'A tomada Chernobyl pela Rússia é a tomada de um símbolo', diz pesquisador da USP

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Militares ucranianos realizam exercício na cidade de Pripyat, perto de Chernobyl, antes da chegada das forças da Rússia. Foto: SERGEI SUPINSKY/AFP via Getty Images.
Militares ucranianos realizam exercício na cidade de Pripyat, perto de Chernobyl, antes da chegada das forças da Rússia. Foto: SERGEI SUPINSKY/AFP via Getty Images.
  • Especialista em matéria nuclear diz que não há uso para o que existe hoje na região

  • Cientista Político diz que tomada é estratégia geopolítica

  • Professor diz que maior preocupação não é com Chernobyl, mas outras usinas

Militares russos invadiram nesta quinta-feira (24) a cidade ucraniana de Chernobyl, conhecida pelo desastre nuclear de 1986, o maior da história. A usina, localizada a 130 km a norte de Kiev, foi tomada durante o primeiro dia de bombardeios contra a Ucrânia.

A presença russa no local tem causado grandes preocupações internacionais. A agência nuclear da Ucrânia chegou a divulgar um alerta informando que houve aumento dos níveis de radiação no local.

O que não fica claro, no entanto, é por que a tomada da cidade - que, 36 anos depois, segue deserta e é considerada uma “zona de exclusão” - é importante para os russos.

Máscara anti-gases abandonada em edifício em Chernobyl. Foto: Getty Images.
Máscara anti-gases abandonada em edifício em Chernobyl. Foto: Getty Images.

O professor Pedro Costa Jr., pesquisador do Departamento de Ciências Políticas (DCP) da USP, explica que o Acidente Nuclear de Chernobyl, em 26 de abril daquele ano, quando uma das usinas explodiu durante testes, marcou o início da derrocada da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).

Dessa forma, avalia o professor, “a tomada russa de Chernobyl é a tomada de um signo, sem dúvida nenhuma”.

“O Putin tem em mente que o pior acontecimento do século XX foi a queda da União Soviética”, pontua o pesquisador. “Considerando que o século XX teve duas Guerras Mundiais e o Holocausto”, completa.

O acidente nuclear ocorreu na Usina V. I. Lenin, localizada na cidade de Pripyat, a cerca de 20 km de Chernobyl. Toda região precisou ser evacuada, mas a contaminação, causada pelo material radioativo espalhado, matou milhares de pessoas.

“Então retomar Chernobyl, que é um símbolo do desastre, é de importância para o Kremlin”, afirma Costa. “Isso com certeza está na mente deles. A diplomacia russa é muito qualificada, eles pensam na frente.”

Símbolo soviético em um correio abandonado na vila de Krasno, na zona de exclusão de Chernobyl, oucpada pelas tropas da Rússia. Foto: Getty Images.
Símbolo soviético em um correio abandonado na vila de Krasno, na zona de exclusão de Chernobyl, oucpada pelas tropas da Rússia. Foto: Getty Images.

Segundo o internacionalista, a diplomacia e a geopolítica possuem um papel central para Moscou. “Não dá para falar da Rússia sem falar dessa geopolítica mais forte, dessa história”, avalia o professor. “A Rússia não é um país, é uma civilização.”

Resíduos nucleares

O pesquisador elenca um segundo possível interesse russo, mais prático, que tem relação com os próprios resíduos nucleares que estão no local.

Sobre esse tema, o professor Odilon Marcuzzo do Canto, ex-secretário da Agência Brasil-Argentina de Controle de Materiais Nucleares (ABACC), avalia que não há maiores interesses russos na região em relação ao que existe hoje na planta nuclear de Chernobyl.

“Não tem grandes coisas lá hoje. O reator danificado está envolto em uma capa de aço e concreto, para não deixar vazar radiação para o meio ambiente”, explica. “Hoje os perigos são praticamentes inexistentes. Segundo as últimas contagens da Agência Internacional de Energia Atômica, o local produz taxas de reações toleráveis para o meio ambiente. Tanto que se fazem vistas a Chernobyl.”

Vista aéra da planta nuclear de Chernobyl, área ocupada pela Rússia. Foto: Getty Images.
Vista aéra da planta nuclear de Chernobyl, área ocupada pela Rússia. Foto: Getty Images.

Segundo ele, a maior preocupação, de seu ponto de vista, é com o fato de que ambas nações são potências nucleares.

"Este ato [invasão da Ucrânia] diz respeito a todos os habitantes do planeta Terra, em última análise. Uma porque a Rússia é uma potência nuclear. Aproximadamente metade do arsenal nuclear existente no mundo está hoje nas mãos do Putin”, contextualiza. “E outra porque o próprio território da Ucrânia é um território onde proliferaram usinas nucleares. Hoje, a Ucrânia tem 15 reatores nucleares funcionando.”

Para o especialista, este é o ponto principal de preocupação.

“O perigo maior, na verdade, são dos reatores nucleares em operação, que sejam atingidos por algum bombardeio, que podem espalhar radiação”, aponta.

Ucrânia invoca acordo no qual abriu mão de arsenal nuclear

Um dia antes da entrada de forças russas no território da Ucrânia, o presidente Volodymyr Zelensky invocou o Memorando de Budapeste sobre Garantias de Segurança, pedindo garantias de proteção, em vídeo nesta quinta-feira (24).

“Você quer garantias de segurança da OTAN [Organização do Tratado do Atlântico Norte], nós também”, disse o presidente, se dirigindo à Rússia. “De você, Rússia, e de todos os outros países garantidores do Memorando de Budapeste”.

O Memorando de Budapeste, de 1994, assinado por Belarusia, Cazaquistão e Ucrânia, colocava as três nações no Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares, o qual os Estados Unidos, Reino Unido e Rússia já haviam firmado. Em troca de proteção, esses três países abriram mão de seu arsenal nuclear.

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