Acadêmica enumera três tópicos para entender a luta antirracista no Brasil e nos Estados Unidos

Leda Antunes
A intelectual e criadora do Tinder dos Livros, Winnie Bueno

Desde a semana passada o debate sobre o racismo estrutural e a violência policial contra pessoas negras ganhou força nas ruas e nas redes sociais, após o assassinato de George Floyd, um homem negro morto por um policial branco em Minneapolis, nos Estados Unidos. A morte gerou dezenas de protestos massivos em diversas cidades americanas, chegou à Europa e, no último fim de semana, ao Brasil.

O movimento "Black Lives Matter" realiza protestos e mobiliza esforços para denunciar a violência policial contra a população negra norte-americana desde 2013, quando foi fundado. Aqui no Brasil, o movimento negro e antirracista se uniu à mobilização recente nos EUA e saiu às ruas em São Paulo e no Rio de Janeiro no último domingo para dizer: vidas negras importam.

Mas não é de hoje que essas denúncias são feitas. Ativistas e organizações brasileiras denunciam constantemente o racismo estrutural e a violência policial que vitimiza majoritariamente jovens negros há anos. Mesmo durante a pandemia, essa violência não dá trégua e tira a vida de jovens como João Pedro, 14 anos, que foi morto a tiros dentro da própria casa em São Gonçalo, durante uma operação policial. O caso gerou mobilização e chegou a ser denunciado à Organização das Nações Unidas.

Mesmo assim, muitas críticas foram direcionadas ao movimento negro brasileiro ao comparar a ação organizada nos EUA com o que tem sido feito por aqui. Para responder a esses questionamentos, a pesquisadora e ativista Winnie Bueno publicou em suas redes sociais três tópicos para ajudar a entender a luta antirracista nos Estados Unidos e no Brasil e "não fazer comparações sem sentido."

Bueno é bacharel e mestre em Direito, e doutoranda em Sociologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Ela também é autora do livro "Imagens de Controle: um Conceito do Pensamento de Patricia Hill Collins", em que se debruça sobre a obra de uma das mais importantes intelectuais negras da atualidade. Além disso, é criadora da Winnieteca, iniciativa que une doadores a pessoas negras que precisam de livros. Em conversa com CELINA, Bueno comentou os pontos que destacou em seu post e falou sobre a mobilização antirracista no Brasil e nos EUA.

1) Segregação racial tem contornos específicos em cada país

No primeiro ponto, a pesquisadora afirma que a segregação racial no Brasil e nos Estados Unidos tem o mesmo propósito, mas tem contornos específicos. Ela define o racismo como um “sistema de dominação de impacto global” que dá certo porque se articula no interior de um contexto específico “que dá significado distinto para violência racial em cada lugar.”

— O contexto social vai dar significado para as opressões de formas distintas, justamente porque elas se articulam numa matriz de dominação específica. Por isso que funciona — ressalta Bueno.

Entre as especificidades de cada país, um dos aspectos é que pessoas negras representam 56% da população brasileira, enquanto nos EUA são cerca de 13,4%, de acordo com dados do Census Bureau. Para Bueno, no entanto, mais importante que esta diferença está o fato de que, no país norte-americano, houve a constituição de uma classe média negra e, no Brasil, não. Segundo o informativo "Desigualdades Sociais por Cor ou Raça no Brasil", divulgado pelo IBGE em 2019, dos 13,5 milhões de brasileiros vivendo em situação de extrema pobreza, 75% são negros. Já nos Estados Unidos, 61% da população negra está na classe média.

— Então você vai ver acontecer nos Estados Unidos, por exemplo, um policial branco que vai tentar coibir uma pessoa negra ser surpreendido com o fato de que essa pessoa é um agente infiltrado do FBI. No Brasil isso não acontece. São outras dinâmicas e outras articulações — explica.

Ela ressalta ainda que há o processo histórico de segregação foi diferente nos dois países:

— O racismo nos Estados Unidos se manifestou, na sua prática segregatória, de forma mais visível do que no contexto brasileiro. Essas dinâmicas vão influenciar no impacto do racismo. Não no sentido de que os Estados Unidos são mais racistas do que o Brasil, mas no sentido da visualização de como se articulam essas violências — afirma.

2) Mesmo sem resistência armada, movimento brasileiro não é passivo

Winnie Bueno afirma que, embora a resistência dos movimentos negros no Brasil nunca tenha sido armada, “isso não significa que esses sujeitos tenham estado na passividade.” Ela explica que o movimento brasileiro lutou para que se articulasse uma “identidade política negra”, para “desvelar a falácia da democracia racial” e pelos direitos políticos da população negra.

— No Brasil, a gente viveu durante muito tempo um processo de apagamento das identidades raciais e de silenciamento das reivindicações antirracistas que só foi revertido por uma ação muito potente do movimento negro. Foi o movimento social negro que desarticulou a falácia da democracia racial no Brasil. E isso ainda é recente.

3) Estabelecer equivalências sem sentido não serve à luta antirracista

Bueno crítica a insistência em estabelecer equivalências entre a luta racial nos EUA e no Brasil, explicando que tal retórica é utilizada por pessoas brancas para dizer que pessoas negras são “apáticas e, por isso, cúmplices” da violência que sofrem.

“É como se a gente fosse responsável pela morte de cada jovem negro no Brasil e não fosse justamente a lógica de manutenção desses mesmos brancos no poder que sustentasse a dinâmica do genocídio da população negra”, escreveu a pesquisadora em sua publicação. Ela relembra que dois jovens negros foram assassinados durante a pandemia, mas considera que as pessoas brancas que acusam o movimento de passividade não se manifestaram sobre os casos que ocorrem no Brasil.

A doutoranda em sociologia afirma ainda que pessoas negras estão morrendo de maneira mais rápida e precária em função da Covid-19. “Os mesmos brancos que falam que deveríamos ser mais agressivos, não dispensaram (mantendo os salários) os trabalhadores domésticos que lhes prestam serviços”, escreveu Bueno, ressaltando que essa categoria é majoritariamente composta por mulheres negras.

— Muita gente reproduz a ideia de que o racismo no Brasil é um falso racismo. Por isso, inclusive, que vemos uma mobilização e uma repercussão muito maior do debate antirracista quando a violência racial se expressa de maneira mais profunda no contexto estadunidense — avalia.

Bueno considera que a recente adesão às manifestações nas redes sociais não significa uma mobilização real das pessoas na causa antirracista, mas uma aparente disposição de falar sobre o assunto, porque ele tem tido uma repercussão midiática importante no momento:

— As pessoas não estão se mobilizando mais, as pessoas estão enunciando uma disposição antirracista nas redes sociais. Mobilização é outra coisa. Mobilização a gente vai ver quando as pessoas brancas se colocarem à disposição de, num ato antirracista, estarem nas primeiras colunas para apanhar primeiro.