Abstenção é única ameaça à primeira eleição para 'patriotas' em Hong Kong

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O baixo comparecimento é a principal ameaça ao plano de Pequim para a primeira eleição do Conselho Legislativo de Hong Kong desde que a ditadura comunista interveio no território semiautônomo, no ano passado, e exigiu um pleito exclusivo para "patriotas".

Podem participar, segundo pesquisa citada pelo jornal honconguês South China Morning Post, menos de 40% dos 4,47 milhões de eleitores registrados na região. Se confirmado o índice, será o menor desde que as eleições abertas começaram, em 2000.

Naquele ano, ainda sob o impacto de regras de transição após a devolução da então colônia britânica à China em 1997, 43% votaram. Em média, contudo, o comparecimento fica acima dos 50% e bateu quase 60% no pleito de 2016.

Nele, nomes como Eddie Chu e Nathan Law, jovens de vinte e poucos anos egressos de movimentos pró-democracia que haviam ido às ruas, foram eleitos e injetaram um grau de diversidade inédito no vetusto conselho de então 70 membros.

Cinco anos depois, o cenário não poderia ser diferente. Confrontada com seis meses de caos nas ruas da antiga cidade-Estado, Pequim não arriscou ver o seu principal entreposto comercial sair de controle e inspirar outras regiões etnicamente diversas da maioria do país.

Baixou uma dura repressão. Em 2020, instituiu a Lei de Segurança Nacional, encerrando na prática o regime de grande autonomia consagrado na chamada Lei Básica, que estipulou a regra de "dois sistemas, um país" --estabelecendo Hong Kong uma ilha de capitalismo desregulado e bastante liberdade, com Judiciário e imprensa livres.

A polícia política chinesa abriu uma base na cidade, e a perseguição ao dissenso inclui ameaças a opositores que foram exilados. Jornalistas praticam autocensura e uma grande publicação pró-democracia, o Apple Daily, fechou sob pressão do governo, tendo seus editores presos.

Law deixou o país logo após a promulgação da nova lei e foi para o Reino Unido, onde está exilado --ele só tinha conseguido ficar 12 dias como deputado, sendo desqualificado por formalidades. Chu, após ser preso e enfrentar o risco de passar anos na cadeia no começo deste ano, desmontou seu grupo e aposentou-se da política.

Quando conversou com a reportagem sobre a crise em seu gabinete, em novembro de 2019, Chu era moderadamente otimista. Sempre lembrava que havia ao menos 40% de votos sempre garantidos para partidos pró-Pequim, e que a vitória esmagadora de políticos ligados aos protestos de rua no recente pleito local era ilusória.

Foi. Em setembro de 2020, a oposição toda renunciou no Legislativo. Neste ano, veio o golpe final, com a reformulação do sistema eleitoral, aproveitando o adiamento da eleição legislativa de setembro de 2020 devido à pandemia de Covid-19.

Apenas "patriotas", na definição vinda de Pequim, poderiam concorrer a eleições. O Conselho Legislativo, que tinha 35 membros eleitos diretamente, ou 50% do seu total, mudou: agora são 22% (20) eleitos, 30 indicados por 38 guildas diversas e 40, pelo poderoso Comitê Eleitoral. Ao todo, 90 nomes.

Esse comitê tem 1.448 membros e é visto como parte da instrumentação chinesa na política local. É de lá que sai o nome, a ser ratificado em Pequim, do executivo-chefe da região. Na eleição para 346 vagas abertas, em setembro, apenas 1 foi para um político visto com simpatias aos pró-democracia.

"Isso prova que a eleição é livre", disse recentemente ao SCMP Tam Yiu-chung, único honconguês na instância legislativa máxima chinesa, o Comitê Permanente. "É apenas um processo seletivo", replicou Law, no Twitter.

O atual presidente do Conselho Legislativo, Andrew Leung Kwan-yuen, afirmou ao jornal que não recebeu um "papel de dim sum", jargão que associa o embrulho das tradicionais trouxinhas de massa recheada cantonesas a listas de nomes prontas, e que a disputa é livre.

Pode ser, mas não haverá nenhum Eddie Chu nela, por motivos alegados de falta de patriotismo.

Sob a ótica geopolítica chinesa, a história é outra. Os movimentos pró-democracia queriam a eternização do sistema da Lei Básica, previsto para acabar em 2047, e muitos de seus elementos pediam a independência com apoio dos Estados Unidos.

Em 2019, o então presidente Donald Trump não perdeu tempo e, no espírito de sua Guerra Fria 2.0, deu suporte aos manifestantes. O Congresso americano promoveu sanções contra autoridades, enfurecendo os chineses --que viam uma interferência externa movida a interesse político.

De fato, é impensável que Washington aceitasse o apoio do Politburo a secessionistas na Califórnia, por exemplo.

A questão central de crítica para a China foi a dureza na repressão, que de resto foi aos poucos absorvida: não houve uma corrida desenfreada de empresas ocidentais baseadas no território, apesar de o seu mercado financeiro ter adquirido um perfil mais chinês.

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