Hipocrisia é entrave na discussão sobre aborto e violência sexual no Brasil

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Mulheres protestam pela descriminalização do aborto em frente à Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Foto: Fernando Frazão/Arquivo/Agência Brasil
Mulheres protestam pela descriminalização do aborto em frente à Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Foto: Fernando Frazão/Arquivo/Agência Brasil

A reação de militantes e fanáticos religiosos ao caso de uma criança sistematicamente estuprada pelo tio e que, grávida, precisou interromper uma gestação aos 10 anos de idade, agarrada a uma girafa de pelúcia durante o procedimento, no último fim de semana, destampou a hipocrisia que interdita as discussões sobre o aborto e a violência sexual no país.

Levantamento do portal G1 mostrou que, somente no primeiro semestre de 2020, o número de mulheres atendidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em razão de abortos malsucedidos, provocados ou espontâneos, foi 79 vezes maior do que o de interrupções de gravidez previstas pela lei, como em casos de estupro e risco à vida da gestante.

Segundo a reportagem, foram realizados 1.024 abortos legais no sistema público em todo o Brasil e 80.948 procedimentos de curetagens e aspirações, realizados em casos de aborto incompleto, e mais comuns quando a interrupção da gravidez é provocada.

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Isso significa que, enquanto fanáticos fazem pressão, chantagem e ameaças na frente das casas das famílias e hospitais onde ocorrem procedimentos legais, obrigando a vítima da violência sexual a acessar o lugar pelo porta-malas, boa parte das mulheres prefere a clandestinidade para interromper a gravidez. Dá para entender a razão.

Uma pesquisa de 2016 mostrou que quase metade das mulheres brasileiras (48%) precisou ser internada para finalizar o aborto malsucedido em clínicas clandestinas.

Isso não teria acontecido se uma questão séria como esta não fosse mediada pela hipocrisia.

Só que este é o país da hipocrisia, nas palavras do médico Olímpio Moraes Filho, que realizou o procedimento na criança de dez anos em um hospital de Recife.

Em uma entrevista à BandNews, ele lembrou que a classe alta procura o aborto com maior frequência do que as classe desfavorecidas. “O Brasil é o país da hipocrisia. A defesa da vida é uma falácia. Se consideram que o embrião tem vida, deveriam estar nas portas das clínicas de reprodução humana, que descartam milhares de embriões”, disparou.

De fato, nunca se viu manifestantes à la Damares Alves na frente destas clínicas. Nem deveria, é claro, mas a gritaria na frente de um hospital público mostra quem pode ou não sofrer a tortura psicológica da qual o médico falou ao fim da operação.

Em uma audiência no Senado, Moraes Filho afirmou que no Brasil o aborto não é crime para uma parcela da população que tem um aborto seguro nos hospitais. “Há sim os médicos que fazem aborto ilegal, coisa que eu nunca fiz. (Querem) Que continue assim, porque eles cobram R$ 2 mil a R$ 3 mil. O dia (em) que o SUS começar a fazer, eles vão perder sua fonte de renda”, disse, em uma audiência no Senado.

“Um dos médicos mais ricos de Pernambuco, com haras, e que, por sinal, é muito católico, faz aborto por R$ 3 mil, com aspiração em seu consultório. Todo mundo sabe, mas ninguém vai prender porque dependem (dele) as amantes dos deputados, dos senadores, e suas filhas, a população que tem dinheiro. Se atendesse pessoas pobres, estaria preso”, acusou.

O episódio revelou ainda uma triste realidade enfrentada no cerne das famílias brasileiras. Em 2018, o Anuário Brasileiro de Segurança Pública registrou 66 mil vítimas de estupro no Brasil, um recorde desde que o estudo começou a ser realizado, em 2007.

A maioria das vítimas (53,8%) foram meninas de até 13 anos. O perfil do agressor, segundo a pesquisadora do Fórum Cristina Neme, em entrevista à Agência Brasil, é o de uma pessoa “muito próxima da vítima, muitas vezes seu familiar”, como pai, avô e padrasto.

A reincidência do perfil, afirmou a especialista, indica que “tem algo estrutural nesse fenômeno” e exige campanhas de educação sexual, assistência e atendimento integral às vítimas e às famílias.

É exatamente o oposto do que fizeram os grupos anti-aborto e certas vertentes religiosas que preferiram apontam o dedo para a vítima e a sua família pelo único ato que não era hediondo em toda a história.

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