Abusos de crianças durante a quarentena: saiba como denunciar

Giorgia Cavicchioli
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Disque 100 se você presenciar, souber ou for vítima. Foto: Pixabay
Disque 100 se você presenciar, souber ou for vítima. Foto: Pixabay

Por conta da quarentena que está acontecendo no País em decorrência do coronavírus, muitas crianças e adolescentes estão precisando conviver com seus abusadores. De acordo com dados do Disque 100, canal que recebe denúncias de violações de direitos humanos e tem foco na proteção de crianças e adolescentes em relação ao combate à violência sexual, no ano de 2018, foram registrados um total de 17.093 denúncias de abusos contra menores.

A maior parte deles aconteceram dentro de casa. Em mais de 70% dos registros, a violência foi cometida dentro da residência do abusador ou da vítima. Os números também mostram que mais de 70% dos casos de abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes são praticados por pais, mães, padrastos ou outros parentes das vítimas.

Pensando em orientar vítimas que podem estar precisando ficar confinadas com seus agressores durante o isolamento social, o Yahoo ouviu a gestora social Goretti Bussolo, fundadora e presidente de honra do Instituto Todas Marias, que acolhe e orienta vítimas de violência, e coordenadora de políticas para mulheres do campo, florestas e periferias do Paraná.

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Veja a entrevista completa:

A gente sabe que a maioria dos abusos sexuais contra crianças acontece dentro de casa e é cometido por parentes ou por amigos próximos. Nesse momento de pandemia, como proteger essas crianças?

A necessidade do isolamento social mostra que existe um problema mundial: o Covid-19. O abuso, a pedofilia, no entanto, não nasce com a mutação do vírus. A pandemia só evidencia que o perigo pode morar sob o mesmo teto.

Existe algum tipo de sinal que familiares devem prestar atenção para detectar algum tipo de abuso dentro de casa?

Os sinais, normalmente, são visíveis. A escola percebe e, mesmo em casa, existem mudanças de humor, sono excessivo, alterações no apetite, comportamentos sexuais inadequados para a idade, desenhos sexualizados, ou masturbação frequente. A criança também pode apresentar medo de pessoas ou de ir a certos lugares e ferimentos no corpo como a auto-mutilação podem indicar que criança ou adolescente é vítima de abuso. É preciso ficar atento a variações e sobretudo acreditar nelas.

Como as crianças conseguem se proteger disso? Existe alguma forma de elas notarem sinais também?

As crianças precisam ser orientadas de forma lúdica, leve, sem assustar a criança. Começar explicando os nomes de órgãos genitais com naturalidade. Falar desde os primeiros anos de vida sobre o que significa a autoproteção, a intimidade, de acordo com a idade. Deixar claro, por exemplo, que o corpo é dela e que não pode ser tocado sem consentimento por ninguém, nem papai, titio, vovó, professor ou outra pessoa. Homem ou mulher.

Como denunciar esse tipo de caso? Quem procurar? O que fazer se acontecer?

Disque 100, 180, 181. As ligações são gratuitas e você não precisa se identificar. Aconselho o disque 100 sempre que não puder chamar o Conselho Tutelar da sua região. A pessoa também pode ir direto na delegacia especializada ou na delegacia mais próxima, hospital de referência ou unidade de saúde. Os Conselhos Tutelares, as polícias e o judiciário seguem trabalhando, mesmo que em regime de plantão.

O Conselho Tutelar do seu bairro pode ser o canal mais rápido para proteger crianças e adolescentes contra todas as formas de violência, por isso, busque o número de telefone e entre em contato urgente. Também é importante contar para alguém e jamais silenciar. O abusador não para, vai continuar encontrando um ou uma vulnerável para se sentir poderoso.

Em 76% dos casos, o agressor é conhecido da vítima. Na maioria das vezes, são pais e padrastos. Precisamos alertar os cuidadores sobre esse risco, para que eles fiquem mais atentos às crianças, principalmente à noite e de madrugada, pois eles têm o hábito de ir até as vítimas enquanto todos estão dormindo.

Dá pra tentar evitar isso de acontecer? Como?

Difícil, pois o abusador é alguém de nossa confiança, que nunca esperamos que seja perigoso. Outro fator de risco, é o espaço físico, a dificuldade financeira, muito tempo junto, tudo é gerador de estresse. O confinamento forçado, como consequência do estado de alerta decretado pela Covid-19, dificulta a situação de quem sofre de condições inadequadas de moradia.

Se já há histórico de abusos, ameaças, sexo não consensual ou consumo excessivo de álcool, drogas, pode ser o estopim para o estupro ou abuso de vulnerável, bem como da violência contra mulher. Infelizmente, já é contabilizado no Brasil todo e em outros países, durante a pandemia, a violência intra familiar. Também existe a violência sexual infantil pela internet. A Deep Web, sites pornográficos como "passa tempo" durante o confinamento está caracterizado pelo aumento do número de usuários.

Vejam o perigo: a produtora de vídeos Brasileirinhas duplicou o número de assinaturas diárias, o site Sexy Hot aumentou em 25% os usuários fixos. Se trata de "diversão" adulta, para adultos? Teoricamente sim, mas quem está à mercê deste conteúdo são nossas crianças, confinadas com os adultos.

Crianças e adolescentes que já viviam na internet e agora estão legitimados pela "falta do que fazer". Elas têm livre acesso aos conteúdos gratuitos desses sites. Eu estou com um projeto de lei pronto para entregar ao senador Flávio Arns e à senadora Leila do Vôlei sobre esse tema. Pela rede mundial de computadores, eles estão extremamente vulneráveis às situações de exploração sexual.

O relatório da Inteligência Policial da União Europeia, publicado no último 3 de abril, comprova que as organizações criminosas estão se adequando aos tempos vigentes. Ficou óbvio que houve uma restrição no contrabando, mas, com o tráfico como produção e distribuição de pornografia infantil, a velocidade aumentou.

Você poderia dar um exemplo?

Na Espanha, entre 17 e 24 de março, houve um aumento de 25% no download de material pornográfico infantil, tendência que se verifica em outros países europeus. O confinamento originado pelo coronavírus tem potencializado e agravado algumas formas de violência e, sem dúvida, o abuso e a exploração sexual infantil são os mais perigosos de todos eles.

Como você orienta a população?

Durante o confinamento, ou não, lembre-se que xingar, humilhar e praticar castigos físicos, como bater, são formas de violência. Por isso, tenha em mãos os canais de denúncia para qualquer situação de violência contra crianças e adolescentes. Se você testemunhar, souber ou suspeitar de alguma violência contra criança ou adolescente Disque 100. Para violências contra mulheres e meninas,180, 181 e 190. Busque a Casa da Mulher Brasileira, as Delegacias da Mulher ou delegacias mais próximas, mas não silencie, o silêncio só beneficia o agressor.