a qual Ernesto tentou nos retirar sob o argumento de se tratar de uma iniciativa “globalista”. A conta, porém, chegou salgada, uma vez que tal posicionamento fez com que o Brasil largasse atrás na corrida pela compra de vacinas e insumos para sua produção. Isso não parecia um problema para o Planalto, até que a pressão popular e parlamentar, sobretudo do centrão, fez com que Bolsonaro mudasse sua retórica e passasse a defender a vacinação em massa.

Após a troca na pasta da saúde, foi o Ministério das Relações Exteriores que entrou na mira do legislativo que, com sucesso, após sabatina no Senado, demonstrou a inaptidão de Araújo para a continuidade no cargo. Sua saída provocada foi mais um movimento na dança de cadeiras que vem ocorrendo no executivo federal, e que nessa segunda (29) somou trocas em seis ministérios (Defesa,Justiça e Segurança Pública, Casa Civil, entre outros). Porém, cabe observar se nossa chancelaria terá destino parecido ao Ministério da Saúde, que com a saída de Eduardo Pazuello, teve indicação de ministro com perfil mais técnico e com furor ideológico menos exacerbado.

O Planalto cotou nomes para nossas Relações Exteriores ligados à ala militar e à ideológica do governo, como o Almirante Flávio Rocha, atual secretário de assuntos estratégicos da Presidência da República, e Luís Fernando Serra, embaixador do Brasil na França, mas acabou por escolher Carlos Alberto Franco França, diplomata de carreira tido como discreto, que atuou junto ao cerimonial do Itamaraty e ganhou a confiança do presidente ao chefiar o cerimonial do Planalto, apesar de nunca ter chefiado repartição brasileira no exterior.

Por ser pouco afeito aos holofotes e não ter ocupado grandes cargos de liderança no Itamaraty, ainda não é possível precisar como será a atuação de Carlos França. Cumpre observar se esta troca ajudará o Brasil a recuperar a tradição diplomática e o espaço perdido no multilateralismo, que com a pandemia se mostrou fundamental. E ainda, acompanhar como o novo nome será percebido pelos parlamentares do centrão, fundamentais para a saída de Ernesto Araújo, para a manutenção da governabilidade e do próprio cargo de Bolsonaro.

Nos resta aguardar para analisar o quanto as medidas de apoio econômico, de combate à pandemia e a política de “toma lá, dá cá” que Bolsonaro vem praticando serão suficientes para conter a insatisfação popular e institucional com seu governo. Pode ser que, ao indicar mais do mesmo para a chancelaria e outros ministérios, o presidente esteja pavimentando terreno para uma outra troca de posto: a sua própria.