Decisão de Kassio Nunes sobre igrejas desestimulou a fé nas autoridades

Matheus Pichonelli
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Judge Kassio Nunes, nominee of Brazilian President Jair Bolsonaro for the next Supreme Court Justice, reacts during a meeting of the Constitution, Justice and Citizenship Commission at the Federal Senate in Brasilia, Brazil October 21, 2020. REUTERS/Adriano Machado
O ministro Kassio Nunes Marques, do STF. Foto: Adriano Machado/Reuters

Publicada no sábado, a decisão do ministro Kassio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal, de liberar cultos, missas e celebrações religiosas no pior momento da pandemia no país é um exemplo escancarado da falta de coordenação nacional mínima em torno das medidas para contenção do morticínio.

Seria irônico, não fosse trágico, que a reabertura que expôs ao risco milhares de fieis e seus familiares tenha sido tomada na véspera do Domingo de Páscoa, a data mais importante do calendário cristão. Uma data voltada para a celebração do triunfo da vida sobre a morte.

Foi esta mensagem que os líderes religiosos perderam a chance de manifestar ao contrapor as medidas sanitárias a uma determinação divina. Esses anseios não são inconciliáveis. Ou não deveriam ser.

Nunes atendeu a um pedido da Associação Nacional de Juristas Evangélicos, que acusava os gestores municipais e estaduais de ferirem a liberdade religiosa o princípio da laicidade estatal.

Em sua decisão, o ministro disse que os espaços religiosos poderiam, sim, abrir as portas, desde que respeitados os protocolos sanitários, como o distanciamento social —algo humanamente impossível fiscalizar. 

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Segundo Nunes, o momento pede cautela, mas a reabertura se justifica porque, em contextos tão difíceis como o atual, “mais se faz necessário reconhecer a essencialidade da atividade religiosa, responsável, entre outras funções, por conferir acolhimento e conforto espiritual”.

Jair Bolsonaro, que indicou o ministro à Corte, comemorou a decisão em seu Twitter. Está mais preocupado em manter os votos e o apoio dos pastores do que com o bem-estar dos fieis. Quanto mais ficarem em casa, como recomendam as autoridades sanitárias, menos dinheiro em forma de dízimo e outras contribuições entram no bolso de seus mandatários. 

Em pleno 2021, é incompreensível que as soluções tecnológicas, que permite a grandes empresas funcionarem a distância, não possam servir aos desígnios também da fé. Foi Cristo, afinal, quem disse que ele estaria onde dois ou mais estivessem reunidos em seu nome. No STF, as lideranças religiosas contestaram essas palavras, determinando agora que Ele só pode marcar presença onde dezenas e até centenas se reúnam.

Que ninguém seja ingênuo a essa altura. É a fé como negócio que está em jogo nesta discussão.

Entre especialistas, é consenso que a ausência de uma comunicação de crise, limpa, transparente, coordenada e sem ruídos, é determinante para que o sucesso das medidas de isolamento em tempos como o atual.

Hoje, porém, o sujeito de fé acorda no domingo de manhã e tem à disposição um menu sobre quem deve ou quer ouvir. O prefeito diz uma coisa, o presidente outra, o governador outra ainda e cada juiz produz uma sentença provisória, que pode cair a qualquer momento.

Enquanto autoridades políticas e jurídicas batem cabeça, a liderança religiosa torna-se uma espécie de última instância para anseios individuais. Para muita gente, afinal, chega a ser confortável imaginar que a fé garante imunidade —e que o vírus castiga apenas quem caiu em tentação e se aglomerou no bingo, nas festas clandestinas e outras celebrações mundanas.

O conto do vigário pode custar a sua vida.

Se falta coordenação política para transmitir a mesma mensagem, não se pode dizer que padres e pastores estejam mais engajados e unidos em uma mensagem uníssona de salvação.

Pois foi em um feriado de Páscoa, este que celebra a ressurreição, que o Brasil superou a marca de 331 mil mortes por Covid-19. A eles o Jair Messias escolhido pelos brasileiros para atravessar o deserto de compaixão, remorso e misericórdia diria apenas: e daí?

Em tempo. Sobre o último artigo, sobre como uma página no Twitter conseguiu transformar em linguagem visual uma resposta aos delírios bolsonaristas que nem a oposição, em dois anos de governo, foi capaz de botar em campo, o amigo Ricardo Adams fez a seguinte o observação:

“Dizer que um vídeo de dois minutos fez mais do que toda a oposição em três anos soa como desmerecedor do trabalho da oposição, que sofre com o boicote e invisibilização das suas pautas na grande mídia há anos, mas, mesmo assim, conseguiu aprovar, em 2020, medidas como o auxílio emergencial de 600 reais, a contragosto do governo, e a lei Aldir Blanc”. Fica aqui o registro.