ACM Neto e Pelegrino não representam mais o embate entre carlismo e petismo, diz professor

ACM Neto (DEM) concorre à Prefeitura de Salvador apoiando-se na herança de seu avô, Antônio Carlos Magalhães. (Foto: …As eleições para a Prefeitura de Salvador deste ano são palco de um novo embate entre carlismo e petismo depois de mais de dez anos – desde a eleição municipal de 2000 -, entretanto, somente no campo simbólico. Para o professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA) Paulo Fábio Dantas Neto, pesquisador da influência do carlismo na política baiana, o carlismo e o petismo que moram na consciência do eleitorado baiano, e também do brasileiro, morreram. Para ele, o confronto entre as candidaturas de ACM Neto (DEM) e Nelson Pelegrino (PT), polarizado agora no segundo turno após um início de campanha bastante conflituoso, representa o antagonismo dos dois esquemas que dominam a política nacional atualmente – a saber, a situação e a oposição no plano federal . No entanto, apesar das origens, esse antagonismo não significa que os candidatos sejam membros dos antigos grupos.

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Desde a morte de Antônio Carlos Magalhães, em 2007, o carlismo, que já ia mal das pernas localmente e nacionalmente, deixou de existir. Dantas conta que nesse interim os carlistas se separaram - muitos, inclusive, se aliando ao PT, como o ex-governador César Borges, antigo aliado de ACM e hoje diretor do Banco do Brasil. Já o petismo, explica o professor da UFBA, morreu com a eleição de Lula à presidência da República em 2002. “O último embate que tivemos entre petismo e carlismo foi na eleição municipal de 2000, quando o próprio Pelegrino perdeu para o aliado de ACM, o ex-prefeito Antonio Imbassahy, do PSDB”, afirma Dantas. O ex-prefeito tucano, por sinal, é um dos principais fiadores da campanha de ACM Neto.

O carlismo era formado por um grupo de políticos baianos, que girava em torno do carisma de ACM, representantes dos interesses da elite política e econômica baiana. Os carlistas, na Bahia, era vistos, simbolicamente, como os arautos da modernidade, representantes do desenvolvimentismo nacional no Estado. Nacionalmente, o carlismo ficou marcado pelo seu viés regionalista de pensar a política brasileira. O petismo baiano tomou corpo nos anos 1990 como um antagonista direto ao grupo dominante, apresentando uma plataforma reformista, baseado em uma ideologia socialista. Quando Dantas diz que o petismo “morreu”, se refere ao modo de pensar política que o partido tinha antes de assumir o poder federal e abraçar o modo tradicional de fazer política no Brasil, anunciado por Lula na “Carta aos brasileiros” de 2003.

Segundo o professor, Pelegrino representa hoje muito mais aquele carlismo do que o antigo petismo. “O petismo portador de uma polarização política, voltado para uma ideia reformista, de contestação ao carlismo, é um partido que hoje não existe mais”, afirma Dantas. “O discurso central de Pelegrino é idêntico ao discurso do carlismo daquele tempo: o alinhamento entre governos municipal, estadual e federal como solução para os problemas da Bahia, que foi a tese central do carlismo durante muitos anos, às vezes com sucesso. A visita do presidente Lula a Salvador serviu para radicalizar esse discurso.”

Nelson Pelegrino não representa mais o petismo de antigamente. (Foto; AE)No primeiro turno da eleição municipal deste ano, conta Dantas, a polarização entre carlismo e petismo apareceu apenas como um símbolo no discurso dos candidatos, como forma de desconstruir a imagem do rival, e não como um embate entre ideias antagônicas. “A associação de ACM Neto ao carlismo foi feita pelo Pelegrino em uma tentativa de desgastar a imagem do candidato do DEM, que, por sua vez, tentou usar essa associação para se colocar como bastião da modernização, como o seu avô fora um dia”, afirma o professor. “O ACM Neto, em um erro estratégico ao meu ver, evitou esse embate político no início, quando estava com uma larga vantagem nas pesquisas e ameaçava ganhar no primeiro turno. Ele tentava se mostrar como um candidato tecnocrata, um gestor. Quando o embate político passou a ser inevitável, ele despencou nas pesquisas.”

Dantas afirma que uma vitória de ACM Neto não representaria um retorno do carlismo à vida política soteropolitana, assim como a eleição de Pelegrino não signficaria a volta do falecido petismo. A conquista do democrata em Salvador seria um intromissão do grupo de oposição federal formado, basicamente, por PSDB e DEM, em um reduto dominado nos últimos anos pelo grupo político formado pelas bases aliadas da presidenta Dilma Rousseff e do ex-presidente Lula. A eleição de um dos dois candidatos, que terminaram praticamente empatados nos votos válidos no primeiro turno, está, segundo o professor, na disputa pelo voto de 50% do total do eleitorado que não escolheu nenhum dos dois adversários. “Quem souber melhor conquistar o voto desse eleitor indeciso, será eleito prefeito de Salvador”, conclui Dantas.

 

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