Abrigos para refugiados recebem bibliotecas e cartas escritas por crianças brasileiras

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Livros e cartas escritas por crianças e adolescentes têm acolhido refugiados venezuelanos em Roraima. Em parceria com o Acnur (Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados), o jornal Joca, voltado para o público infantil, liderou uma campanha para montar 13 bibliotecas até o final de 2022 nos abrigos de Boa Vista.

“Pedi que os leitores do jornal coletassem obras em português e espanhol e que cada livro tivesse uma pequena nota, para que a criança abra e se sinta acolhida”, diz Stéphanie Habrich, que fundou o Joca com a missão de informar e instigar o pensamento crítico nos pequenos.

O projeto “Mi Casa, Tu Casa” arrecadou mais de 37 mil livros infantojuvenis e quase 5.000 cartas, que são endereçadas pelas crianças “a um futuro amigo”. E trazem conselhos de todo o tipo, como “no português tem palavras iguais que significam diferentes coisas”, e recomendações para provar açaí, brigadeiro e feijão.

A ideia das bibliotecas surgiu em 2019, quando a executiva leu, em jornal francês, que uma ONG fazia sessões de cinema em campos de refugiados na Jordânia.

“Fui pesquisar e descobri que não existe biblioteca em nenhum abrigo de refugiados no mundo.”

Segundo a ONU, 8.000 venezuelanos vivem nos abrigos em Roraima e 47% têm entre 0 e 17 anos. A leitura é uma maneira de aproximar a língua portuguesa e fortalecer o processo de interiorização pelo Brasil.

"Saber falar português aumenta em até 70% a chance de ser interiorizado", diz Arturo de Nieves, coordenador sênior de campo do Acnur. "A biblioteca é um grande passo nesse caminho, especialmente para crianças e adolescentes", completa.

Os livros foram catalogados em São Paulo. Em julho, ao final da campanha, a equipe retornou a Boa Vista para iniciar a montagem das bibliotecas, com o apoio da organização Hands On Human Rights.

“Montamos duas bibliotecas com apoio de marceneiros que estão no abrigo. Levamos artista plástica, bibliotecária e dois jovens que representaram os demais”, diz Habrich.

A inauguração contou com rodas de leitura e a formação de comitês de jovens refugiados para definir horários de funcionamento e critérios de empréstimo dos livros.

Até o final de agosto, uma vaquinha virtual arrecada doações para cobrir despesas com a logística de entrega dos livros. Cada unidade custa R$ 27 mil, levando em consideração custos com aquisição de matéria-prima, mão de obra, envio dos livros e edições do jornal Joca a partir de São Paulo e gestão local da biblioteca.

Para Edgard Raoul, conselheiro na Hands On Human Rights, o projeto “Mi Casa, Tu Casa” reforça o protagonismo que jovens podem ter na crise humanitária.

“Eles têm sensibilidade e força para questionar uma péssima realidade e, a partir do momento em que se conhecem e se entendem como seres humanos, qualquer diferença sobre nacionalidade, religião e cultura desaparece”, afirma.

“As pessoas vão fugir de guerra, de pressão econômica e do clima”, diz a fundadora do Joca, que pauta o tema no jornal distribuído em escolas públicas e particulares em todas as regiões do Brasil.

"Não estamos longe de ser a maior crise humanitária do mundo e as crianças sabem o que está acontecendo”, completa.

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