Acampamento golpista no Comando da Amazônia é desmontado sem apoio efetivo do Exército

MANAUS, AM (FOLHAPRESS) - O acampamento golpista instalado na área do CMA (Comando Militar da Amazônia), em Manaus, contou com a leniência e a aceitação dos comandantes da unidade do início ao fim.

Depois de 70 dias de funcionamento ininterrupto, com ocupação das calçadas, muros, entrada principal e via de acesso ao comando, o acampamento foi desmontado por forças de segurança do governo do Amazonas e da prefeitura de Manaus.

A reportagem esteve no local no começo da tarde desta segunda-feira (9) e constatou que não havia forças do Exército atuando no desmonte do acampamento golpista, mesmo com a animosidade e resistência por parte dos manifestantes.

A ausência se deu desde o início da desocupação, no começo da manhã, segundo integrantes da SSP (Secretaria de Segurança Pública) do Amazonas.

O CMA não respondeu aos questionamentos da reportagem.

Atuavam na operação de retirada das barracas montadas agentes da Polícia Militar, da Polícia Civil, e do Detran, do governo estadual; e da Guarda Municipal e do serviço de limpeza urbana, do Município.

O secretário de Segurança Pública do Amazonas, general Carlos Alberto Mansur, acompanhou a operação de retirada dos golpistas a favor de intervenção militar, apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Quando a reportagem esteve no local, não havia uso de força pelos policiais para retirada dos golpistas, nem prisões.

Os policiais tentavam manter diálogo com os manifestantes, que gritavam contra os agentes de segurança e tentavam impor a forma como o acampamento seria desmobilizado.

Até às 14h, já haviam sido retirados os banheiros químicos, barracas e o material que garantia o funcionamento de uma cozinha industrial rente ao muro principal do CMA, onde está o letreiro "Comando Militar da Amazônia".

Depois de 70 dias, foi possível voltar a enxergar o nome do comando no muro da entrada principal. O letreiro estava tomado por lonas, fogões industriais e prateleiras improvisadas com mantimentos.

Manifestantes golpistas ainda insistiam em permanecer no local. Outros levavam pertences para carros estacionados nas imediações, em meio a forte chuva.

O clima é de tensão com quem filma ou acompanha o desmonte do acampamento golpista.

O dono do reservatório de água que garantia o funcionamento da cozinha industrial, por exemplo, tentava impedir o registro de imagens do transporte do equipamento para um veículo.

A ação de desmobilização do acampamento golpista atende a uma determinação do ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal). Após o ataque golpista às sedes dos três poderes em Brasília, o ministro determinou o fim dos acampamentos na frente de quartéis em todo o país.

O desmonte do acampamento golpista no CMA só ocorreu em razão da decisão do STF. Por 70 dias, a presença dos manifestantes na área do Exército foi permitida por todas as forças de segurança.

"Agora a missão aqui na frente do Comando Militar da Amazônia passa a ser de responsabilidade do Exército. Estamos apoiando a colocação de grades aqui, mas é o pessoal do Exército que vai agora monitorar se [os golpistas] vão retornar ou não", disse o secretário de Segurança Pública do Amazonas.

As Forças Armadas e o Ministério da Defesa —inclusive na gestão de Lula (PT)— toleraram os acampamentos e chegaram a manifestar apoio a esses acampamentos, com o discurso de que se tratavam de manifestações democráticas.

Os ataques aos três poderes em Brasília tiveram como um dos pontos de partida o QG (Quartel-General) do Exército na capital, principal acampamento golpista no país até esta segunda-feira.

No CMA, ao qual estão vinculados 20 mil militares, uma ampla cozinha foi improvisada na calçada. Um reservatório de água garantia o cozimento de alimentos. Um cano levava a água suja para a rua. Sacos com lixo eram empilhados todos os dias, o que provocava mau cheiro.

Mais fétidos ainda eram dez banheiros químicos rentes à mureta da unidade militar, numa avenida movimentada em Manaus.

O acampamento tinha mais de 50 barracas, 20 carros estacionados na calçada, cones bloqueando uma faixa da avenida e a presença de manifestantes golpistas —com cadeiras de praia dispostas na frente da entrada principal— interditando o fluxo. Eles passavam os dias entoando hinos militares e louvores.