Acesso à conexão do Wi-Fi Brasil exige que usuário veja propaganda governista

·3 minuto de leitura
Foto: Ministério das Comunicações
Foto: Ministério das Comunicações
  • Principais beneficiados do programa são escolas

  • Maiores investimentos foram feitos no Norte e Nordeste, onde popularidade de Bolsonaro é menor

  • Conectividade trouxe junto acesso às fake news

O governo federal está implementando o programa Conecta Brasil, por meio do projeto Wi-Fi Brasil, que dá acesso à internet banda larga a ao menos 26 milhões de brasileiros e leva conectividade a diversas escolas. O acesso, no entanto, veio com um detalhe: para usar a internet, os beneficiários precisam assistir uma peça publicitária de 30 segundos do governo Bolsonaro. Isso, claro, todas as vezes que acessam.

Isso quer dizer que se uma pessoa acessar a internet dez vezes em um dia, ela verá a mesma propaganda dez vezes. Se a internet cai ou o usuário se desconecta por algum motivo, é preciso assistir de novo.

Segundo o Ministério das Comunicações, o custo do Conecta Brasil será de R$ 2,7 bilhões, dos quais R$ 2,46 milhões serão alocados no Norte e Nordeste, regiões onde a falta de internet é mais grave - além de ser o principal reduto eleitoral do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o maior inimigo de Jair Bolsonaro (sem partido) nas urnas.

O único aplicativo que escapa da propaganda governista é o WhatsApp, coincidentemente o espaço onde mais atuam grupos bolsonaristas e agências de fake news. No município de Santa Filomena, no interior do Piauí, onde zonas rurais passaram a ter acesso à internet por meio do Wi-Fi Brasil, a principal fonte de informação dos moradores se tornou o WhatsApp, afirma o vereador Adilson Lopes (Progressistas), ao jornal Estadão.

O Nordeste, o segundo maior colégio eleitoral do país com mais de 26% dos eleitores (39,2 milhões de pessoas), recebe agora maior conectividade ao mesmo tempo que Bolsonaro organiza uma campanha eleitoral nos mesmos moldes de 2018. Ao fim da instalação do projeto Nordeste Conectado, cerca de 16 milhões de pessoas serão beneficiadas.

Leia também:

Segundo o Ministério das Comunicações, o Nordeste recebeu R$ 44,8 milhões em investimentos por meio do Cidades Digitais. “Desse total, R$ 16,4 milhões no atual governo”, afirmou a pasta ao Estadão. De acordo com o ministério, “a veiculação de vídeos institucionais está prevista no projeto básico da implantação de pontos de acesso gratuito à internet em localidades públicas, pelo programa Wi-Fi Brasil” e é instrumento importante “de divulgação de mensagens de utilidade pública”.

Escolas do Norte do país também passaram a ter acesso à internet - após assistir a propaganda do governo. O Norte Conectado, ligado ao Conecta Brasil, terá pelo menos duas das nove infovias de fibra ótica concluídas em 2022, ano eleitoral. As sete restantes devem ser entregues até 2025.

“O investimento total para o Norte Conectado é de cerca de R$ 1,8 bilhão, dos quais R$ 248 milhões já foram repassados. O restante está condicionado à realização do leilão do 5G”, disse o Ministério das Comunicações.

O investimento alto do projeto se dá pela dificuldade de instalação da infraestrutura nos territórios cortados por rios. Para conseguir instalar as infovias, são necessários estudos hidrográficos e licenciamento ambiental. Uma parte dos 12 mil km de cabos terá de passar por baixo de áreas fluviais extensas até chegar às comunidades.

O governo ainda não sabe o número total de pessoas que serão beneficiadas na região, pois ainda depende do leilão do 5G. Segundo o Ministério das Comunicações, já há 475 pontos de internet do governo federal em áreas demarcadas e mais 95 devem ser instalados até 2022.

Propaganda contra os direitos da comunidades indígenas

Quase todos os dias moradores da região do Rio Negro recebem em seus celulares informações contra às organizações de defesa das comunidades indígenas, onde vivem 23 etnias indígenas. Junto com o acesso à internet, por meio do Wi-Fi Brasil, aquelas populações receberam uma enxurrada de fake news.

Marivelton Baré, presidente da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN), afirma que é frequente o encaminhamento de mensagens com conteúdo falso sobre ONGs que atuam no local.

“Temos orientado o pessoal com esse negócio de fake news, muito comum, principalmente no momento atual. Como aqui é uma região de fronteira, também tem o Exército falando em soberania nacional (para atacar entidades do terceiro setor)”, contou Baré ao Estadão.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos