"Acham que podem tirar a vida das pessoas como se fosse um inseto", diz irmã de trans morta

Lorena estudava e tinha sonho de ser médica. Foto: Arquivo Pessoal

“Que País é esse que a gente vive? Alguma coisa tem que ser feita. As pessoas acham que podem chegar lá e tirar a vida das pessoas como se fosse um inseto. As pessoas não se colocam no lugar da família. A gente já não tinha mãe. Sempre foi difícil”. Esse é o desabafo feito pela irmã* da jovem transexual Lorena Vicente, de 23 anos, que foi morta após ser espancada no Jardim São Luís, zona sul de São Paulo.

Lorena foi espancada na última segunda-feira (14). Na ocasião, ela estava em uma praça com o namorado dela e duas irmãs gêmeas estavam no mesmo local fazendo uso de lança-perfume. Em entrevista ao Yahoo, a irmã da vítima afirma que elas não estavam juntas.

Porém, uma das gêmeas teria passado mal e a ambulância teria sido chamada. Como não tinha nenhuma outra pessoa maior de idade para acompanhar a jovem, o namorado de Lorena teria se oferecido para acompanhar a adolescente até o hospital.

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“A Lorena ficou lá [na praça] com a outra irmã esperando o namorado voltar”, disse a irmã. Durante a espera, o tio das jovens soube do que tinha acontecido e foi até o local onde as duas estavam esperando. “Ele chegou falando que quem estivesse junto ia apanhar. Ele simplesmente chegou batendo”, afirmou a parente de Lorena dizendo que ela já caiu desacordada no chão.

Depois disso, o socorro chegou e ela foi levada desmaiada ao hospital. Segundo a irmã, Lorena teve uma parada cardíaca de 30 minutos no hospital e foi entubada. No dia seguinte, ela teve mais quatro paradas cardíacas e não aguentou. “[Ela] faleceu às 13h30 da tarde da terça-feira (15)”, afirmou a irmã.

“Todas as pessoas que viram [o crime acontecer] falaram que esse cara chegou batendo, que não perguntou nada”, relatou a familiar. “Disseram que [o suspeito] é lutador e treina para bater nos outros”, disse.

O enterro de Lorena foi feito nesta quinta-feira (17). Ela também recebeu uma homenagem da Escola Estadual Reverendo Jacques nesta quarta-feira (16), onde ela estava prestes a concluir o ensino médio por meio do EJA (Ensino Para Jovens Adultos. Ela sonhava em ser médica.

O crime que vitimou Lorena foi mais um baque para a família. “No dia 8 de novembro vai fazer dois anos que meu irmão faleceu defendendo a Lorena. Ele morreu na mesma forma: espancado. E agora de novo isso? Imagina como a gente não está? É muita tragédia em pouco tempo. O assassino do meu outro irmão está solto na rua”, disse.

Segundo a SSP (Secretaria da Segurança Pública), o caso foi registrado no 37º DP (Distrito Policial). De acordo com a irmã da vítima, o caso precisa ser noticiado “não só pela Lorena, mas sim por todas trans que sofrem preconceito”. “Isso precisa parar”, afirmou.

* O nome da parente de Lorena será preservado por questões de segurança.