A quem interessa espalhar que não vai ter eleição em 2018? E baseado em que, mesmo?

De todas as imprecisões, falácias e pós-verdades que os círculos petistas geram, uma das mais estranhas é a de que “não haverá eleições presidenciais em 2018”. Mesmo que tenhamos uma direita autoritária agindo, simplesmente não dá para imaginar que tipo de arranjo político e jurídico daria base para um adiamento (ou cancelamento) do pleito.

Quando eu faço essa observação, escuto a resposta simplória de que já aconteceu a deposição de uma presidente eleita e honesta. Ora, mesmo desconsiderando que a tal “presidente honesta” patrocinou barbaridades como Belo Monte (e quem diz Belo Monte diz propina), dá para entender qual composição houve para o impeachment. E mesmo essa não foi fácil, e mesmo nessa os beneficiários (caso do PMDB, por óbvio, e do PSDB, se considerarmos o benefício indireto) demoraram bastante para terem a certeza de aderir.

O que houve no caso do impeachment é que: a) se chegou a um acordo mais ou menos seguro, na oposição, de que havia um vice mais ou menos capaz de segurar o tranco; b) de que era possível formar uma maioria de oposição, com os desembarques da ex-base oportunista; c) que o STF não interferiria nas votações (a partir do momento em que, provocado, o STF definiu um rito aceitável); e, obviamente, d) que houve um presidente da câmara, Eduardo Cunha, vingativo o suficiente para colocar o processo em andamento.

Mas a base para isso tudo foi uma rara concordância entre as ruas e o capital, em que o impeachment de Dilma poderia ser uma redução de danos para a situação do país. Obviamente o governo mais ou menos de Temer continua bem mais ou menos, tentando se equilibrar entre bajular o capital e os fisiológicos do congresso. E, ainda por cima, Temer está ameaçado pela cassação da chapa no TSE – o que colocaria no horizonte uma eleição indireta no congresso, para um mandato tampão até 2018.

Nada disso aponta para um acordo em relação a um cancelamento ou um adiamento das eleições presidenciais; muito pelo contrário. O capital entende que um governo Temer deve durar até 2018 (para não gerar maiores turbulências na economia), mas apenas até 2018. Quando deverá ser substituído por uma gestão mais legítima e responsável – ainda que capital e o que restou de mobilização nas ruas (em boa parte influenciada pelo petismo, que também não quer a deposição de Temer) não devam ter a mesma concepção acerca do que é “legítima e responsável”.

A parte mais representativa do capital aposta numa solução peessedebista. É obvio que Alckmin, Serra e principalmente Aécio terão problemas nesse meio tempo, com as acusações de corrupção. Mas Aécio, num movimento engraçadão, passou a admitir Dória como seu plano alternativo, apoiando a “criatura” de Alckmin contra a própria vontade de Alckmin. E consta que Serra estaria indo pelo mesmo caminho.

Só Alckmin mantém uma articulação consistente com vistas à eleição; todo o resto do campo do partido começa a flertar com a saída Dória (ou mesmo um eventual lançamento de Luciano Huck como candidato; já se vêem alguns balões de ensaio). É claro que, isso tudo, com vistas à eleição de 2018, e não de um cancelamento dela. Uma ala minoritária do capital ensaia um flerte com Bolsonaro, mas esse teria que ser “educado” ou “treinado” (o nível da treta envolvendo Bolsonaro já se fez sentir com a polêmica em relação aos convites par palestras na Hebraica de São Paulo e do Rio).

De onde, então, teriam saído as especulações em relação a 2018 – e eu já vi até a bizarra sugestão de que haveria uma junta liderada pelo ministro do STF Alexandre de Moraes? Consegui localizar duas fontes. Uma, esta entrevista de Franklin Martins, em que o ex-secretário de Comunicação do Governo Lula se pergunta “que nomes eles têm para 2018, se é que eles virão para a disputa? Aécio? Não vai a lugar nenhum. Serra? Também não vai a lugar nenhum. O próprio Alckmin, ao meu ver, não sai muito de São Paulo. O Moro não segura três meses de campanha. É de uma mediocridade total. Na verdade, eles não têm um nome e, isso se deve ao fato de que eles não têm um projeto para o país. Neste processo do golpe, eles destruíram a política e inclusive os nomes deles. Quem são as grandes referências que ainda estão aí? Há o Lula que, ao meu ver, crescerá cada vez mais. Além dele, há a Marina, em decadência, que pode crescer no discurso da não política. Tem o Ciro que pode crescer e o Bolsonaro, que pode crescer, mas não ao ponto de ganhar uma eleição. Mas eles irão para uma eleição sabendo que perderão? Acho que, de moto próprio, não irão”.

Obviamente é uma opinião irrealista e sectária (Marina não está em decadência mensurável em pesquisas; Moro não é do PSDB, e em princípio não é candidato a nada, ainda que fosse, no meu entender, um candidato interessante; Lula sim é que estará inelegível). Mas, principalmente, é uma opinião irresponsável, ao colocar todo o espectro não-petista, da centro-esquerda à extrema direita, como suscetível a um grande acordo anti-eleitoral. É mentira, e é delirante. Pelo contrário, todas essas forças contam com a eleição de 2018 para medir forças.

Outra fonte de especulação é a entrevista de Gilmar Mendes no dia 6 do mês passado, em que o presidente do STF fez observações sobre a necessidade (segundo ele) de fazer uma reforma político-eleitoral até setembro, para garantir novas regras de financiamento de campanha já em 2018. Sem entrar no mérito do discurso, Gilmar não disse que as eleições estavam ameaçadas, mas que há uma ameaça de ressurgimento do caixa 2. O título que a matéria ganhou no Globo, no entanto (Gilmar diz que caixa 2 ameaça eleições) gerou reproduções em outros veículos, e a costumeira grita oportunista e sensacionalista na imprensa petista, como aqui: Gilmar e Globo querem adiar eleições de 2018.

Como se vê na matéria, Gilmar, ao insistir na questão da “inconveniência” dos vazamentos da Odebrecht, como de hábito quer preservar os “suspeitos de costume”, e não inviabilizá-los. De onde viria a ideia então de que as eleições estão ameaçadas? Por quem? Que acordo seria esse, com que sustentação política, jurídica ou mesmo militar? Simplesmente não faz sentido. Se existisse algum tipo de consenso, seria mais na linha de que deve ser melhor deixar Temer por lá mesmo (sem correr nenhum risco numa eleição indireta nesse congresso bagunçado), e botá-lo para correr em 2018, no calendário oficial. É só alguém parar o julgamento no STE com um longo pedido de vistas. E, mesmo se eleição no congresso houvesse (na qual há quem sugira que o próprio Gilmar concorra, e não Alexandre de Moraes, o jovem), seria para um mandato-tampão, mantido o calendário.

O que acontece, e aqui temos que recorrer à psicanálise, é que o psiquismo petista esquisitão tem um gosto perverso, masoquista mesmo, nessas fantasias. Ou seja, no entendimento de tudo que não é solução petista é “fascista”, e é um “golpe” orquestrado como se todos os inimigos tivessem alguma coesão entre si; uma estratégia precisa, e não-reativa. É a busca de um significado épico para uma época medíocre. Só falta combinar com a realidade.

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