A acertada antecipação da vacina contra gripe

Editorial

O Ministério da Saúde acerta ao antecipar, para o dia 23 de março, o início da vacinação contra a gripe, que estava prevista para começar apenas em abril. Na verdade, a estratégia está relacionada ao combate à Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus (Sars-CoV-2) surgido na China e que se espalha rapidamente pelo mundo inteiro, transformando-se em emergência internacional. Evidentemente, a vacina não protege contra a Covid 19, mas pode facilitar o trabalho dos profissionais de saúde, tanto do ponto de vista do diagnóstico de pacientes que chegam às unidades com suspeita de terem contraído o coronavírus — à medida que podem descartar etapas na investigação —, quanto do ponto de vista logístico, já que em tese um número menor de pessoas procuraria os hospitais com sintomas de gripe.

As redes pública e privada costumam ficar lotadas no outono e no inverno com pacientes debilitados por doenças respiratórias. Portanto, a antecipação da vacinação contra a gripe poderia desafogar as unidades, deixando-as focadas no atendimento às pessoas com sintomas da Covid-19, doença nova, complexa, e sobre a qual pouco se sabe. O Ministério da Saúde encomendou ao Instituto Butantan 75 milhões de doses da vacina contra influenza.

O plano parece auspicioso, mas, para dar certo, será preciso que a equipe do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, demonstre a mesma agilidade vista nestas primeiras semanas de enfrentamento do coronavírus, em que informação, transparência, coordenação e respeito à Ciência chamam a atenção, contrastando com outros setores do governo Bolsonaro em que ideologias se sobrepõem à Ciência.

Não bastará disponibilizar as doses de vacina nos postos de saúde, pois a realidade tem comprovado que apenas isso não é suficiente, simplesmente porque as pessoas não comparecem. Os índices de vacinação contra a gripe e outras doenças têm ficado abaixo da meta nos últimos anos. O fenômeno ocorre também em outros países, e um dos motivos seria a disseminação de fake news e campanhas antivacina. Daí a importância de informações precisas, para combater a epidemia de mentiras, e de boas estratégias para elevar os índices de vacinação.

Deve-se aproveitar o momento de mobilização, tanto de autoridades de saúde — que vêm trabalhando de forma coordenada, o que é raro no país — e da população, para zerar esse passivo do atraso. Não é concebível que no ano passado o Brasil tenha registrado 796 mortes por H1N1 se existe vacina disponível contra a doença. Da mesma forma, é inadmissível que o sarampo — cujo grau de contágio é maior do que o do coronavírus — avance, enquanto doses da vacina permanecem estocadas nos postos, com risco de perder a validade. No momento em que o mundo vive a ameaça de uma pandemia, o Brasil precisa amadurecer.