Abel Ferreira já foi comentarista e discursou contra banqueiros antes do Palmeiras

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*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, BRASIL - 23.05.2021 - Técnico Abel Ferreira, do Palmeiras - São Paulo e Palmeiras pela segunda partida da final do Campeonato Paulista 2021 no estádio Cícero Pompeu de Todelo no Morumbi.  (Foto: Rubens Cavallari/Folhapress)
*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, BRASIL - 23.05.2021 - Técnico Abel Ferreira, do Palmeiras - São Paulo e Palmeiras pela segunda partida da final do Campeonato Paulista 2021 no estádio Cícero Pompeu de Todelo no Morumbi. (Foto: Rubens Cavallari/Folhapress)

LISBOA, PORTUGAL (FOLHAPRESS) - Primeiro técnico europeu a chegar a duas finais consecutivas de Libertadores, Abel Ferreira tenta erguer mais uma vez a taça continental com o Palmeiras neste sábado (27), diante do Flamengo, às 17h, em Montevidéu, no Uruguai.

O título coroaria um percurso agitado e marcado, em boa parte, por sua cruzada contra uma parcela da imprensa. Nem sempre foi assim, contudo.

Se hoje o português de 42 anos se senta no banco de reservas, por um período breve de sua vida ele esteve em outra posição: com uma visão mais privilegiada do campo, direto das cabines de transmissões televisivas.

Quando critica o trabalho de comentaristas brasileiros, Abel o faz com conhecimento de causa, segundo pessoas que acompanharam seu período na TV.

Assim que deixou a sua primeira experiência como treinador, ao ser demitido da base do Sporting, em 2014, o ex-lateral direito passou, então, a comentar jogos para a Sport TV, principal emissora esportiva de TV a cabo em Portugal. Foram poucos meses na função, mas o suficiente para abrir novos horizontes profissionais.

"Acho que ele poderia ter tido futuro e, mais do que isso, ficou com a vontade de fazer mais", conta o repórter Carlos Rodrigues, que participou de diversas transmissões ao seu lado. "Depois que ele saiu do nosso canal para trabalhar no Braga, o encontramos muitas vezes, e ele dizia que não fechava a porta e tinha certeza que ainda voltaria a comentar mais adiante", acrescenta.

Na ocasião, Abel havia retornado a sua cidade natal, Penafiel, e cumpria a rotina da maioria dos jornalistas locais, viajando de carro ao lado dos colegas para as partidas. Em sua escala tinha, sobretudo, duelos da primeira e segunda divisões portuguesas.

Com um estilo mais sóbrio e pouco afeito a qualquer comentário que fugisse do que se passava no gramado, destacava-se pela leitura precisa que fazia dos jogos.

Longe de qualquer arrogância que poderia advir da carreira sólida que construiu como atleta, o comandante palmeirense se mostrava um verdadeiro obcecado por feedbacks sobre o seu desempenho nas câmeras.

"Ele esteve sempre pedindo feedbacks e eu notei com o tempo que esses feedbacks não eram apenas para ele ser melhor comentarista, mas também para quando voltasse ao cargo de treinador -e ele tinha a convicção que chegaria a grandes projetos- estar mais preparado em sua comunicação", afirma Rodrigues.

"Fomos fazer certa vez uma transmissão em Chaves, pela segunda divisão, e pegamos o Abel no caminho, em Penafiel. Nesse dia, ele passou o trajeto inteiro perguntando coisas como o técnico com quem eu mais gostava de falar ao fim das partidas, se preferia aqueles que respondiam mais fortemente ou outros mais polidos, qual tinha gostado mais de entrevistar, qual tinha gostado menos. Ele estava claramente me estudando", continua, aos risos.

"Entre os comentaristas que tivemos, ele foi, sem dúvida, o mais curioso que encontrei. Carregava um interesse genuíno e fazia uma preparação extrema para os jogos", completa.

Possivelmente por isso, Abel não aceite hoje qualquer análise que julgue ser rasa sobre o trabalho que mantém no Palmeiras desde que assinou vindo do PAOK, da Grécia, em outubro do ano passado.

O estilo forte, muitas vezes agressivo, não é uma exclusividade, no entanto, de sua relação com os formadores de opinião no Brasil. Alguns anos atrás, em evento com os seus conterrâneos em Penafiel, chegou a discursar, inclusive, contra banqueiros.

"Eu costumo dizer que nós temos que seguir os exemplos. Quando eu vejo nossa cidade hoje em dia, você tem os banqueiros e, ao mesmo tempo, pessoas sofrendo para pagar 100 mil euros (R$ 629 mil) durante uma vida, correndo o risco de, se não quitarem uma prestação, hipotecarem tudo e mais alguma coisa. E, por outro lado, assistimos indivíduos que roubam de uma forma escandalosa e passam impunes. É algo que me deixa triste", desabafou, arrancando aplausos da plateia.

Essa faceta que deixa transparecer mais claramente a sua personalidade esteve escondida durante grande parte de sua carreira como lateral. Até encerrá-la precocemente, aos 31 anos, por causa de uma lesão no Sporting, Abel praticamente não carregava qualquer entrevero fora de campo.

"Sinceramente, ele nunca foi uma pessoa que chamasse a atenção pelo temperamento. Enquanto jogador, sempre foi muito tranquilo na relação com a imprensa", recorda Carlos Freitas, diretor de futebol responsável por trazê-lo do Braga para o Sporting e depois por sua transição para ser treinador.

"Agora, compreendo tudo (que está acontecendo no Brasil). Compreendo quem pergunta, mas também compreendo as reações de quem responde. Porque o grau de exigência de um treinador atualmente, não digo que é diário, mas é quase isso. Um profissional que está à frente do Palmeiras tem que dar entrevista antes e depois do jogo do Brasileiro, o mesmo na Libertadores, ou seja, é uma pressão tremenda num país que respira futebol e também possui uma imprensa agressiva", prossegue.

"Diria que não existe nenhuma anormalidade na dinâmica desse relacionamento", finaliza.

Com consultas vindas do exterior, Abel não tem a sua continuidade assegurada no Palmeiras ao fim da Libertadores. Qualquer que seja o desfecho de sua história, contudo, Freitas vislumbra um técnico mais valorizado do que quando desembarcou no Brasil.

"Ele seguramente sairá mais forte e preparado. Passou por outro continente, outra cultura e o Palmeiras é um clube com um peso completamente diferente de qualquer outro que ele treinou antes", conclui.

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