A travessia de Greta Thunberg em um veleiro é a imagem que devemos guardar para o futuro

A jovem ativista sueca Greta Thunberg atravessou a Atlântico em um veleiro para debater o clima na ONU (Foto: Kirsty Wigglesworth/Pool via REUTERS)
A jovem ativista sueca Greta Thunberg atravessou a Atlântico em um veleiro para debater o clima na ONU (Foto: Kirsty Wigglesworth/Pool via REUTERS)

Que imagem vamos guardar para o futuro quando mostrarmos, para nossos filhos e netos - provavelmente em um álbum holográfico - o que foi viver o “louco ano de 2019”?

De supetão se sobressaem a figura dos homens sórdidos, com a testa franzida, as sobrancelhas desalinhadas, os punhos sobre a mesa – e tendo a morte, seja por meio da destruição, seja pelo discurso de eliminação, física e simbólica, de qualquer concorrente, como figurino comum.

Mas há também imagens que não só confrontam esse território devastado como indica que existe um futuro no horizonte. Um futuro ainda a ser plantado ou reflorestado, mas certamente a caminho.

Uma dessas imagens é a chegada do veleiro da ativista sueca Greta Thunberg, de 16 anos, a Coney Island, em Nova York, na última quarta-feira, 28 de agosto.

Acompanhada do pai, Svante Thunberg, ela viajou até os EUA para participar da conferência sobre o clima na Organização das Nações Unidas (ONU).

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Thunberg ficou conhecida após faltar às aulas às sextas-feiras para se sentar em uma praça em frente ao Parlamento da Suécia, em Estocolmo, e exigir medidas concretas contra o aquecimento global. O movimento ficou conhecido como Fridays For Future e ganhou similares pelo mundo todo.

Dias atrás, ao ser convidada, com mais três jovens, para uma sessão na Assembleia Nacional da França, que enfrenta uma onda intensa de calor, ela afirmou que o “problema ambiental é aqui e agora”.

Em uma época em que o obscurantismo dos governantes substituiu as evidências, o grupo mostrou estudos científicos para refutar as críticas relacionadas a um suposto alarmismo dos movimentos ambientalistas. “Somos realistas”, disseram.

O Brasil, governado por uma pauta antiambiental e que virou manchete mundo afora em razão das queimadas que sucediam a destruição de partes da floresta amazônica, não podia ficar de fora do discurso. Greta lembrou dos jovens e crianças que estão se mobilizando por aqui e afirmou que há muitas coisas incríveis a serem feitas pelo mundo.

“Minha mensagem para os jovens no Brasil é que precisamos nos conscientizar sobre o que está realmente acontecendo agora e quais podem ser as consequências de nosso sistema atual. Porque apenas quando entendermos, principalmente os jovens, que nosso futuro está em perigo, eles vão reagir”, disse.

Para chegar até os EUA, Greta se recusou a viajar de avião por causa das emissões de carbono da aeronave. Coube a Pierre Casiraghi, filho da princesa Caroline, de Mônaco, colocar à sua disposição um veleiro que atravessaria o atlântico sem causar qualquer impacto na atmosfera.

A viagem, que durou duas semanas e teve como ponto de partida a cidade de Plymouth, no Reino Unido, serviu para chamar a atenção do mundo inteiro para a causa ambiental. Detalhes da travessia foram compartilhadas em sua página no Instagram – que, até a última sexta-feira, tinha 2,9 milhões de seguidores.

Uma das imagens mostrava a mobilização dos estudantes em uma cidade na Alemanha, que em junho reuniu cerca de 40 mil pessoas em uma das muitas edições das Sextas-Feiras para o Futuro.

No livro “A escola não é uma empresa”, que acaba de ser lançado no Brasil pela Boitempo, o professor de sociologia da Universidade Paris-Ouest Nanterre-La Défense Christian Laval mostra como os sistemas de educação nacionais, sobretudo na Europa, estão pressionados a se moldar cada vez mais às necessidades do mercado, e não à formação e emancipação dos estudantes.

O “novo paradigma”, segundo ele, “tem um grande perigo de confusão de lugares, dissolução de conteúdos e empobrecimento cultural quando é interpretado pela lógica restritiva do capital humano”.

Ao substituir a palavra “conhecimento” pela palavra “competência”, afirma o autor, esse modelo traiu os ideais da chamada escola “emancipadora” quando passou a servir de “antessala de uma vida econômica e profissional nada igualitária”.

Não é preciso dizer que essa padronização, baseada em planos e metas individuais, tem como consequência a perda das referências coletivas. Em outras palavras, todos estamos preocupados demais com a própria carreira para se preocupar com o Planeta.

A travessia de Greta Thunberg pelo Atlântico é a travessia simbólica, quase hercúlea, de uma geração que se nega a ser gado e faltou à aula para salvar o futuro.