Acampamento esvaziado de bolsonaristas em SP tem até negação da posse de Lula

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "QG, QG, QG. Ninguém sai daqui", gritavam bolsonaristas que pediam intervenção militar em frente ao Comando Militar do Sudeste do Exército, na região do Ibirapuera (zona sul de SP), na tarde deste domingo (1º).

Os gritos eram um apelo para que os acampados não fossem embora do local, no mesmo momento em que, em Brasília, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tomava posse como presidente da República.

Os manifestantes que chegaram a lotar vários quarteirões agora se resumiam a um pequeno grupo repetindo "SOS Forças Armadas" por horas a fio, em frente ao portão da unidade militar.

Jair Bolsonaro (PL), que viajou aos Estados Unidos, é citado apenas lateralmente no protesto, cujo foco principal são mesmo os militares. Após a viagem de Bolsonaro na sexta-feira (30), parte dos bolsonaristas se sentiu abandonado pelo agora ex-presidente.

Um homem que carregava uma placa com a frase "eu creio" era alvo constante de pedidos de selfies. O mantra também era repetido com frequência nas conversas.

Nas rodinhas que se formaram em frente ao quartel, alguns pareciam em negação. Houve até quem defendesse que a posse de Lula era, na verdade, uma encenação promovida pela mídia.

Ali, o único veículo jornalístico pelo qual os golpistas que demonstram apreço era a Fox News, a quem clamam, com uma faixa escrita em português e inglês, que venha para o Brasil -o veículo é o queridinho da extrema-direita norte-americana e foi simpático à gestão de Donald Trump.

O principal alvo dos ataques foi o presidente Lula. Na tarde deste domingo, um homem chegou a entoar, em um megafone, a música "Lula, ladrão, seu lugar é no caixão".

Outros manifestantes, porém, correram logo para vetar a música, e a palavra caixão foi logo corrigida para prisão. Também houve aqueles que defendessem que Lula está morto, informação falsa que circula com frequência pelas redes bolsonaristas.

O clima abastecido por informações falsas faz com que o grupo desconfie de tudo, da água que bebe até à ação de supostos infiltrados.

Mais cedo, os golpistas fizeram festa para o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), afilhado político de Bolsonaro que tomou posse na Assembleia Legislativa de São Paulo, ao lado da unidade militar.

"Tarcísio, cadê você? Eu vim aqui só pra te ver", cantavam. O governador, porém, passou longe do grupo.

Apesar do protesto esvaziado, a reportagem contou no local por volta de 50 barracas de diferentes tamanhos --desde tendas às improvisadas com sacos de lixo. Do lado de fora, as moradias ostentam placas com o tempo de "resistência" no local, com algumas delas há mais de dois meses ali.

Em algumas barracas, havia distribuição de água, suco e lanches. Com uma população vivendo no local há tanto tempo, há cheiro de urina em vários pontos.

Entre o público fixo do local, há grande presença de idosos. Alguns deles, mesmo com dificuldades de locomoção, usando andadores e bengalas, costumam passar as tardes ali e até dormir no local.

BRASÍLIA Em Brasília, parte dos bolsonaristas acampados em frente ao quartel-general do Exército começou a se desmobilizar neste domingo.

Cinco ônibus estacionaram nos arredores do acampamento ao longo da manhã para levar embora manifestantes que estão há semanas no local. À tarde, outros dez ônibus cheios partiram do lugar. No início da tarde, havia cerca de 200 pessoas no local.

A escalada da violência nos atos antidemocráticos liderados por bolsonaristas fez desmoronar o discurso público do então presidente Bolsonaro e de seus aliados, que destacavam as manifestações como ordeiras e pacíficas e buscavam associar protestos violentos a grupos de esquerda.

Com casos de violência que incluem agressões, sabotagem, saques, sequestro e tentativa de homicídio, as manifestações atingiram seu ponto crítico e acenderam o alerta das autoridades, que realizaram prisões e investigam até possível crime de terrorismo.

Os responsáveis poderão ser punidos na Justiça com base na Lei Antiterrorismo, legislação que os próprios bolsonaristas tentaram endurecer visando punir manifestantes de esquerda.