Como ação do FBI impacta futuro político de Donald Trump nos EUA?

Supporters of former U.S. President Donald Trump and Palm Beach police officers stand outside his Mar-a-Lago home after Trump said that FBI agents raided it, in Palm Beach, Florida, U.S., August 8, 2022. REUTERS/Marco Bello
Apoiadores manifestam repúdio contra ação do FBI em frente à casa de Donald Trump na Flórida. Foto: Marco Bello/Reuters

Oficiais do Departamento de Justiça dos EUA cumpriram nesta segunda-feira (8/9) um mandado de busca e apreensão na casa do ex-presidente Donald Trump em Mar-a-Lago, na Flórida.

A ação faz parte de uma investigação para apurar se o líder republicano retirou ilegalmente documentos da Casa Branca e os manteve em sua residência. Trump virou alvo dos agentes em um momento em que a Justiça de seu país começa a levar para a cadeia os primeiros condenados pela invasão do Capitólio, em janeiro de 2021. Trump é acusado de estimular seus seguidores a invadir o Congresso americano e impedir, na porrada, a confirmação da vitória de seu rival Joe Biden nas últimas eleições presidenciais.

Trump foi derrotado na ocasião, mas de lá para cá juntou os trapos em torno do discurso de que as eleições foram fraudadas e se posicionou como favorito a voltar ao cargo de presidente em 2024. Antes disso os EUA vão às urnas para as eleições de meio de mandato, quando novos parlamentares serão escolhidos.

A previsão é que o Partido Republicano, hoje fechado com o líder populista, deve ganhar de lavada e formar uma ampla oposição ao atual presidente.

A ação do FBI pode mudar essa tendência.

Não é todo dia, afinal, que a polícia federal americana bate às portas de um ex-presidente e forte candidato à sucessão. A suspeita de que surrupiou documentos para se safar de possíveis enroscos com a Justiça é um tiro em seu retorno triunfal –se não no peito, em uma área sensível do corpo republicano que pode inviabilizar os passos daqui em diante.

Trump não demorou a se pronunciar. Em nota, ele disse que os agentes chegaram a arrombar seu cofre e questionou qual era a diferença entre a operação e o escândalo de Watergate, quando servidores invadiram o Comitê Nacional Democrata em 1972 para buscar documentos comprometedores a mando de rivais. O escândalo derrubou o presidente republicano Richard Nixon.

O ex-presidente disse que ele é vítima agora de uma ação desnecessária a mando de democratas. Mas as diferenças questionadas por ele são óbvias: uns agiram às sombras, outros com um mandado oficial.

Trump comete uma espécie de ato falho ao trazer Richard Nixon à baila. É ele, afinal, quem é acusado de roubar documentos. O que o FBI quer saber é justamente se Trump está por trás de um escândalo similar.

A operação acontece duas semanas após a Justiça condenar o ideólogo da extrema direita americana Steve Bannon por desacato. Ele havia se negado a depor e fornecer documentos a uma CPI da Câmara dos EUA que apura as circunstâncias da invasão do Capitólio. A pena pode chegar a até um ano de prisão, além de multa de US$ 100 mil.

É como se a Justiça norte-americana tivesse riscado o chão com giz para mostrar limites inegociáveis e, claro, evitar novos tumultos do tipo.

Falta combinar com Donald Trump, que se apoia em uma espécie de imunidade concedida a ex-presidentes para alimentar velhos e novos riscos às instituições americanas.

Um acordo tácito entre os dois partidos americanos, em tempos normais, é que com ex-presidentes não se mexe. Historicamente tem sido assim. Esse acordo, que garantiu uma certa estabilidade do jogo sucessório ao longo dos anos, está em xeque por razões óbvias: esses não são tempos normais. Se fossem, Trump não seria essa ameaça ambulante que parte do país já identificou.

Alvo, agora, do FBI, Trump corre o sério risco de ser tirado do jogo em 2024.

Isso pode mudar toda a arquitetura de um movimento da direita populista global que tem (ou tinha) nos EUA o seu epicentro. Se Trump for neutralizado, é possível que esse movimento perca força e deixe de promover tsunamis em países hoje alinhados com seus ideários, como o Brasil da família Bolsonaro.

Ou pode ser que, sem a joia da Coroa, o eixo central desse movimento se desloque para os países onde podem ainda avançar e manter a influência. Isso coloca o Brasil como posto estratégico de quem tem os caminhos bloqueados pelas autoridades em alerta de seu país de origem.