Ação policial na Vila Cruzeiro deixa rastro de sangue e perguntas sem resposta

People react as they wait to know about their relatives at the Getulio Vargas Hospital, after more than eleven people were killed during a police operation against drug dealers in the Vila Cruzeiro slum, in Rio de Janeiro, Brazil May 24, 2022. REUTERS/Pilar Olivares
Moradores da Vila Cruzeiro aguardam notícias sobre seus familiares internados no hospital Getúlio Vargas apó ação policial que deixou ao menos 22 mortos no Rio. Foto: Pilar Olivares/Reuters

Pesquisa Ipec (antigo Ibope) divulgada na segunda-feira (23/5) mostrou o governador Cláudio Castro (PL) e o deputado Marcelo Freixo (PSB) empatados tecnicamente na corrida pela sucessão no Rio. Castro, que tem o apoio da família Bolsonaro no estado, aparece com 18% das intenções de voto e Freixo, com 17%.

Menos de 24 horas depois, ainda durante a madrugada, uma ação conjunta da Polícia Militar do Rio e da Polícia Rodoviária Federal resultou em 22 mortes na Vila Cruzeiro, na zona norte da capital.

Ao fim do tiroteio, Castro correu às redes dizer que até defende um Rio de paz, mas que é preciso estar “preparados para o confronto”.

A operação foi a segunda mais letal já registrada no estado. A maior delas, com saldo de 28 mortos, no Jacarezinho, ocorreu em maio do ano passado. Um memorial em homenagem às vítimas foi destruído pela polícia no local sob o argumento (e os aplausos do governador) de que fazia apologia ao crime.

O confronto dessa vez, segundo a versão oficial, começou quando os agentes entraram na comunidade para prender chefes de uma facção criminosa abrigados ali e que supostamente planejavam migrar para a Rocinha, nos arredores da área nobre da cidade, a zona sul.

Durante o tiroteio, 30 escolas tiveram as aulas suspensas e duas Clínicas da Família que operam na região precisaram fechar as portas.

Uma bala “perdida” alvejou uma manicure de 41 anos em frente de casa. Seu crime? Nascer no CEP errado.

Em 2010, a mesma região foi palco de uma perseguição policial realizada com o intuito de conter o tráfico e pacificar a área. Imagens de traficantes correndo pela mata foram mostradas ao vivo na TV e divulgadas mundo afora.

Doze anos depois, o governador responsável pela ação está preso por corrupção e segurança ainda é utopia quando se fala em áreas periféricas.

A nova operação, que poderia ser batizada como enxuga-gelo, deixou naquele velho palco um rastro de sangue e de perguntas.

Uma delas é como foram parar ali os 13 fuzis recolhidos após o morticínio – e qual o saldo de uma ação para além da matemática bruta que deixa quase 2 mortos para cada arma de cano longo apreendida.

O arsenal representa cerca de 10% dos 117 rifles encontrados em março de 2019 na casa de um morador do Méier preso (e já solto) suspeito de ligações com o amigo de infância e ex-PM Ronise Lessa, suspeito de matar a vereadora Marielle Franco e outros crimes.

A sorte dos vizinhos é que o suspeito não morava na favela. Ali ninguém precisou ficar trancado em casa, com medo de ir à escola. Não houve disparos, assim como não houve tiroteio no momento em que agentes apreenderam 60 fuzis de guerra no terminal de cargas do aeroporto do Galeão.

Os dois episódios foram lembrados por Marcelo Freixo em suas redes.

Freixo, que presidiu a CPI das Milícias e do Tráfico de Armas na Assembleia Legislativa do Rio, defendeu na sequência de postagens a necessidade de “acabar com o uso político da polícia”. “É hora de tratar a Segurança Pública como coisa séria, não como arma eleitoral”.

Castro certamente acompanhou os festejos de parte dos eleitores que, no embalo do padrinho Jair Bolsonaro, correram às redes para celebrar o cancelamento de CPFs na ação. Nesse mesmo embalo, muitos parecem mesmo acreditar no discurso do secretário da PM do Rio, segundo o qual os criminosos migraram para lá em busca de esconderijo após uma ordem do Supremo Tribunal Federal restringir ações policiais durante a pandemia. Sim, porque antes as áreas não estavam dominadas pelo tráfico ou pelas milícias, certo? Foi só depois da pandemia.

No rastro da operação, resta saber se alguém ainda tem esperança de que o tráfico e foi de fato neutralizado no local devido às mortes? Não é o mesmo o que diziam em 2010?

Como escreveu o economista Eduardo Moreira em seu Twitter, foi-se o tempo em que político mandava asfaltar rua em época de eleição para ganhar o voto da classe média. “Hoje manda matar gente”.

Como ele mesmo resumiu, o nome disso é “chacina eleitoral”.

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