Acordo entre Doria e vice embaralha disputa em São Paulo em 2022

CAROLINA LINHARES E JOELMIR TAVARES
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*ARQUIVO* O governador João Doria e o vice Rodrigo Garcia. (Foto: Zanone Fraissat/Folhapress)
*ARQUIVO* O governador João Doria e o vice Rodrigo Garcia. (Foto: Zanone Fraissat/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A eleição municipal de 2020 acabou e João Doria (PSDB) não é candidato à reeleição em 2022. Com o resultado do pleito local e a informação sobre o futuro do governador, dirigentes e líderes partidários já começam a vislumbrar a disputa para o Governo do Estado de São Paulo, levando em conta que o vice-governador Rodrigo Garcia (DEM) é personagem central.

Na esquerda há um certo vácuo de nomes, enquanto a direita bolsonarista enfrenta o desafio da falta do partido. Outros campos apostam em figuras já conhecidas do paulista, como Márcio França (PSB) e Major Olímpio (PSL).

Mas o principal imbróglio se dá no autodenominado centro democrático, que reúne PSDB, DEM e MDB --e que estruturou a coligação de 11 partidos que acaba de reeleger Bruno Covas (PSDB) para a Prefeitura de São Paulo.

Como Doria mira o Planalto, o caminho está aberto para o vice. Na prática, hoje Garcia já funciona como uma espécie de gerente da gestão Doria. Procurado pela reportagem, o vice preferiu não comentar.

Segundo aliados de Garcia e de Doria, há um acordo de apoio mútuo entre os dois. O pacto, porém, tem dois empecilhos pela frente --minimizados por parte dos tucanos.

O primeiro é que, para apoiar a candidatura de Garcia, mesmo que a chapa contenha um vice do PSDB, os tucanos terão que abrir mão de ter candidatura própria no estado que governam há 25 anos (com duas breves interrupções).

Para o prefeito reeleito de Ribeirão Preto, Duarte Nogueira (PSDB), as articulações sobre 2022 ainda estão para serem feitas e dependem do quadro nacional. "Pelo que eu conheço, dificilmente o partido vai abrir mão de candidatura própria, mas claro que tudo é possível", diz.

A sinalização de Doria de que apoiará Garcia, feita em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, causou arrepios entre aliados do ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB), que defendem uma candidatura dele ao estado.

Esses tucanos lembram que, em 2018, Alckmin tentou emplacar seu então vice, França, na sucessão do Palácio dos Bandeirantes, mas foi vencido dentro do PSDB, que preferiu lançar Doria. A tese da candidatura tucana, portanto, beneficiou o hoje governador que se opõe a ela.

"Não vamos abrir mão da candidatura. Vamos levar isso para a militância decidir. Doria passou por isso [em 2018], que ele abra mão agora, acho o fim do mundo. Podemos apoiar Rodrigo [Garcia] num segundo turno ou ele nos apoiar", diz Pedro Tobias, ex-presidente estadual do PSDB.

Além de Alckmin, dois nomes são mencionados quando a conversa é sobre um candidato do PSDB, o do ex-senador José Aníbal e o do prefeito Covas, embora esse último seja considerado improvável, já que ele se comprometeu a administrar a capital por quatro anos.

O plano B de Doria é lançar a secretária de Desenvolvimento Econômico, Patricia Ellen, que hoje não é filiada a nenhum partido.

O entorno de Doria e do vice, contudo, duvida de que o acordo não se concretize. Eles afirmam, reservadamente, que Doira controla a maior parte da máquina do PSDB no estado e que os partidários de Alckmin são minoria.

O fiel da balança pode ser o prefeito Covas, que, reeleito com votação própria, sai da sombra de Doria e passa a ter voz de peso nas decisões. Aliados do prefeito avaliam que ele tende a apoiar Garcia.

Boa parte dos tucanos dizem que hoje a escolha de Covas é por Garcia, mesmo que a outra opção seja Alckmin. Isso porque o ex-governador poderia ser contemplado com uma vaga ao Senado e Garcia contribuiu na campanha do prefeito. O vice-governador estava reunido com o prefeito e tucanos quando o resultado da reeleição saiu no último domingo (29).

Fora do PSDB, a leitura é a de que o ex-governador tucano tem mais prestígio.

O acordo Doria-Garcia passa pelo plano nacional e encontra ali seu segundo obstáculo. A ideia é que, em troca de eventualmente governar São Paulo, o DEM apoie Doria para a Presidência.

A hipótese é vista entre parte dos políticos do DEM e do PSDB como o caminho mais natural, mas não é garantida. O DEM flerta ainda com Ciro Gomes (PDT) e com um nome próprio, como Rodrigo Maia, Luiz Henrique Mandetta ou até o apresentador Luciano Huck como novo filiado.

Caso o DEM não lhe endosse, a opção desenhada pelo governador é que Garcia mude de partido e receba o apoio dos tucanos. Como contrapartida, Garcia, que será governador em exercício em 2022, terá o palanque de São Paulo para oferecer a Doria.

O PSDB não seria o destino provável de Garcia. Um partido citado como opção é o MDB, no qual dirigentes pregam hoje o embarque na candidatura do vice, embora avaliem que os tucanos devam ter nome próprio.

A cúpula do MDB se aproximou dos planos de Doria, o que enfraquece o presidente da Fiesp, Paulo Skaf (MDB), embora ele continue sempre lembrado como possível candidato a governador.

Próximo do presidente Jair Bolsonaro, Skaf pode ser uma alternativa ao campo bolsonarista. Procurado pela reportagem, ele afirmou que 2022 ainda está longe. Conservadores, porém, torcem o nariz para essa opção. Preferem o ex-ministro da Educação Abraham Weintraub.

O que falta nesse caso é um partido. Caso a Aliança pelo Brasil não se viabilize, o deputado estadual Douglas Garcia (PTB) diz que sua sigla, comandada por Roberto Jefferson, pode acolher o ex-ministro.

Também são citados como potenciais candidatos o deputado federal Luiz Philippe de Orleans e Bragança (PSL-SP) e o deputado estadual Gil Diniz (sem partido).

O campo bolsonarista segue fragmentado, com nomes espalhados por legendas como PRTB, PTB, PSL, Patriota e Republicanos.

"Seria muito bom se o Eduardo [Bolsonaro] pudesse tomar a frente dessa articulação. Temos tempo de fazer esse planejamento e reorganizar a direita aqui em São Paulo", afirma o empresário Otávio Fakhoury.

Já a direita desvencilhada de Bolsonaro trabalha com Olímpio e o deputado estadual Arthur do Val (Patriota) como opções. Arthur, o youtuber Mamãe Falei e membro do MBL, se credenciou pela votação que obteve à Prefeitura de São Paulo, de 9,78%.

O PSL, com maior tempo de TV e maior fundo eleitoral, é ator importante. O presidente estadual, deputado federal Júnior Bozzella, vê o senador como candidato preferencial, mas não descarta nomes como Joice Hasselmann (PSL) e Janaina Paschoal (PSL) --e reuniu-se com Arthur em busca de composição.

No PSB, a candidatura de França é vista como um caminho natural e que tem a simpatia do PDT.

O ex-governador ainda não confirma oficialmente o plano, mas manteve uma agenda intensa de diálogos nas últimas semanas e fez contato com nomes como Ciro Gomes (PDT) e Gilberto Kassab (PSD).

França terminou em terceiro lugar na disputa pela prefeitura da capital. Em 2018, perdeu a eleição no estado para Doria por margem apertada, 48,25% a 51,75%, e é considerado um nome competitivo.

Aliados dizem que, apesar da ausência no segundo turno, ele saiu do pleito municipal com o capital político inabalado.

O PT buscará uma candidatura ao governo, mas sofre com uma escassez de alternativas. O ex-senador Aloizio Mercadante é lembrado, assim como Fernando Haddad, caso não esteja na chapa presidencial.

Os petistas, contudo, deverão buscar outros partidos progressistas, como PSOL e PC do B, para tentar a composição de uma chapa única.

No PSOL, a alternativa óbvia para o governo é o líder do MTST (Movimento dos Trabalhadores sem Teto), Guilherme Boulos, que perdeu no segundo turno a eleição na capital paulista.

Em entrevista à Folha de S.Paulo após a derrota, Boulos desconversou sobre a hipótese. Tanto ele quanto dirigentes da legenda têm ressaltado que uma definição dependerá antes de uma união dos partidos de esquerda e de definições das chapas presidenciais, onde Boulos também se encaixa.

Outro partido de relevância no estado, o PSD de Kassab, ainda avaliará alternativas a partir de fevereiro. "Temos bons quadros e, evidentemente, que as alianças são legítimas", diz Kassab. Políticos de DEM e PSDB apostam, contudo, que o PSD endossará seu plano.

O Republicanos, que terminou em quarto na capital com Celso Russomanno, ainda não tem perspectivas definidas.