Abandono do Rio vai da Zona Sul ao subúrbio, passando pelo Centro

De frente para os condomínios e hotéis da orla da Barra da Tijuca, Zona Oeste, a paisagem em nada condiz com o luxo que aquele trecho do bairro sugere. Ao longo da Avenida Lucio Costa, o calçadão da praia desabou em cinco trechos apenas entre os postos 6 e 9. A destruição, causada pela força das ondas, não se resolve há meses, em alguns casos, há anos: na altura do número 5.210, mais de cem metros de calçadão permanecem engolidos pelo mar desde 2020.

Ainda na Barra da Tijuca, em frente ao número 6.200 da Lucio Costa, não sobrou calçadão para os pedestres passarem. É preciso caminhar pela ciclovia, enquanto guarda-corpos cercam a área danificada. Na altura da Avenida Ayrton Senna, um quiosque foi tragado pela ressaca. Restou apenas a alvenaria subterrânea da estrutura. Já a tubulação ficou aparente e, às vezes, chega a jorrar água potável a metros de distância.

Dali para a Zona Sul, no Arpoador, quem desce até a areia encontra um corrimão de madeira deteriorado, com trechos sem apoio. No calçadão, ambulantes vendem cangas, bijuterias e telas, prática que se tornou corriqueira em Copacabana, sobre as mundialmente conhecidas ondas de pedra portuguesa desenhadas pelo paisagista Burle Marx. No bairro, problemas relativos ao comércio ambulante motivaram 567 reclamações feitas à Central 1746 de janeiro de 2021 até abril deste ano, 104 delas voltadas para a Avenida Atlântica. No calçadão de Ipanema, os percalços tomam a forma de buracos. Pequenos, é verdade, mas numerosos.

— É perigoso, o bairro tem muitos idosos e boa parte caminha aqui. Já presenciei alguns acidentes — relata a cuidadora Inês Pires, de 32 anos.

Nas proximidades do Museu de Arte Moderna (MAM), os famosos jardins — também patrimônio de Burle Marx — já sofreram mais com o abandono que descaracteriza os traços do paisagista. Do ponto em que se admiram os pilotis do prédio projetado pelo arquiteto Affonso Eduardo Reidy, veem-se lixo espalhado e moradores de rua dormindo na área.

Os espelhos d’água do entorno parecem abandonados. O que fica na lateral do museu está vazio: restaram apenas poças de água esverdeada e parada. E, no que fica na lateral da casa de show Vivo Rio, além de todo tipo de dejetos, grande parte está coberta por um emaranhado de vegetação.

— Ultimamente, o que mais tem deixado a desejar aqui é a limpeza — diz o professor de dança Paulo Roberto Dias, de 29 anos, que dá aulas e ensaia nos jardins do MAM. — Além do lixo, às vezes há um cheiro de urina muito forte.

No Parque do Flamengo, que é tombado, as quadras de futebol com grama sintética estavam há anos esquecidas. A maioria continua assim, com alambrados quebrados e buracos que aumentam o risco de lesões dos jogadores. Pelo menos três delas, contam frequentadores, começaram a ser reparadas pela prefeitura nos últimos meses. Mas as obras demoram a avançar.

— Em um dos campos já tinham colocado grama sintética novinha. Mas estão tendo de refazer tudo — conta o jovem aprendiz Lucas de Souza Nascimento, de 20 anos.

No Parque, o drama dos moradores de rua se repete, com o uso de barracas, de camping ou de tecido, como a armada perto do Monumento a Estácio de Sá. Na Zona Sul, a realidade da sarjeta chega a lugares que não costumava atingir, como a Praia Vermelha, na Urca, ao lado do Bondinho do Pão de Açúcar.

Já na Praça São Salvador, em Laranjeiras, detalhes evidenciam deslizes na conservação, como uma mesa sem tampo e o chafariz desligado. Mas é do outro lado do Rio, em Madureira, na Zona Norte, que fica ainda mais claro o descuido com o Rio de Janeiro.

No tradicional bairro do subúrbio, camelôs fazem parte da paisagem há décadas, mas quem circula por lá conta que a ocupação do espaço público só piora. A passarela próxima à quadra do Império Serrano, por exemplo, foi loteada. Alguns trechos ganharam até cobertura de lona.

A confusão aumenta na Avenida Ministro Edgard Romero: lixo, caixotes, mercadorias de camelôs, carrinhos de supermercado usados como depósitos... Tudo parece transbordar da calçada para o meio da rua. Sobra para os pedestres, que têm de se espremer entre o entulho e o tráfego.

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