'Acordamos e não tínhamos nada para comer', diz beneficiada por novo projeto social da prefeitura

O último domingo (19) na casa de Janete Evaristo, de 57 anos, foi marcado pela dor da fome. Mãe de quatro filhos, viúva há seis meses e desempregada há quase dez anos, ela depende de doações e também da compaixão dos amigos e de vizinhos. Naquela manhã, a família acordou e não tinha o que comer dentro de casa. Nem mesmo um pedaço de pão. E o drama de Janete não é exclusivo. Da mesma forma, a vida de Antônia Souza de Carvalho, de 64 anos, caminha junto com as dificuldades. Mãe solo de duas filhas, ela já perdeu as contas de quantas vezes precisou contar com as refeições da escola para que as filhas não sofressem. Nesta terça-feira, as duas começaram a ser atendidas pelo programa Prato Feito Carioca. A iniciativa oferece 200 quentinhas por dia em pontos de distribuição. Até o início de julho serão 15 cozinhas funcionando na cidade do Rio.

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— A situação está difícil, muito difícil. No domingo nós acordamos e não tínhamos nada para comer. Estou desempregada, meu marido faleceu tem seis meses. Eu estou catando latinhas nas ruas, mas às vezes eu não consigo levar alimentos para casa. Não tenho muitas pessoas para me ajudar — lamenta Janete, moradora do Morro dos Macacos, na Zona Norte do Rio, e que frequenta um curso de artesanato para tentar garantir renda para a família.

Antônia lembra dos dias em que, sem ter o que comer, esperava por doações. Hoje, ela deseja que a fome não seja realidade.

— Já passei fome nessa vida, coisa que não desejo para ninguém. Quando minhas filhas eram pequenas, eu dizia para elas almoçarem na escola, porque em casa não tinha o que comer. Vivi toda minha vida com trabalhos informais, ganhando às vezes R$ 40 para passar roupa ou limpar uma casa. Mas a idade avançada e a pandemia deixaram tudo mais difícil. Hoje eu vivo de auxílios e doações. É dessa forma que eu consigo comer — lamenta.

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O programa é uma iniciativa da Prefeitura do Rio, através da Secretaria Municipal de Assistência Social (Smas). O público alvo tem sido selecionado entre as famílias que são mais vulneráveis e que se encontram em situação de insegurança alimentar, de extrema pobreza. Além disso, precisam ser atendidas por um dos 47 Centros de Referência de Assistência Social (CRAS) da cidade do Rio. As pessoas escolhidas vão até os postos pegar as refeições de forma gratuita, diariamente, na área onde vivem.

O prefeito Eduardo Paes esteve presente na cerimônia de lançamento do programa e comentou sobre a importância da ação.

— Nós estamos enfrentando um drama que o Brasil parecia ter superado e voltou a existir, que é o drama da fome. Vamos garantir para todas as pessoas do Rio em vulnerabilidade social, que passem fome, algo inaceitável, que tenham direito a sua refeição diária. Esse projeto vai trazer um diferencial para a vida desses moradores.

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Paes também difere o projeto da iniciativa dia restaurantes populares já existentes:

— Esse programa leva a comida para perto das casas dessas pessoas mais miseráveis, evitando os gastos que possa ter com deslocamento até os restaurantes. Numa cidade do tamanho do Rio, uma pessoa que está com fome, além da comida, tem que arrumar o dinheiro da passagem e se deslocar para lá, muitas vezes com filhos.

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As duas primeiras cozinhas comunitárias foram inauguradas na quadra da escola de samba Mangueira e no Renascença, no Andaraí. Na próxima quinta-feira, mais três postos serão abertos pela prefeitura.

O Mapa da Fome, produzido pela Ação da Cidadania, aponta que, só no Estado do Rio, mais de 1,2 milhão de pessoas não conseguem colocar comida suficiente na mesa. O dado equivale a 6,8% de toda a população do Rio. A secretária municipal de Assistência Social, Maria Pucú, destaca a importância do projeto para a cidade.

— A população está com fome, e quem tem fome tem pressa. Construímos esse projeto a muitas mãos para que estivesse de pé hoje. É um benefício para pessoas em vulnerabilidade social que estão em situação de insegurança alimentar — diz.

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No Morro da Mangueira, Elenilda Felipe da Silva, de 64 anos, quase não dormiu esta noite, tamanha ansiedade. Ela mora com um filho especial, Rodrigo, de 29 anos, e tem mais seis filhos. A família recebe a ajuda de programas sociais. Nesta terça, ela foi a primeira a experimentar a comida do Prato Carioca: risoto de frango, feijão e cenoura, com uma banana de sobremesa.

— Eu sou cria da Mangueira, vivi a minha vida toda aqui nesse morro. Então não passei fome graças à ajuda de amigos. Mas várias vezes quis comer uma carne, algo um pouco diferente, e só tinha arroz em casa. Isso é triste, deixa a gente sem saber o que falar, principalmente para os nossos filhos, a quem sempre queremos dar tudo do bom e do melhor — afirma.

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Cartão Prato Feito Carioca em julho

Três organizações escolhidas por meio de processo seletivo público selecionaram as cozinhas nas comunidades. São elas: o Instinto Carioca, o Instituto Realizando o Futuro e o Desam, que cobrem por toda a extensão do Rio, do Centro à Zona Oeste. Cada uma das cozinhas recebeu apoio operacional e técnico da prefeitura para oferecer refeições nutritivas com respeito às normas de manipulação de alimentos da Vigilância Sanitária Municipal. A Smas forneceu equipamentos e alimentos. Todas têm equipes com um coordenador, nutricionista, assistentes, estagiários e técnicos. E tem o papel do "cozinheiro solidário" como grande articulador local.

Além das cozinhas comunitárias, a pasta vai começar a entregar, em 1º de julho, o cartão magnético Prato Feito Carioca, que vai garantir uma refeição por dia para os trabalhadores informais inscritos no CadÚnico (Cadastro Único dos programas sociais federais) e que fizeram cadastro no programa — as inscrições foram abertas em março e a prefeitura agora estuda uma forma de atender todos os inscritos. O cartão não tem custos para o usuário e permite que ele almoce em restaurantes e bares credenciados pela prefeitura, que vai custear cada refeição servida. Com o cartão, o usuário poderá comer no próprio restaurante ou levar quentinha para casa.

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