Em 70 anos, Israel vive da utopia socialista do kibutz à inovação capitalista

Maya Siminovich.

Jerusalém, 19 abr (EFE).- Israel completa 70 anos nesta quinta-feira, e sua transição da utopia socialista da era dos kibutz ao capitalismo, a ocupação militar dos territórios palestinos e seu pujante setor tecnológico não deixam indiferentes os que participaram do nascimento do país.

"Vou completar 74 anos, cresci no socialismo", declarou à Agência Efe o engenheiro agrônomo Salomon Yehshua, que considera que, à medida em que o país tem mudado, se sente cada vez menos identificado com ele.

O engenheiro foi testemunha da expansão dos kibutz, que surgiram pela primeira vez na Palestina otomana de 1909 com a comunidade agrícola de Dgania, às margens do mar da Galileia. Era a época na qual os judeus europeus, sem experiência agrária, chegavam para criar comunidades socialistas (kibutz), sionistas, no meio da malária, do cólera e de uma população árabe local hostil com as maciças ondas migratórias.

"O coletivismo era o modo mais lógico de se agrupar e viver em uma terra hostil", declarou Yossi Harpaz, professor de Sociologia Política Comparada na Universidade de Tel Aviv.

Em 1922 havia 700 pessoas vivendo nestes agrupamentos que aumentaram para 65.000 em 1950, após a Segunda Guerra Mundial e dois anos depois da criação do Estado de Israel, para em 1989 alcançar o número mais alto: 129.000.

Hoje restam 260 kibutz, mas eles já não são mais o símbolo de um país que desde seu surgimento passou por várias disputas, duas Intifadas palestinas e episódios armados no conflito árabe-israelense, que mudaram seu território e sua personalidade.

A primeira guerra, em 1948, explodiu após a declaração de independência israelense, quando quatro países árabes rejeitaram militarmente o Plano de Partilha do Protetorado Palestino da ONU de meses antes.

Jane Hiejieli chegou do Panamá após a Guerra dos Seis Dias, em 1967, uma disputa travada contra Egito, Síria e Jordânia e que transformou o país em ocupante dos territórios palestinos até hoje.

"Vim construir o país do kibutz Beit Hashitá, no norte de Israel", relatou.

Os fundadores soviéticos dos kibutz desejavam a ruptura das estruturas conservadoras como a família, razão pela qual pais e filhos viviam separados, uma disposição que alguns destes coletivos mantêm atualmente.

"Durante dez anos não vi uma só moeda; havia vales internos com os quais se repartia a roupa, o calçado e essas coisas, mas o dinheiro ia para a comunidade", explicou Hiejieli sobre as primeiras décadas do jovem Estado dominado pelo socialismo do partido Mapai.

"Um socialismo reprimido pelo nacionalismo", destacou Harpaz.

Hiejieli destacou que a transformação dessas comunidades era necessária, o que ocorreu com os processos de privatização dos anos 80, como evolução da mudança política e econômica que começou em meados da década de 1970.

Os motores destas mudanças foram a burguesia não socialista e os "mizrahim", os judeus que vinham dos países árabes e que se sentiam menosprezados pelos "asquenazes", judeus socialistas e ateus procedentes da Europa que não os consideravam suficientemente sionistas, descreveu Harpaz.

Em 1977, foi eleito pela primeira vez um governo de direita, com Menachem Begin como primeiro-ministro, marcando assim um ponto de inflexão na história do país. Foi quando o engenheiro agrônomo Yehoshaa se deu conta de que "jamais devolveriam os territórios ocupados e que isto seria um desastre".

Para muitos, o declive ético do país começou então, um sentimento refletido em uma música do cantor Arik Einstein sobre os primeiros israelenses: "Tinham um motivo para despertar pela manhã (...) Dizem que houve aqui um sonho maravilhoso, mas, quando olhei, não encontrei nada".

Enquanto isso, Israel se encaminhava para o que em anos posteriores começou a ser sinônimo de "start up nation" (nação de empresas emergentes), embora Yael Shani, fundadora da associação Embaixadores High-tech, acredite que a peculiaridade inovadora é caraterística da história israelense, não algo recente.

O último relatório da Autoridade de Inovação Israelense indica que surgem ao ano cerca de 600 empresas emergentes e que é o segundo país no mundo em índice de inovação, segundo o Fórum Econômico Mundial.

No entanto, também aponta que só uma elite se beneficia destes lucros.

"Eu diria que Israel não era tão socialista no começo como se acredita e que agora não é tão individualista como se diz", concluiu o professor Harpaz sobre uma "sociedade ainda utópica, mais que as sociedades europeias", que segundo ele mantêm "um forte senso coletivo e de filiação". EFE